Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

“Nunca nos damos conta do vazio em que deixamos passar o tempo enquanto não vivemos de verdade. Por vezes a vida, não os dias queimados, é só um instante, um dia, uma semana, um mês. Sabemos que estamos vivos porque dói, porque de repente tudo importa e porque quando esse breve momento se acaba, o resto da existência se transforma numa recordação à qual tentamos em vão regressar enquanto nos resta alento no corpo.”

Lembro-me com clareza o quanto eu fiquei absorto em A Sombra do Vento. O romance de Carlos Ruiz Zafón me conquistou com sua narrativa intrincada, ótima trama e personagens memoráveis — gostei demais de me perder por uma Barcelona sombria e repleta de mistérios. Acompanhei com afinco toda a série “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, e agora, mais de dez anos após a leitura primeiro volume, conferi o fim da tetralogia com O Labirinto dos Espíritos. O livro tem todas as ótimas características do autor com uma história com ambientação impecável e ótimo ritmo, o que tornou a experiência muito envolvente. Continue Lendo “Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón”

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Minhas cinco leituras favoritas de 2011

Continuando a tradição, mais uma vez compilei uma lista com as minhas leituras favoritas do último ano (nesse caso 2011). Foi um ano repleto de altos e baixos com algumas surpresas muito boas (Eu, robô, Feios, Sob Mil Disfarces) e outras bem medianas (A Carta Esférica, Em uma noite sem luar, Histórias Extraordinárias). Acabou também que li bem menos do que gostaria (cheguei a passar um mês sem ler), mas foi bem interessante. Ah, como projeto paralelo tirei fotos de todos os livros que li, vou continuar fazendo isso esse ano, achei bem divertido =] Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2011”

Marina, de Carlos Ruiz Zafón

“Por algum motivo, desconfiei que a história da escritora holandesa era uma invenção de Marina e disse isso a ela.

-Às vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação, Óscar – disse ela. – A gente só se lembra do que nunca aconteceu.” (pág 68)

Zafón é um dos meus autores favoritos. Amei A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo, sendo assim corri para ler Marina assim que soube que tinha sido traduzido, já aquecendo para O Prisioneiro do Céu, o próximo livro de sua “quadrilogia barcelonesa”.

Neste livro, Zafón constrói um suspense envolvente em que Barcelona é a cidade-personagem, por onde o estudante de internato Óscar Drai, de 15 anos, passa todo o seu tempo livre, andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões.

É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção de Óscar, que logo se aventura a entrar na casa. Lá,  após alguns acontecimentos, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que o leva a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora.

Os dois passam então a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher do cemitério, tudo isso pelos olhos de Óscar, o menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve.

Marina é classificado com infanto-juvenil em alguns lugares, sendo assim comecei a leitura esperando uma trama mais suave, levemente adolescente. Ledo engano. Marina na verdade é bem sombrio e misterioso, com traços do grotesco e do fantástico, apresentando muitas das características presentes nos trabalhos subsequentes de Zafón (A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo).

A narrativa é bem envolvente, mais uma vez Zafón usa uma Barcelona misteriosa e cheia de segredos como palco da trama. A história começa bem simples, com um acontecimento bem casual, e vai evoluindo para algo bem mais complexo. Pouco a pouco os mistérios vão sendo revelados, ao mesmo tempo em que Zafón vai dando pistas do que realmente está acontecendo. O ritmo é bom, toda hora algo novo acontece, ritmo esse que é mantido pelo fato de os capítulos serem curtos.

Óscar, o personagem principal, é quase um coadjuvante. Típico garoto-tímido-de-15-anos, Óscar é um tanto quanto sem personalidade e bobo, que no fim das contas não faz tanta diferença assim na trama. Já Marina é o contrapeso de Óscar: mesmo tão jovem é misteriosa, decidida, impulsiva, mas mesmo assim rodeada de medos como a maioria das garotas de sua idade. Já os personagens secundários são bem detalhados, suas histórias e motivações bem claras e também interessantes.

Para mim os problemas ficaram por conta de decisões de Zafón sobre os rumos da trama e da reação dos personagens em relação a isso. Existem muitos fatos fantásticos na trama, alguns outros meio grotescos, e os personagens aceitam todos eles com uma facilidade incrível, isso não ficou muito natural. Outro problema é uma quebra de tema mais pro final, concordo que era sim necessária, mas também pareceu forçada. E por fim Zafón usa demais o acaso para desenvolver a história, as coincidências chegam a ser previsíveis, uma maneira mais natural seria melhor.

Marina é sim um bom livro. Como veio antes de A Sombra do Vento, é possível observar que Zafón ainda estava amadurecendo seu estilo. Se você é fã de Zafón provavelmente vai gostar muito deste, se não o conhece é uma ótima oportunidade.

Leia o primeiro capítulo aqui