Resenha: A Vegetariana, de Han Kang

“Mas olhe só para o jantar que ela tinha preparado agora. Sentada de lado na cadeira, estava levando para a boca colheradas de sopa de alga marinha claramente sem sabor, enquanto enrolava pasta de soja e arroz numa folha de alface enchendo a bochecha e mastigando.
Eu não sabia absolutamente nada sobre aquela mulher — foi o pensamento que de repente me ocorreu.” (Pág. 19)

A Vegetariana, da autora sul-coreana Han Kang, me pegou de surpresa. Eu sabia por alto que a trama era sobre como a decisão de uma mulher de não comer mais carne afeta a vida dela e de sua família, mas eu não estava preparado para os desenvolvimentos do livro. É uma trama densa, repleta de camadas e questionamentos, embaladas por uma narrativa exótica e hipnotizante — mais uma daquelas obras que ficam na mente por muito tempo. Continue Lendo “Resenha: A Vegetariana, de Han Kang”

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Resenha: O assassinato do comendador (Vol. 1), de Haruki Murakami

“Para falar a verdade, até aquele momento eu acreditava que as obras nihon-ga sempre retratavam o mundo de maneira estilizada e serena. Tinha a visão limitada de que a técnica e os motes desse estilo não se prestavam a expressar emoções intensas, fazendo parte de um mundo totalmente distinto do meu. Entretanto, ao ver O assassinato do comendador, me dei conta de que isso não passava de um preconceito infundado. Naquele duelo mortal retratado por Tomohiko Amada existia algo capaz de abalar profundamente o observador. Um homem vitorioso, outro vencido. Um homem que fere, outro que é ferido. O contraste era algo que chamava a atenção. Aquela pintura tinha algo de especial.” (Pág. 75)

Eu estava bastante ansioso para conferir O assassinato do comendador, o primeiro romance inédito de Haruki Murakami em anos. A premissa inusitada, o estilo característico do autor (que é um dos meus favoritos) e alguns comentários positivos me deixaram muito curioso. No Brasil, a obra, que é um pouco longa, foi dividida em duas partes. Conferi o Volume 1 e é praticamente o que eu imaginava, por mais que eu esperava um pouco mais. Continue Lendo “Resenha: O assassinato do comendador (Vol. 1), de Haruki Murakami”

Resenha: Matéria escura, de Blake Crouch

“Não há avisos quando tudo está prestes a mudar, a ser tomado de você. Nenhum alerta de proximidade, nenhuma placa indicando a beira do precipício. E talvez seja isso o que torna a tragédia tão trágica. Não é apenas o que acontece, mas como acontece: um soco que vem do nada, quando você menos espera. Não dá tempo de se esquivar ou se proteger.”

Múltiplos universos é um assunto que me fascina (e me assusta), pois fico imaginando as várias possibilidades da possível existência desse conceito. Matéria escura, romance de Blake Crouch, explora a premissa de multiversos em uma história bem pensada e de ritmo acelerado. Reviravoltas surpreendentes e um texto ágil me conquistaram, foi um livro que li em um curto espaço de tempo.

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Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst

“— É exatamente para isso que servem as fogueiras — diz. — Para partilhar histórias. Há uma ligação espiritual entre a chama e a narrativa.
S. concorda. Ele compreende intuitivamente a proposição de Stenfalk; criamos histórias que nos ajudam a moldar um mundo caótico, avançar em meio às desigualdades de poder, aceitar nossa falta de controle sobre a natureza, os outros, nós mesmos. Mas o que você faz quando não tem as próprias histórias?” (Pág. 146)

S. me intrigou desde a primeira vez que soube de sua existência. O livro, que é fruto de uma parceria entre o produtor J. J. Abrams (conhecido principalmente pela série Lost) e o romancista Doug Dorst, não é nada usual, pois apresenta histórias dentro de histórias, com enigmas e várias camadas. Além disso, o volume é muito bem produzido com notas escritas à mão nas margens e itens inseridos nas páginas, como postais, cartas e fotos. Depois de anos na minha estante, finalmente decidi encarar S. e gostei bastante da experiência. Continue Lendo “Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst”

Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

“Nunca nos damos conta do vazio em que deixamos passar o tempo enquanto não vivemos de verdade. Por vezes a vida, não os dias queimados, é só um instante, um dia, uma semana, um mês. Sabemos que estamos vivos porque dói, porque de repente tudo importa e porque quando esse breve momento se acaba, o resto da existência se transforma numa recordação à qual tentamos em vão regressar enquanto nos resta alento no corpo.”

Lembro-me com clareza o quanto eu fiquei absorto em A Sombra do Vento. O romance de Carlos Ruiz Zafón me conquistou com sua narrativa intrincada, ótima trama e personagens memoráveis — gostei demais de me perder por uma Barcelona sombria e repleta de mistérios. Acompanhei com afinco toda a série “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, e agora, mais de dez anos após a leitura primeiro volume, conferi o fim da tetralogia com O Labirinto dos Espíritos. O livro tem todas as ótimas características do autor com uma história com ambientação impecável e ótimo ritmo, o que tornou a experiência muito envolvente. Continue Lendo “Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón”

Minhas leituras favoritas de 2018

2018 foi um ano bem intenso e, para mim, passou num piscar de olhos. No campo das leituras, eu acabei lendo um pouco menos que no ano anterior, no entanto abri um pouco meus horizontes com alguns livros que eu nem sonhava em conferir. Continue Lendo “Minhas leituras favoritas de 2018”

Resenha: Praia de Manhattan, de Jennifer Egan

“Cada vez que Anna transitava do mundo de seu pai para o de sua mãe e de Lydia, sentia que largava uma vida pela outra, mais profunda. E quando voltava para junto do pai, de mãos dadas com ele enquanto percorriam a cidade, era a vez de largar sua mãe e Lydia, muitas vezes esquecendo-se delas por completo. De um lado para outro ela ia, submergindo cada vez mais — e ainda mais —, até ter a impressão de que não tinha como afundar mais. Contudo, de algum modo, sempre tinha. Nunca chegava a tocar o fundo.”

Uma Nova York sombria e nada glamourosa é o cenário de Praia de Manhattan, de Jennifer Egan. Ao contrário de outros trabalhos da autora, como A Visita Cruel do Tempo, esta é uma obra mais tradicional: o foco é na vida de Anna Kerrigan, uma mulher que decide ser mergulhadora ao mesmo tempo em que procura o pai desaparecido. Praia de Manhattan me conquistou com seus ótimos personagens e sua narrativa envolvente. Continue Lendo “Resenha: Praia de Manhattan, de Jennifer Egan”

Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter

“    Ela pegou a caixa, sopesou-a; pesava quase nada. Levantou a tampa. Outro pedaço de papel, encabeçado pelas palavras TERMINE O APARELHO, tinha instruções simples, parecidas com o diagrama que fora parar na rede. Você não pode usar peças de ferro; essa advertência estava sublinhada. Era preciso apenas enrolar manualmente algumas bobinas de fio de cobre e deslizar contatos para sintonizá-las.
    A policial começou a trabalhar. Enrolar as bobinas era uma tarefa agradável, embora ela não soubesse explicar o porquê. (…)
    Quando terminou, ela fechou a tampa, segurou a chave, cruzou os dedos mentalmente e colocou a chave na posição OESTE.
    A casa desapareceu em uma lufada de ar fresco.
    Flores do campo, por toda parte, até a cintura, como em uma reserva natural.”

A Terra Longa me chamou a atenção com sua premissa: a humanidade descobriu a existência de Terras paralelas e, naturalmente, as pessoas decidem desbravá-las. De autoria conjunta de Terry Pratchett (da série Discworld) e Stephen Baxter (que lançou várias histórias de ficção científica), o livro explora o conceito de mundos paralelos na forma de uma grande viagem repleta de pequenas histórias. Mesmo com alguns pontos problemáticos, apreciei a jornada pelo multiverso da Terra Longa. Continue Lendo “Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter”

Resenha: Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

“Fechei os olhos e vi as crianças fazendo a brincadeira de novo. —A facilidade me pareceu muito assustadora — falei. —Agora entendo por quê.
—O quê?
—A facilidade. Nós, as crianças… Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão.” (Pág. 164)

O que aconteceria se uma mulher negra da década de 1970 fosse parar na época da escravidão? Essa é a premissa de Kindred: Laços de Sangue, uma das obras mais famosas de Octavia E. Butler. Racismo e escravidão são abordados em uma história intensa, cuja sensação de perigo constante é palpável. A narrativa ágil e a temática nada usual me prenderam do início ao fim. Continue Lendo “Resenha: Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler”

Resenha: O elefante desaparece, de Haruki Murakami

“Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma ligeira vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu sentia nas pontas dos dedos uma vaga sensação de tocar no umbral das fronteiras do sono, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta. As poucas e breves cochiladas eram acompanhadas de uma nítida impressão de que minha consciência, sempre vigilante, observava-me atentamente do quarto ao lado, separada por uma fina parede. O meu corpo pairava relutante na penumbra, sentindo na pele sua respiração e seu olhar. Da mesma forma que o meu corpo desejava dormir, minha consciência queria igualmente me manter alerta.” (Sono)

O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos de Haruki Murakami. Pode não parecer, mas o título dá uma ideia do que esperar nas histórias: fatos estranhos capazes de afetar a realidade de maneiras curiosas. Como é de costume do autor japonês, as tramas são repletas de personagens solitários e melancólicos, com a presença pontual de surrealismo. A ambientação envolvente da maior parte das narrativas foi o detalhe que me fez gostar bastante dessa coletânea.

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