Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden


Girando com minha cabeça inclinada em certo ângulo eu podia estar indagando: “Onde passaremos o dia juntos, Presidente?” Estendendo meu braço e abrindo meu leque eu dizia como estava grata por ele ter me honrado com sua companhia. E quando fechava de novo o leque mais tarde naquela dança, eu estava lhe dizendo que nada na vida me interessava mais do que agradar a ele. (pág 165)

Bem, Memórias de uma Gueixa foi uma surpresa bem agradável. Eu não esperava nada dele e no fim acabei gostando muitíssimo.

Em Memórias de uma Gueixa acompanhamos a vida de Chiyo, garota que é brutalmente retirada de sua simples vila natal e é levada a Quioto para ser uma gueixa. Chiyo, que depois passa a ser Sayuri, passa por todo tipo de dificuldade enquanto alimenta um amor platônico que dura a vida toda. No fim Sayuri acaba se tornando uma das maiores gueixas de Quioto.

A história de Sayuri é extremamente interessante e apaixonante, principalmente pelo fato da protagonista ser extremamente carismática e verossímel. Sim, o foco é um tanto que no sofrimento, mas o que me fez ler mais e mais era querer ver Sayuri superar tudo. Outra questão que gostei muitíssimo foi conhecer todo o ritual por trás de uma gueixa, é algo repleto de tradição e excelência, ao mesmo tempo que leva a uma vida relativamente triste.

O único defeito fica por conta de alguns pontos um pouco extensos de maneira desnecessária, seria mais agradável se alguns trechos fossem mais curtos. E também gostaria que alguns termos tivessem explicação/tradução, por mais que a maioria deles sejam detalhados muito bem.

Por fim é uma história de amor muito bonita, um convite para conhecer melhor o incrível mundo das gueixas.

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Livro das Mil e uma noites – Volume 1

Na noite seguinte, Dinarzad disse para a irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos o restante da sua história”, e Sahrazad respondeu: “Com muito gosto e honra”.  (pag. 160)

As mil e uma noites é um dos livros mais famosos (senão o mais famoso) da cultura árabe e sempre tive curiosidade de saber do que se trata Partindo disso consegui finalmente iniciá-lo.

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Sahrazad, esposa do rei Sahriyar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Sahrazad consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Sahrazad interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites – as mil e uma do título – ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Bem, esse livro me surpreendeu tanto positivamente quanto negativamente.

O maior destaque pra mim é a edição impecável desse livro, que é o primeiro volume de três. Todas as páginas têm um espaço permanentemente reservado para as notas de tradução, notas essas que no começo atrapalham muito, mas contêm informações muito interessantes. Só achei desinteressantes as notas que falam estritamente da tradução do árabe, não são legais pra um leitor normal e até quebram um pouco o ritmo de leitura. Os anexos são adições interessantes também. Tudo isso numa capa dura muito legal.

A história em si me deixou bem decepcionado. Cada noite Sherazad conta um trecho de uma história e na maioria das noites ela deixa um gancho (o que é justificável no contexto da história do rei), sendo que acontecem histórias dentro de histórias. Os contos são até interessantes, mas chega um momento que eles se tornam muito similares e extremamente previsíveis. Por exemplo: em várias das histórias alguém é transformado em um animal, sendo que a causa disso e a solução são bem parecidas sempre… Isso tudo tornou a leitura bem cansativa e um tanto quanto arrastada. Outra questão que torna a leitura meio cansativa é a repetição de termos o tempo todo, como por exemplo “por Deus” e “absolutamente imperioso” (por mais que no fim gostei disso, dá uma identidade legal pro texto). Ah, fiquei “assombrado” com algumas coisas explícitas no texto, não tinha nem ideia que o mundo árabe era tão sem pudores e “frio” assim.

No fim das contas acredito que não li esse livro de maneira correta, intercalado com alguma outra leitura teria sido mais interessante (por mais que os ganchos deixariam essa tarefa um tanto quanto complicada). Mas nada disso tira o mérito de ser um livro interessante e que permite conhecer bem a cultura árabe, tanto é que pretendo sim ler os outros dois volumes. Mesmo com os problemas eu gostei muito de tê-lo lido.

Coração de Tinta, de Cornelia Funke

Meggie passou a mão na capa, como sempre fazia antes de abrir um livro. Ela copiara esse gesto de Mo. Desde que se entendia por gente, ela se lembrava deste movimento: como ele pegava um livro, passava a mão pela capa quase carinhosamente e então o abria, como se fosse uma caixa repleta de preciosidades nunca antes vistas. Naturalmente, as maravilhas que ele esperava encontrar muitas vezes não estavam atrás da capa, então ele fechava o livro de novo, desapontado com as promessas não cumpridas. Mas Coração de tinta não era desse tipo. Histórias ruins não despertavam para a vida. (pág 430)

Eu adoro livros que têm livros como parte do assunto principal, logo Coração de Tinta me agradou em cheio.

Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição.

É que Mo tem uma habilidade estranha e incontrolável: quando lê um texto em voz alta, as palavras tomam vida em sua boca, e coisas e seres da história surgem como que por mágica. Quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado ‘Coração de tinta’. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de Coração de tinta um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente sequestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

Eu já tinha lido outra obra da Cornelia Funke antes (O Senhor dos Ladrões, que achei só ok) e fiquei meio receoso que esse fosse na mesma linha infantilizada demais. Sim, é um livro mais para o lado do infanto-juvenil, mas a trama e os personagens são bem interessantes. O estilo de Cornelia aqui é bem agradável, o texto é claro e flui bem, mas sem ser simplista demais. A história em si é meio arrastada no início, mas vai ficando bem interessante e com umas idéias bem legais. Pra mim o maior destaque foi como Cornelia conseguiu encontrar solução para as variadas confusões que acontecem durante a trama, achei bem sagaz. Mas no fim das contas não passa muito de um ‘bem contra o mal’, o que não é tão ruim quanto parece.

O maior problema em Coração de Tinta pra mim foram os personagens. Sim, eu gostei da maioria deles, mas eles são estereotipados demais e bem subdesenvolvidos. Meggie e Mo, por exemplo, não têm tantas características assim que os tornam únicos. Os vilões, principalmente Capricórnio, têm motivações tão vazias que fica até meio forçado em alguns pontos, por mais que teoricamente existe uma explicação para isso. Ao menos temos Elinor e Dedo Empoeirado, os personagens que de alguma maneira desenvolvem um pouco. Outro problema é um certo ar de repetição pela trama, principalmente por conta da segunda metade ter muitos pontos em comum com a primeira metade da história no que diz respeito aos acontecimentos.

Algo que achei bem legal é que todo capítulo começa com uma citação de algum outro livro como ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘Peter Pan’ (citações essas que têm a ver com o conteúdo do capítulo), com belas ilustrações da própria Cornélia no fim dos capítulos.


No fim das contas ‘Coração de Tinta’ foi uma leitura bem agradável e divertida. Com certeza vou ler as duas continuações.

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami


“Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda. Nossa existência é apenas um teatro de sombras desse princípio. O vento sopra. Há vendavais de furioso poder destrutivo, há brisas reconfortantes. Mas todo vento um dia cessa e desaparece. O vento não é matéria sólida.” pág 413

“Uau”. Foi a primeira palavra que surgiu na minha mente assim que terminei de ler Kafka à beira-mar. Murakami mais uma vez consegue criar uma história banal na superfície, mas repleta de personagens cativantes e lições interessantes.

Kafka à beira-mar são na verdade duas histórias. Kafka Tamura é um garoto de 15 anos que decide fugir de casa para tentar encontrar sua mãe e irmã, ao mesmo tempo que tenta escapar de uma estranha profecia proferida por seu pai. Satoru Nakata é um homem de sessenta anos que após um estranho incidente na infância perdeu a capacidade de ler e escrever, mas passou a poder conversar com gatos. Ele está em uma missão que nem ele sabe ao certo do que se trata.

Nessa obra Murakami utiliza novamente de duas narrativas paralelas, assim como em Hard-boiled Wonderland and The End of the World (e recentemente em 1Q84), mas sendo a ligação entre as tramas bem mais clara. Na verdade é uma história só, contada de ângulos diferentes e que se complementam. Por mais que inicialmente não pareça, os dois protagonistas estão em busca do autoconhecimento e de soluções para suas questões pessoais.

Os personagens são extremamente interessantes. Kafka, num primeiro olhar, pode parecer o típico protagonista ‘murakaniano’: introspectivo, calado e solitário… mas aos poucos sua real personalidade vai sendo explorada e ele se revela bem único e diferente desse estereótipo. Já Nakata é uma pessoa serena e cativante, fazendo amizades por onde passa (e com isso conseguindo avançar em sua “missão”). Um serve de contrapeso para o outro: enquanto Kafka está sempre preso ao seu passado e futuro, Nakata só tem olhos para o presente. E claro, existem outros vários personagens secundários que são tão bem construídos: o inusitado Oshima, a misteriosa Sra. Saeki, o tapado Hoshino, o “conceito” Coronel Sanders e até mesmo um Johnnie Walker (sim, o do whisky).

O desenrolar da trama acontece de forma natural, com a escrita suave e instigante do Murakami, de maneira lenta. Como sempre fatos bizarros, universos paralelos, personagens estranhos e eventos sem aparente explicação estão aos montes aqui, com muitos pontos aonde é difícil saber o que é real ou não. Um exemplo? Em determinado momento acontece uma chuva de sardinhas e cavalinhas. Acontece também da história do Nakata ser maior parte do tempo mais interessante do que a do Kafka, talvez por conta dos vários acontecimentos únicos e do dinamismo maior. Felizmente (ou seria infelizmente?) Murakami dessa vez sugere explicações demais, mas a conclusão fica por conta do leitor… já que boa parte dos fatos podem ter diversas interpretações. Mas Kafka à beira-mar não é para qualquer um (como boa parte das obras do Murakami), existem muito mais questões e ambiguidades do que respostas e conclusões, assim como a necessidade de aceitar o fantástico como algo completamente possível e se deixar levar pelas possibilidades.

No fim das contas Kafka à beira-mar foi uma leitura incrível.

Minhas cinco leituras favoritas de 2010

Cá estou novamente com meus livros favoritos do último ano, assim como fiz no começo de 2010. Por mais que tenha sido um ano meio bagunçado na minha vida, a parte literária foi bem interessante. Foi até meio difícil escolher os melhores… e em contra partida eu também topei com coisas bem medianas, coisa que não me arrependo. Então segue a lista, em ordem de leitura. E para cada livro vai também um link para a resenha, vou me ater aos motivos de ter escolhido cada livro. Continue Lendo “Minhas cinco leituras favoritas de 2010”

Bilionários por acaso: A criação do Facebook, de Ben Mezrich

Bilionários por acaso: A criação do Facebook, como o nome implica, retrata toda a criação e crescimento da famosa rede social Facebook. O autor utilizou de uma série de entrevistas, documentos, livros e relatos para montar uma narrativa que lembra ficção, mas que na verdade é baseada completamente em fatos reais.

Pra mim a característica mais interessante nesse livro foi conhecer a história bagunçada do Facebook, assim como entender melhor como surgiu e quem são as pessoas por trás. E a história é mostrada de maneira agradável, não fica aquela impressão de livro-reportagem-chato. Mas o trunfo também se torna armadilha: muitas passagens são desnecessárias e fantasiosas, existem várias descrições irrelevantes e os personagens têm vários pensamentos fictícios (já que é impossível do autor saber exatamente o que se passava na cabeça dos personagens em vários momentos).

No fim das contas eu não acho o Mark Zuckerberg um “gênio”, como o livro gosta de frisar em alguns pontos… até me senti levemente enganado pelo subtítulo do livro que promete uma “história de genialidade”, já que não tem nada disso aqui. O motivo todo da criação do site e das intrigas também é um tanto quanto idiota, cheguei a sentir leve vergonha dos envolvidos. Por fim é até uma leitura legal, principalmente se você tiver interesse em saber mais um pouco sobre o Facebook.

A Vida de Pi, de Yann Martel

Eu sei o que os senhores querem. Uma história que não os surpreenda. Que confirme o que já sabem. Que não os faça enxergar mais alto, nem mais além, e tampouco de modo diferente. Querem uma história simples. Uma história imóvel. Querem factualidade seca, sem fermento. (pg. 336)

Pi Patel é um garoto indiano que tem uma vida tranquila na Índia. Seu pai é o dono de um zoológico, sendo assim ele já está acostumado com toda essa vida com os animais. Ao contrário de outros garotos da sua faixa etária, Pi está muito interessado em estar perto de Deus, sendo assim ele segue tanto o hinduísmo quanto o islamismo e cristianismo (fato esse que o faz passar por algumas complicações, ainda mais por conta de sua família não seguir nenhuma religião). Tudo muda quando o pai de Pi decide se mudar para o Canadá por conta de dificuldades na Índia. A família vende então os animais do zoológico e viaja em um cargueiro tendo como destino o Canadá. Acontece que o cargueiro naufraga e somente Pi e alguns dos animais que eram levados com ele sobrevivem em um bote. Desses animais somente um tigre de Bengala sobrevive… e Pi acaba tendo que dividir o bote salva-vidas com ele. Pi decide então que o tigre é vital para a sua própria sobrevivência, sendo assim ele passa a cuidar dele. E ele sobrevive pra contar a história.

Mais uma vez uma premissa me despertou a curiosidade. Fiquei extremamente instigado pra ver como uma história dessas se desenvolveria. Mesmo com algumas decepções eu gostei muito do resultado.

O começo é ruim, lento e sem muito sentido pra quem sabe a premissa do livro. Os capítulos são truncados também, com algumas longas e tediosas explicações, o que deixa a leitura cansativa… Mas até dá pra entender a parte inicial como uma preparação para o fato principal da trama, mas poderia ser um pouco mais curto sim. Mas o naufrágio acontece e o ritmo não muda muito… e continua assim até o fim. A escrita de Martel não é ruim, mas me pareceu um pouco nebulosa, tive dificuldade de construir mentalmente boa parte das descrições dele.

Mas as partes boas conseguem compensar os pontos ruins. Os acontecimentos interessantes são muito bons e instigantes, assim como a tensão constante que é a vida de Pi no bote. Martel teve o cuidado de construir bem a relação entre Pi e o tigre, assim como os motivos que fazem Pi manter o tigre vivo. A parte inicial, sobre a formação de fé de Pi, é uma reflexão interessante sobre o real papel das religiões na vida da sociedade, assim como a discriminação religiosa. E durante boa parte das passagens existem questões filosóficas envolvidas de maneira sutil, mesmo que com fatos aparentemente banais. Por fim é também inspirador, uma incrível história de superação, com um final que é muito mais do que aparenta. Ah, Martel construiu tão bem Pi que ele parece perigosamente real (em vários pontos eu até me perguntei se não era baseado em fatos reais).

O mais interessante de tudo foi pesquisando sobre o livro descobri que Yann Martel foi acusado de plágio por um autor brasileiro (Moacyr Scliar) logo depois do livro ter recebido um prêmio.  Mas como nunca nem ouvi falar de “Max e os Felinos” de Moacyr Scliar eu não tenho como dizer se isso é fato ou não… por mais que Yann Martel cite Scliar como “centelha de inspiração” nas notas do autor.

“A Vida de Pi”, no fim das contas, é muito interessante e me prendeu bem (mesmo nos pontos lentos). As lições da história são muito boas, assim como o protagonista e sua relação com o tigre. Muito bom!

O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

Quando na lareira azula o fogo
O que fazer? O que fazer?
Correr para fora e se esconder.

Se a luzente espada enferrujar,
Em quem confiar? Em quem confiar?
Sozinho permaneça; como pedra, enrijeça.

Vês a mulher de neve caiada?
Silente vem e sai calada.
Qual é seu plano? Qual é seu plano?
Chandriano. Chandriano.

Não sei muito bem como encontrei O Nome do Vento… Acho que foi em algum site qualquer ou então a bonita capa que me chamou a atenção. De qualquer maneira foi um ótimo achado.

O Nome do Vento ~ A Crônica do Matador do Rei ~ Primeiro Dia é o primeiro livro da trilogia “A Crônica do Matador do Rei”. Em um mundo chamado Quatro Cantos, em uma vila qualquer, Kote é o proprietário da hospedaria Marco do Percurso e vive tranquilamente. Após um dos membros da vila ser atacado por uma criatura que todos acreditam ser um demônio, Kote se torna preocupado e sombrio com a situação… e para completar chega em sua hospedaria o chamado Cronista, homem que vive de colecionar histórias importantes de todo o mundo. O Cronista descobre então que Kote é na verdade Kvothe, uma espécie de lenda viva e consegue convencê-lo a contar e registrar toda a sua história. A partir disso acompanhamos a trajetória da vida de Kvothe, partindo de sua vida nos Edena Ruh (uma espécie de grupo itinerante de teatro) até todos os seus grandes feitos.

O primeiro ponto que eu notei e que me fez querer ler o livro rapidamente foi o estilo de escrita de Rothfuss. Tudo é escrito de uma maneira que prende de tal maneira e que faz você não parar a leitura, mesmo que o texto seja bem extenso, tudo fluindo muito bem. Em seguida temos Kvothe: ele não é um herói tradicional (se é que é um herói) e não tem problemas em fazer o que deve ser feito – mesmo que isso inflija em mentir, fingir e abusar das possibilidades. Em suma ele é extremamente cativante, ousado, humano. A história pode parecer clichê no começo, mas depois se revela interessante, principalmente por conta de Kvothe e seus feitos. E por fim gostei muitíssimo de todo o universo criado por Rothfuss, já que ele criou um completo e interessante mundo, com uma porção de detalhes como línguas, raças, locais e toda uma cultura.

Pra mim tinha tudo para ser perfeito, mas algumas coisas me decepcionaram um pouco… Ok, é um universo vasto e interessante, mas faltou explorar melhor algumas coisas e explicar tantas outras. Na verdade seria interessante um glossário ou anexo detalhando termos e ideias utilizados durante a história, já que muitas vezes eu fiquei me perguntando o significado de alguns termos importantes (fica a impressão que o autor meio que infere que o leitor já sabe o significado, mesmo sem ter explicado). Outra questão é sobre o volume do texto, muitos trechos ficariam bem mais interessantes (e menos cansativos) se fossem mas concisos, vez ou outra dá a impressão que o autor está meio que enrolando. Também fiquei um pouco intrigado com o decorrer e “desfecho” da história, já que a trama é pausada bem num anticlímax e muitas coisas que eu pensei que seriam resolvidas nesse volume foram deixados para o próximo.

No fim das contas gostei muitíssimo de O Nome do Vento, fazia muito tempo que eu não lia uma história de fantasia heroica (por mais que não seja tão “heroica” assim) tão boa. Espero ansiosamente pelos dois próximos volumes, torcendo para que a qualidade seja mantida.

*Leia aqui um trecho do livro

Quase Memória, de Carlos Heitor Cony

Consegui esse livro por acaso e comecei a ler sem ter idéia alguma do que se tratava ou do estilo. Ainda bem que esses acasos acontecem, mais uma boa surpresa.

Ponto alto na produção literária brasileira das últimas décadas, Quase Memória explora o território entre a ficção e a memória a partir das reminiscências do autor sobre o pai morto. Nele, Carlos Heitor Cony mapeia minuciosamente a relação pai e filho: os sentimentos contraditórios, as alegrias e tristezas que não se esquecem, o afeto incondicional e, acima de tudo, a cumplicidade.

A premissa é simples: o autor recebe um pacote que acredita ter sido enviado pelo seu falecido pai, Ernesto Cony Filho. Partindo disso o autor passa a relembrar várias memórias de seu pai e de sua infância. O resultado disso é uma série de relatos, em sua maioria desconexas, que retratam como era a relação de Cony com seu pai, ao mesmo tempo que monta uma espécie de “biografia” do pai.

A escrita é simples e sem floreios, mas que funciona perfeitamente bem. Os relatos, mesmo que desconexos e um pouco truncados, são em sua maioria interessantes e bem divertidos, principalmente por conta da personalidade meio maluca e excêntrica de Enersto. Tudo é escrito de tal maneira que o leitor se sente bem próximo de Enersto. As qualidades do romance acabam tornando-se também seus defeitos: é um pouco difícil acompanhar a cronologia dos fatos por eles serem apresentados de maneira meio embaralhada, assim como alguns relatos que terminam de maneira confusa e incompleta. E os trechos em que se passam no ‘presente’, que são focados no próprio autor, são um pouco monótonos e desinteressantes.

Misturando ficção e realidade, Quase Memória é um livro bem interessante. Divertido e até um pouco motivacional, é uma leitura fácil, melhor ainda se lida aos poucos.

*Leia aqui um trecho do livro

Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Haruki Murakami

Somerset Maugham certa vez escreveu que em cada barbear reside uma filosofia, Eu não poderia estar mais de acordo. Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até. (pág.7)

Confesso que não estava animado em ler esse livro. Por algum motivo o fato de não ser um romance me criou um certo tipo de “bloqueio”, já que eu queria mais romances do Murakami traduzidos por aqui. Mas por acaso li o primeiro capítulo e gostei muito do que li, acabei decidindo então ler.

“Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma espécie de coletânea de ensaios do Murakami sobre seu hábito de correr. Acontece que o Murakami acaba misturando tudo com várias memórias pessoais, o que torna o livro bem autobiográfico e reflexivo. Pra mim essa mistura ficou ótima. O estilo de escrita característico do Murakami está aqui, mesmo que bem mais suave desta vez, o que torna a leitura muito agradável (e até bem divertida nesse caso). E mesmo com foco na não ficção ele consegue colocar algumas coisas na entrelinhas, como sempre faz.

Mesmo não sendo corredor e me interessar pouco pelo assunto, não consegui largar a leitura. Isso pois o Murakami fala de tudo, não somente de corrida. Na verdade em alguns pontos o assunto principal é posto de lado e ele começa a falar de si, o que é ótimo para conhecer o Murakami como pessoa. É legal também ver como a corrida influenciou seus romances e sua vida. Notei também uma carga motivacional muito grande no texto, de maneira sutil, mas ao mesmo tempo bem realista. Pelo texto o Murakami se concentra principalmente em seus próprios defeitos como perfeccionismo e teimosia, ao mesmo tempo que lida com questões de perseverança e superação, com vários pontos de reflexão muito interessantes. Pra mim isso foi excelente pois cria uma aproximação entre o leitor e o autor, principalmente por ser possível se identificar com variadas situações e pontos de vista retratados. E nada melhor que uma pessoa “real” para falar sobre lições de vida.

Curto e com um texto que flui de maneira excelente, “Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma ótima leitura para qualquer pessoa, inclusive quem não se interessa por corrida. Apreciadores do autor (como eu) vão se deliciar ainda mais por conhecer o Murakami de maneira tão próxima e humana.

*Leia aqui um trecho do livro

Somerset Maugham certa vez escreveu que em cada barbear reside uma filosofia, Eu não poderia estar mais de acordo. Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até.