Resenha: O elefante desaparece, de Haruki Murakami

“Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma ligeira vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu sentia nas pontas dos dedos uma vaga sensação de tocar no umbral das fronteiras do sono, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta. As poucas e breves cochiladas eram acompanhadas de uma nítida impressão de que minha consciência, sempre vigilante, observava-me atentamente do quarto ao lado, separada por uma fina parede. O meu corpo pairava relutante na penumbra, sentindo na pele sua respiração e seu olhar. Da mesma forma que o meu corpo desejava dormir, minha consciência queria igualmente me manter alerta.” (Sono)

O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos de Haruki Murakami. Pode não parecer, mas o título dá uma ideia do que esperar nas histórias: fatos estranhos capazes de afetar a realidade de maneiras curiosas. Como é de costume do autor japonês, as tramas são repletas de personagens solitários e melancólicos, com a presença pontual de surrealismo. A ambientação envolvente da maior parte das narrativas foi o detalhe que me fez gostar bastante dessa coletânea.

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Resenha: Tirza, de Arnon Grunberg

“A mesa já estava posta para dois. Ele a arrumava bem antes de o jantar estar pronto. Às vezes começava a fazer isso assim que chegava do trabalho. Porque mal podia esperar que ele e Tirza se sentassem a mesa, porque aquele momento restituía o equilíbrio que sempre ameaçava se perder. Tirza e ele, à mesa, jantando. O simulacro de uma família e, mais que isso, um pacto. Um pacto sagrado.”  (Pág. 34)

Tirza, do holandês Arnon Grunberg, é um livro desconcertante e interessantíssimo ao mesmo tempo. A premissa é bem simples: um homem tem uma vida perfeita, mas o que existe por trás dessa fachada? Um protagonista desagradável, fatos inquietantes e uma narrativa bem amarrada me prenderam e me intrigaram durante toda a leitura. Continue Lendo “Resenha: Tirza, de Arnon Grunberg”

Resenha: Os Braceletes da Perdição (Mistborn: Segunda Era #3), de Brandon Sanderson

“— As pessoas são como cordões, Steris — disse Wax. — Nós saímos deslizando, para um lado e para outro, sempre procurando algo novo. Faz parte da natureza humana descobrir o que está escondido. Há tanto que podemos fazer, tantos lugares aonde podemos ir. — Ele se ajeitou no assento, mudando o centro de gravidade, o que fez a esfera girar para cima. — Mas se não há limites, ficamos enrolados — disse ele. — Imagine mil desses cordões disparando pela sala. A lei está aí para nos impedir de barrar a capacidade de explorar de todos os outros. Sem lei não há liberdade. Por isso sou o que sou.
— E a caçada? — perguntou Steris, verdadeiramente curiosa. — Isso não lhe interessa?
— Claro que sim — disse Wax, sorrindo. — Isso é parte da descoberta, parte da procura. Descobrir quem fez. Descobrir os segredos, as respostas.
Havia, claro, outra parte, a parte que Miles forçara Wax a admitir. Havia certa raiva perversa dirigida aos que violavam a lei, quase uma inveja. Como essas pessoas ousavam escapar? Como ousavam ir aos lugares aonde ninguém mais podia ir?”

Eletrizante é uma palavra que eu usaria para resumir Os Braceletes da Perdição, o terceiro livro de Mistborn: Segunda Era. O autor Brandon Sanderson apostou em uma aventura repleta de ação e reviravoltas, sem deixar de desenvolver os personagens e o universo. O andamento excelente me prendeu de uma maneira impressionante, devorei rapidamente o livro — e já quero mais. Continue Lendo “Resenha: Os Braceletes da Perdição (Mistborn: Segunda Era #3), de Brandon Sanderson”

Resenha: A Amiga Genial, de Elena Ferrante

“Logo precisei admitir que as coisas que eu fazia sozinha não eram capazes de disparar meu coração, só aquilo que Lila tocava se tornava importante. Se ela se distanciava, se sua voz se afastava das coisas, estas se cobriam de manchas, de poeira. A escola média, o latim, os professores, os livros, a língua dos livros me pareceram definitivamente menos sugestivos que o acabamento de um sapato, e isso me deprimiu.”

Gosto bastante de histórias cujo o foco é algum tipo de relação complexa entre personagens. A Amiga Genial, da misteriosa escritora Elena Ferrante, é justamente esse tipo de livro. Nele, acompanhamos a amizade complicada de duas amigas em uma Nápoles pós-guerra, e quando dei por mim já estava completamente envolvido com a história e suas protagonistas cativantes. Continue Lendo “Resenha: A Amiga Genial, de Elena Ferrante”

Anime: Mary and the Witch’s Flower (Mary to Majo no Hana)

Uma das minhas características favoritas em longas de animação é a capacidade de ser transportado para uma realidade surreal. Animações japonesas, no geral, costumam explorar universos fantásticos e exóticos, propondo histórias incríveis, principalmente no aspecto visual. O longa Mary and the Witch’s Flower (メアリと魔女の花 — Mary to Majo no Hana) conta com todos esses detalhes em uma aventura repleta de magia e carisma. Esse filme me conquistou com sua história simples, porém cativante, e sua excelente ambientação. Continue Lendo “Anime: Mary and the Witch’s Flower (Mary to Majo no Hana)”

Resenha: As Sombras de Si Mesmo (Mistborn: Segunda Era #2), de Brandon Sanderson

“Não. Aradel estava com outras pessoas quando o sacerdote foi morto. Ferrugem!… A criatura estava deixando Marasi assustada, desconfiada de que qualquer um que encontrasse podia ser a kandra. Resolveu pegar uma xícara de chá, esperando que isso ajudasse a afastar de sua cabeça a imagem do pobre padre Bin pendurado na parede. Não se encontrava nem a meio caminho da mesa onde estavam as garrafas quando as portas do vestíbulo se abriram e Waxillium entrou.
As tiras de seu casaco ondulavam como as brumas, e seus passos poderosos incentivavam os policiais menos graduados a saírem do caminho. Como podia encarnar tão completamente tudo o que os policiais deveriam ser e não eram? Nobre sem ser arrogante, contemplativo e ainda assim proativo, inflexível, mas curioso. Marasi sorriu e correu atrás dele. Foi só quando chegaram à capela, com a grande cúpula de vidro e o padre morto pendurado no extremo oposto, que ela percebeu que tinha esquecido completamente o chá.”

A Liga da Lei, primeiro livro da série Mistborn: Segunda Era, me surpreendeu com ótimos personagens, trama bem pensada e muitas referências sutis à trilogia inicial. O primeiro volume me incomodou um pouco com a sensação de ser somente uma introdução a algo maior, já As Sombras de Si Mesmo, o segundo livro da Segunda Era, aprofunda os aspectos apresentados anteriormente e vai em uma direção que eu não esperava. Mais séria e mais sombria, a segunda aventura de Wax e seus amigos me prendeu com sua trama mais intrincada.

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Resenha: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

“Clara passou a infância e entrou na juventude dentro das paredes de sua casa, num mundo de histórias assombrosas, de silêncios tranquilos, onde o tempo não se marcava com relógios nem com calendários e onde os objetos tinham vida própria, as aparições se sentavam à mesa e falavam com os humanos, o passado e o futuro faziam parte da mesma coisa e a realidade do presente era um caleidoscópio de espelhos desordenados onde tudo podia acontecer.”

Vez ou outra, aparece uma história com uma experiência arrebatadora e que me faz ler por horas sem nem notar a passagem do tempo. A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um desses livros. A obra da autora chilena ficou na minha cabeça por semanas por causa de seus ótimos personagens, trama diversa e interessante, e a escrita bem construída. Continue Lendo “Resenha: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende”

Resenha: A Floresta Sombria, de Cixin Liu

“— Você acredita mesmo que os trissolarianos vão preservar a herança cultural da humanidade? Eles não têm a menor consideração por nós.
— Acha isso porque eles disseram que nós somos insetos? Mas não é esse o significado. Yan Yan, sabe qual é o maior gesto de consideração que uma raça ou civilização pode receber?
— Não, qual?
— Aniquilação. Esse é o maior sinal de respeito possível para uma civilização. Eles só se sentiriam ameaçados por uma civilização que realmente respeitam.”

Lembro-me perfeitamente bem de ter ficado intrigado com O Problema dos Três Corpos, mesmo com o incômodo dos vários problemas do livro. De qualquer maneira, foi uma história que ficou na minha cabeça por meses. Já a continuação, A Floresta Sombria, me prendeu desde sua premissa, o que me fez ler freneticamente o volume. O segundo livro da trilogia me surpreendeu bastante em quase todos os aspectos. Continue Lendo “Resenha: A Floresta Sombria, de Cixin Liu”

Resenha: A Liga da Lei (Mistborn: Segunda Era #1), de Brandon Sanderson

“Havia uma emoção naquilo, no voo de um Lançamoedas. Era uma liberdade que nenhum outro alomântico conhecia. Quando ele dominava o ar, sentia a mesma empolgação que teve anos antes, quando partiu para arriscar a vida nas Terras Brutas. Desejava que estivesse usando seu casaco de bruma e que houvesse brumas ao redor. Tudo parecia funcionar melhor nas brumas. Diziam que elas protegiam os justos.”

A série Mistborn me conquistou com seu sistema de magia único, personagens cativantes e mundo bem construído. Depois de terminar a primeira trilogia, fiquei com muita vontade de revisitar esse universo criado por Brandon Sanderson. Para a minha sorte, o autor tinha mais planos para franquia. Mistborn: Segunda Era se passa 300 anos após as aventuras de Vin e Elend e tem como protagonista um vigilante chamado Waxillium Ladrian. A Liga da Lei, o primeiro livro dessa quadrilogia, traz uma história de ritmo bem diferente, com pegada steampunk, sem deixar de ser divertida. Continue Lendo “Resenha: A Liga da Lei (Mistborn: Segunda Era #1), de Brandon Sanderson”

Resenha: O homem que buscava sua sombra (Millennium 5), de David Lagercrantz

“Não mesmo! Você…” Alvar tomou fôlego. “Você me agrediu. A situação não está nada boa para o seu lado.”
“A situação não está nada boa é para você”, disse Salander. “As pessoas são oprimidas e agredidas aqui dentro e você não levanta um dedo para acabar com isso. Tem noção do escândalo que seria se as pessoas soubessem disso lá fora? O garoto-propaganda do serviço penitenciário manipulado por uma pequena Mussolini!”
“Mas…”, Alvar tentou interrompê-la.
“Nada de ‘mas’. Vou ajudar você a dar um jeito nisso, com a condição de que você me dê acesso a um computador ligado à internet.”
“Impossível”, retrucou Alvar, tentando parecer durão. “Existem câmeras em todos os corredores. Você se deu mal.”
“No caso, nós dois nos demos mal, e por mim tudo bem”, ela disse.

Eu fiquei muito surpreso (e apreensivo) quando foi anunciado que o escritor sueco David Lagercrantz iria continuar Millennium, a série de livros criada por Stieg Larsson. Eu gostei de Millennium 4: A Garota na Teia de Aranha, levando em consideração que é uma sequência escrita por outro autor — a trama é interessante e me cativou bastante. O homem que buscava sua sombra é o novo volume da série e eu até gostei do livro, mesmo sendo facilmente o pior episódio até o momento. Continue Lendo “Resenha: O homem que buscava sua sombra (Millennium 5), de David Lagercrantz”