Resenha: A Garota Marcada Para Morrer (Millennium 6), de David Lagercrantz

“— O que ela quis dizer?
— Também me perguntei isso, mas então me veio à cabeça a história do pai dela.
— Como assim?
— Porque daquela vez ela se defendeu atacando primeiro, e fiquei com a sensação de que ela estava planejando alguma coisa parecida de novo: atacar primeiro. Me assustei, Mikael. Eu vi os olhos dela, e aí não importava mais que ela fosse o sonho de toda sogra ou sei lá o quê. Ela parecia extremamente perigosa. Seu olhar era de uma escuridão total.
— Acho que você está exagerando. Lisbeth não é de correr riscos desnecessários. Ela costuma ser bem racional.
— Ela é racional, só que do jeito louco dela. Mikael pensou no que Lisbeth tinha dito a ele no Kvarnen: que ela ia ser o gato e não o rato.”

Fui pego de surpresa quando soube que A Garota Marcada Para Morrer, o sexto livro da série Millennium, já tinha sido lançado. A franquia foi criada pelo sueco Stieg Larsson, que infelizmente faleceu após a publicação do terceiro volume. Após isso, a série teve continuidade pelas mãos de David Lagercrantz, que produziu dois livros razoáveis (A Garota na Teia de Aranha e O homem que buscava sua sombra), porém nem de longe tão bons quanto a trilogia inicial. O sexto e último volume da franquia repete a fórmula dos dois anteriores em uma leitura agradável que eu apreciei, mas que não oferece a mesma qualidade dos originais. Continue Lendo “Resenha: A Garota Marcada Para Morrer (Millennium 6), de David Lagercrantz”

Resenha: Tudo pode ser roubado, de Giovana Madalosso

”   Na verdade, li só uma parte. Larguei quando uma índia conhece o tal Guarani e, meia hora depois de conhecer o cara, quando os dois são atacados por outros índios, ela se joga na frente dele para salvá-lo de uma flechada e morre com a lança cravada no peito. Ela chega nesse grau de paixão e abnegação meia hora depois de conhecer o cara. Não sei como as coisas eram naquela época, mas sei que hoje ninguém se atira na sua frente, nem que seja pra te salvar de uma picada de abelha.
    Que amarga você.
    Amarga não, garçonete. Passo várias horas por dia ouvindo as conversas dos outros. Claro que não dá pra ouvir tudo, mas o suficiente pra saber que, com poucas exceções, o egoísmo venceu o amor.”

Uma garçonete paulista que seduz pessoas e surrupia discretamente seus pertences é a protagonista de Tudo pode ser roubado, o primeiro romance da curitibana Giovana Madalosso. Fiquei intrigado com o conceito curioso, e no fim acabei fisgado pela narrativa ágil, personagens cativantes e algumas reflexões contemporâneas interessantes em uma leitura bem divertida e politicamente incorreta. Continue Lendo “Resenha: Tudo pode ser roubado, de Giovana Madalosso”

Resenha: Tóquio proibida, de Jake Adelstein

““Ou você apaga essa matéria ou apagamos você. E talvez sua família também. Eles primeiro, que é para você aprender a lição antes de morrer.”
O testa de ferro bem vestido falava muito devagar, da maneira como se fala com idiotas ou com crianças, ou como os japoneses às vezes falam com estrangeiros desorientados.
Parecia uma declaração como outra qualquer.
“Largue essa matéria e largue o emprego, e vai ser como se nada tivesse acontecido. Escreva o artigo, e não haverá neste país lugar algum em que a gente não ache você. Entendido?”
Nunca foi uma boa ideia estar contra o Yamaguchi-gumi, a maior facção do crime organizado no Japão. Com cerca de 40 mil membros, é um bocado de gente para provocar.”

O Japão reside no imaginário de muitas pessoas por causa de várias características, como sua cultura exótica, sociedade organizada e alta tecnologia. Mas, na verdade, no país há um mundo de crime, tráfico e exploração, atividades essas muitas vezes controladas pela yakuza, a famosa máfia japonesa. Em Tóquio proibida, o repórter Jake Adelstein mostra um pouco desse Japão não muito conhecido em um livro que é um misto de biografia e reportagem. A obra me conquistou com seu ritmo acelerado, abordagem de fatos interessantíssimos (mesmo que bastante deploráveis) e as várias reflexões. Continue Lendo “Resenha: Tóquio proibida, de Jake Adelstein”

Resenha: Recursão, de Blake Crouch

“É intenso demais. Pior que a tortura da asfixia, mas igualmente fora de seu controle, porque não é uma lembrança que ele esteja buscando por conta própria. De alguma forma, está sendo projetada em sua mente, contra sua vontade, e lhe ocorre que talvez haja um motivo para nossas lembranças serem armazenadas com um ar nebuloso e desfocado. Talvez a abstração que as reveste sirva como um anestésico, um amortecedor que nos protege da agonia do tempo e de tudo que ele rouba e apaga de nossa vida.”

Conheci Blake Crouch por meio de seu livro Matéria Escura, o qual li em pouquíssimos dias por causa de sua trama interessante e excelente ritmo. Sendo assim, fiquei animado quando soube da existência de Recursão, seu segundo trabalho. Assim como a obra anterior, o novo livro usa um aspecto científico para criar uma história única de ficção científica misturada com mistério em uma narrativa ágil, em uma interpretação bem pensada de viagem no tempo. Continue Lendo “Resenha: Recursão, de Blake Crouch”

Resenha: Branco Letal (Cormoran Strike #4), de Robert Galbraith (J.K. Rowling)

“– Infelizmente – disse Strike – não posso assumir o trabalho nesses termos, Izzy.
– E por que não?
– O cliente não tem que me dizer o que posso e não posso investigar. Se não quiser toda a verdade, não sou o homem certo para você.
– Você é, sei que é o melhor, por isso papai o contratou e é por isso que eu quero você.
– Então você vai precisar responder a perguntas quando eu as fizer, em vez de me dizer o que importa e o que não importa.
Ela o olhou feio por cima da borda da xícara de chá e depois, para surpresa dele, deu uma risada frágil.
– Não sei por que estou surpresa. Eu sabia que você era assim.”

Desde que li O Chamado do Cuco, o primeiro romance policial de Robert Galbraith (um pseudônimo utilizado por J.K. Rowling), me tornei fã das histórias do detetive Cormoran Strike. Gosto demais dos mistérios instigantes e intrincados, das narrativas bem escritas, e da sinergia entre a dupla de protagonistas. As adaptações para a TV também me agradaram, pois conseguem passar a atmosfera da série em episódios curtos. Branco Letal, o quarto volume da série, tem a trama mais longa e complexa até o momento, e me prendeu fortemente até o fim. Continue Lendo “Resenha: Branco Letal (Cormoran Strike #4), de Robert Galbraith (J.K. Rowling)”

Minhas leituras favoritas de 2019

O meu ano de 2019 foi um pouco mais inconstante e muitas coisas aconteceram em ciclos — teve momentos que eu consegui me concentrar bem, em outros os hábitos sumiram quase que completamente. Isso se refletiu nas minhas leituras do ano, que tiveram grande variação: alguns livros eu li em dois dias, outros demorei semanas, e também tive períodos longos sem ler. Mas mesmo assim, milagrosamente, bati minha meta de 30 livros. Continue Lendo “Minhas leituras favoritas de 2019”

Resenha: A Vegetariana, de Han Kang

“Mas olhe só para o jantar que ela tinha preparado agora. Sentada de lado na cadeira, estava levando para a boca colheradas de sopa de alga marinha claramente sem sabor, enquanto enrolava pasta de soja e arroz numa folha de alface enchendo a bochecha e mastigando.
Eu não sabia absolutamente nada sobre aquela mulher — foi o pensamento que de repente me ocorreu.” (Pág. 19)

A Vegetariana, da autora sul-coreana Han Kang, me pegou de surpresa. Eu sabia por alto que a trama era sobre como a decisão de uma mulher de não comer mais carne afeta a vida dela e de sua família, mas eu não estava preparado para os desenvolvimentos do livro. É uma trama densa, repleta de camadas e questionamentos, embaladas por uma narrativa exótica e hipnotizante — mais uma daquelas obras que ficam na mente por muito tempo. Continue Lendo “Resenha: A Vegetariana, de Han Kang”

Resenha: O assassinato do comendador (Vol. 1), de Haruki Murakami

“Para falar a verdade, até aquele momento eu acreditava que as obras nihon-ga sempre retratavam o mundo de maneira estilizada e serena. Tinha a visão limitada de que a técnica e os motes desse estilo não se prestavam a expressar emoções intensas, fazendo parte de um mundo totalmente distinto do meu. Entretanto, ao ver O assassinato do comendador, me dei conta de que isso não passava de um preconceito infundado. Naquele duelo mortal retratado por Tomohiko Amada existia algo capaz de abalar profundamente o observador. Um homem vitorioso, outro vencido. Um homem que fere, outro que é ferido. O contraste era algo que chamava a atenção. Aquela pintura tinha algo de especial.” (Pág. 75)

Eu estava bastante ansioso para conferir O assassinato do comendador, o primeiro romance inédito de Haruki Murakami em anos. A premissa inusitada, o estilo característico do autor (que é um dos meus favoritos) e alguns comentários positivos me deixaram muito curioso. No Brasil, a obra, que é um pouco longa, foi dividida em duas partes. Conferi o Volume 1 e é praticamente o que eu imaginava, por mais que eu esperava um pouco mais. Continue Lendo “Resenha: O assassinato do comendador (Vol. 1), de Haruki Murakami”

Resenha: Matéria escura, de Blake Crouch

“Não há avisos quando tudo está prestes a mudar, a ser tomado de você. Nenhum alerta de proximidade, nenhuma placa indicando a beira do precipício. E talvez seja isso o que torna a tragédia tão trágica. Não é apenas o que acontece, mas como acontece: um soco que vem do nada, quando você menos espera. Não dá tempo de se esquivar ou se proteger.”

Múltiplos universos é um assunto que me fascina (e me assusta), pois fico imaginando as várias possibilidades da possível existência desse conceito. Matéria escura, romance de Blake Crouch, explora a premissa de multiversos em uma história bem pensada e de ritmo acelerado. Reviravoltas surpreendentes e um texto ágil me conquistaram, foi um livro que li em um curto espaço de tempo.

Continue Lendo “Resenha: Matéria escura, de Blake Crouch”

Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst

“— É exatamente para isso que servem as fogueiras — diz. — Para partilhar histórias. Há uma ligação espiritual entre a chama e a narrativa.
S. concorda. Ele compreende intuitivamente a proposição de Stenfalk; criamos histórias que nos ajudam a moldar um mundo caótico, avançar em meio às desigualdades de poder, aceitar nossa falta de controle sobre a natureza, os outros, nós mesmos. Mas o que você faz quando não tem as próprias histórias?” (Pág. 146)

S. me intrigou desde a primeira vez que soube de sua existência. O livro, que é fruto de uma parceria entre o produtor J. J. Abrams (conhecido principalmente pela série Lost) e o romancista Doug Dorst, não é nada usual, pois apresenta histórias dentro de histórias, com enigmas e várias camadas. Além disso, o volume é muito bem produzido com notas escritas à mão nas margens e itens inseridos nas páginas, como postais, cartas e fotos. Depois de anos na minha estante, finalmente decidi encarar S. e gostei bastante da experiência. Continue Lendo “Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst”