Resenha: Ouça a canção do vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami

Infelizmente, só descobri muito depois que isso era uma armadilha. Tracei uma linha no centro de uma folha de caderno e escrevi no lado esquerdo tudo o que havia ganhado e no direito, o que havia perdido. No fim das contas, eu havia perdido tanto — coisas que eu havia abandonado, sacrificado, traído — que não tive espaço suficiente para terminar a lista.
Há um fosso profundo entre as coisas das quais gostaríamos de ter consciência e aquilo de que realmente temos. Nem a régua mais comprida conseguiria medir a profundidade desse fosso. O que eu posso registrar aqui é apenas uma lista. Não é um romance, nem literatura, muito menos arte. (Pág. 24)

Reagi com surpresa ao descobrir o lançamento de Ouça a Canção do Vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami. Sou fã do autor e lembro muito bem que em algum momento ele afirmou que não gostaria que essas duas novelas fossem relançadas por considerá-las sem polimento. Contudo, uma edição muito bonita e algumas opiniões favoráveis me fizeram conferir o livro. Continue Lendo “Resenha: Ouça a canção do vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami”

Minhas cinco leituras favoritas de 2015

2015 foi, novamente, um ano de poucas leituras. Mas foi também um ano de surpresas: minhas expectativas em relação a alguns livros eram bem baixas, mas no final me surpreendi muito positivamente. No fim das contas, foi fácil escolher minhas cinco leituras favoritas de 2015. Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2015”

Resenha: Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami

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Mas, por mais que um casal compreenda um ao outro, por mais que se amem, não é possível esquadrinhar completamente o coração do outro. Se desejar isso, é a gente que acaba sofrendo. Mas, quando tratamos do nosso próprio coração, podemos esquadrinhá-lo por completo se nos esforçarmos. O que devemos fazer, em última análise, é chegar a um acordo com o nosso próprio coração sendo sincero com ele. Se quisermos realmente ver a outra pessoa, não temos outra opção a não ser vermos completa e profundamente a nós mesmos. É isso que eu penso. (Pág. 38)

Foi com surpresa que eu soube da existência de Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami. Eu não esperava que outra obra do autor seria lançada tão rapidamente no Brasil (saiu no Japão em fevereiro de 2015), ainda mais uma coletânea de sete histórias. O tema central dos contos são as relações amorosas entre homem e mulher, mas, como sempre, Murakami trata esse assunto à sua maneira característica. Continue Lendo “Resenha: Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami”

Minhas cinco leituras favoritas de 2014

2014 foi um ano que eu li muito menos do que eu gostaria. Foi também um ano de decepções literárias: alguns dos poucos livros que li foram bem abaixo das expectativas. De qualquer maneira, ainda conferi coisas muito legais e escolhi minhas cinco leituras favoritas de 2014, como de costume. Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2014”

Resenha: O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, de Haruki Murakami

Ele caminhou na avenida até a estação de Tóquio. Entrou pela catraca do portão Yaesu e se sentou no banco da plataforma da linha Yamanote. Ele ficou mais de uma hora observando a composição de vagões verdes que chegava e partia praticamente a cada minuto, uma em seguida da outra, vomitando inúmeras pessoas para em seguida engolir apressadamente tantas outras. Naquele momento ele não pensava em nada: seus olhos apenas seguiam absortos a cena. A paisagem não aliviou a dor do seu coração. Mas a repetição o fascinou, como sempre, e pelo menos paralisou a consciência da passagem do tempo. (pág 139)

Haruki Murakami é um dos meus autores favoritos e já li praticamente todas suas obras. O último livro marcante dele que li foi 1Q84, uma história massiva dividida em três grandes volumes, que me evoca sentimentos de gostei-mais-não-gostei. Sendo assim, fiquei receoso quando soube do lançamento de O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, tinha medo que o autor tivesse somente repetido sua fórmula consagrada, mas me surpreendi fortemente com essa nova história. Continue Lendo “Resenha: O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, de Haruki Murakami”

Minhas cinco leituras favoritas de 2012

 

Fantasia é a palavra que resume minhas leituras de 2012. A maioria dos livros que li no último ano foram histórias fantásticas: mundos incríveis, repletos de magia e intriga. Uma espécie de válvula de escape? Possivelmente. Reli algumas coisas e me aventurei também em muitas obras escritas em inglês. Acabei encontrando séries que passaram a ser favoritas, além de várias outras surpresas. Compilei, então, a lista das minhas cinco leituras favoritas de 2012. Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2012”

1Q84, de Haruki Murakami

“You couldn’t begin to imagine who I am, where I’m going, or what I’m about to do, Aomame said to her audience without moving her lips. All of you are trapped here. You can’t go anywhere, forward or back. But I’m not like you. I have work to do. I have a mission to accomplish. And so, with your permission, I shall move ahead.” (p. 12)

Comemorei quando fiquei sabendo da existência de 1Q84, o romance mais recente do japonês Haruki Murakami, afinal o autor é um dos meus favoritos. Um sucesso no Japão, onde vendeu 1 milhão de cópias em um mês, 1Q84 é um dos trabalhos mais ambiciosos de Murakami, por conta dos assuntos abordados e do volume da obra. O tempo passou e a Editora Alfaguara ficou de lançar o livro em português em 2012, mas como a editora não atualizou o andamento da tradução, acabei lendo em inglês mesmo e não me arrependo. Continue Lendo “1Q84, de Haruki Murakami”

Minhas cinco leituras favoritas de 2011

Continuando a tradição, mais uma vez compilei uma lista com as minhas leituras favoritas do último ano (nesse caso 2011). Foi um ano repleto de altos e baixos com algumas surpresas muito boas (Eu, robô, Feios, Sob Mil Disfarces) e outras bem medianas (A Carta Esférica, Em uma noite sem luar, Histórias Extraordinárias). Acabou também que li bem menos do que gostaria (cheguei a passar um mês sem ler), mas foi bem interessante. Ah, como projeto paralelo tirei fotos de todos os livros que li, vou continuar fazendo isso esse ano, achei bem divertido =] Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2011”

Blind Willow, Sleeping Woman, de Haruki Murakami



“What I’m trying to tell you is this,” she said more softly, scratching an earlobe. It was  a beautifully shaped earlobe. “No matter what they wish for, no matter how far they go, people can never be anything  but themselves. That’s all” (pág 32, Birthday Girl)

Quando viajei pro Canadá tinha um pensamento bem diferente da maioria de brasileiros que vai pro exterior: queria comprar um monte de livros que ainda não foram traduzidos para Português. Mas na bagunça da viagem acabei comprando somente Blind Willow, Sleeping Woman.

Blind Willow, Sleeping Woman é a coletânea de contos mais recente do Haruki Murakami. São 24 diferentes contos no qual Murakami aborda seus assuntos favoritos como a solidão, casais complicados e eventos inusitados.

Fica até difícil definir com exatidão o teor da obra, já que cada conto explora situações bem distintas, todas com o toque característico do Murakami. O que mais gostei aqui é que mesmo nos contos mais curtos os personagens são bem desenvolvidos, sendo que os maiores dão inclusive a impressão de um pequeno romance de ficção. A escrita é clara, como é de costume do Murakami, mas com passagens muito instigantes e ideias somente lançadas para que o leitor tire suas conclusões, o que torna a interpretação ambígua e complexa na maioria das vezes.

Posso dizer com certeza que o assunto principal dos contos é a solidão e como cada pessoa lida com isso. Os personagens na maioria das vezes estão fechados em um mundo próprio, por mais que não aparentam isso. Além da solidão é explorado também temas como a perda, o incrível, relacionamentos e eventos misteriosos. Além do mais finalmente temos algumas protagonistas femininas, algo não muito comum nas obras do Murakami, por mais que no fim das contas isso não signifique grandes mudanças na narrativa. Inclusive o próprio Murakami aparece como personagem em alguns dos contos, gostei muito disso.

É complicado definir qual é o ponto fraco da coletânea, já que cada conto é único. Como li de uma só vez, as vezes me parecia meio cansativo os temas recorrentes. Outro problema também é a duração dos contos: alguns poderiam ter sido desenvolvidos bem mais, enquanto outros são desnecessariamente longos. Observei também algumas características já recorrentes de outras obras do Murakami como certas localidades e conceitos, deu uma sensação de déjà vu.

Os meus contos favoritos? Gostei de praticamente todos, mas para mim os destaques foram A “Poor Aunt” Story, The Mirror, Dabchick, Tony Takitani (esse conto foi até adaptado em um filme), Hanalei Bay (1 e 2) e The Kidney-Shaped Stone That Moves Every Day. E sinceramente, o primeiro conto (Blind Willow, Sleeping Woman) é um início muito fraco para a coletânea, se puder deixe ele para depois. Ah, se você já leu Norwegian Wood pode até pular Firefly, já que esse conto originou a primeira metade de Norwegian Wood e vai parecer extremamente familiar.

Uma ótima coletânea, Blind Willow, Sleeping Woman é um passeio excelente pelo estilo do Murakami. Com histórias interessantes e instigantes, personagens cativantes e verossímeis, é uma ótima leitura.

“Oh, her picture is there all right, whenever they pull out the album of wedding photos, but her image is as cheering as a freshly drowned corpse.” (pág 135, A “Poor Aunt” Story)

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami


“Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda. Nossa existência é apenas um teatro de sombras desse princípio. O vento sopra. Há vendavais de furioso poder destrutivo, há brisas reconfortantes. Mas todo vento um dia cessa e desaparece. O vento não é matéria sólida.” pág 413

“Uau”. Foi a primeira palavra que surgiu na minha mente assim que terminei de ler Kafka à beira-mar. Murakami mais uma vez consegue criar uma história banal na superfície, mas repleta de personagens cativantes e lições interessantes.

Kafka à beira-mar são na verdade duas histórias. Kafka Tamura é um garoto de 15 anos que decide fugir de casa para tentar encontrar sua mãe e irmã, ao mesmo tempo que tenta escapar de uma estranha profecia proferida por seu pai. Satoru Nakata é um homem de sessenta anos que após um estranho incidente na infância perdeu a capacidade de ler e escrever, mas passou a poder conversar com gatos. Ele está em uma missão que nem ele sabe ao certo do que se trata.

Nessa obra Murakami utiliza novamente de duas narrativas paralelas, assim como em Hard-boiled Wonderland and The End of the World (e recentemente em 1Q84), mas sendo a ligação entre as tramas bem mais clara. Na verdade é uma história só, contada de ângulos diferentes e que se complementam. Por mais que inicialmente não pareça, os dois protagonistas estão em busca do autoconhecimento e de soluções para suas questões pessoais.

Os personagens são extremamente interessantes. Kafka, num primeiro olhar, pode parecer o típico protagonista ‘murakaniano’: introspectivo, calado e solitário… mas aos poucos sua real personalidade vai sendo explorada e ele se revela bem único e diferente desse estereótipo. Já Nakata é uma pessoa serena e cativante, fazendo amizades por onde passa (e com isso conseguindo avançar em sua “missão”). Um serve de contrapeso para o outro: enquanto Kafka está sempre preso ao seu passado e futuro, Nakata só tem olhos para o presente. E claro, existem outros vários personagens secundários que são tão bem construídos: o inusitado Oshima, a misteriosa Sra. Saeki, o tapado Hoshino, o “conceito” Coronel Sanders e até mesmo um Johnnie Walker (sim, o do whisky).

O desenrolar da trama acontece de forma natural, com a escrita suave e instigante do Murakami, de maneira lenta. Como sempre fatos bizarros, universos paralelos, personagens estranhos e eventos sem aparente explicação estão aos montes aqui, com muitos pontos aonde é difícil saber o que é real ou não. Um exemplo? Em determinado momento acontece uma chuva de sardinhas e cavalinhas. Acontece também da história do Nakata ser maior parte do tempo mais interessante do que a do Kafka, talvez por conta dos vários acontecimentos únicos e do dinamismo maior. Felizmente (ou seria infelizmente?) Murakami dessa vez sugere explicações demais, mas a conclusão fica por conta do leitor… já que boa parte dos fatos podem ter diversas interpretações. Mas Kafka à beira-mar não é para qualquer um (como boa parte das obras do Murakami), existem muito mais questões e ambiguidades do que respostas e conclusões, assim como a necessidade de aceitar o fantástico como algo completamente possível e se deixar levar pelas possibilidades.

No fim das contas Kafka à beira-mar foi uma leitura incrível.