O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

Quando na lareira azula o fogo
O que fazer? O que fazer?
Correr para fora e se esconder.

Se a luzente espada enferrujar,
Em quem confiar? Em quem confiar?
Sozinho permaneça; como pedra, enrijeça.

Vês a mulher de neve caiada?
Silente vem e sai calada.
Qual é seu plano? Qual é seu plano?
Chandriano. Chandriano.

Não sei muito bem como encontrei O Nome do Vento… Acho que foi em algum site qualquer ou então a bonita capa que me chamou a atenção. De qualquer maneira foi um ótimo achado.

O Nome do Vento ~ A Crônica do Matador do Rei ~ Primeiro Dia é o primeiro livro da trilogia “A Crônica do Matador do Rei”. Em um mundo chamado Quatro Cantos, em uma vila qualquer, Kote é o proprietário da hospedaria Marco do Percurso e vive tranquilamente. Após um dos membros da vila ser atacado por uma criatura que todos acreditam ser um demônio, Kote se torna preocupado e sombrio com a situação… e para completar chega em sua hospedaria o chamado Cronista, homem que vive de colecionar histórias importantes de todo o mundo. O Cronista descobre então que Kote é na verdade Kvothe, uma espécie de lenda viva e consegue convencê-lo a contar e registrar toda a sua história. A partir disso acompanhamos a trajetória da vida de Kvothe, partindo de sua vida nos Edena Ruh (uma espécie de grupo itinerante de teatro) até todos os seus grandes feitos.

O primeiro ponto que eu notei e que me fez querer ler o livro rapidamente foi o estilo de escrita de Rothfuss. Tudo é escrito de uma maneira que prende de tal maneira e que faz você não parar a leitura, mesmo que o texto seja bem extenso, tudo fluindo muito bem. Em seguida temos Kvothe: ele não é um herói tradicional (se é que é um herói) e não tem problemas em fazer o que deve ser feito – mesmo que isso inflija em mentir, fingir e abusar das possibilidades. Em suma ele é extremamente cativante, ousado, humano. A história pode parecer clichê no começo, mas depois se revela interessante, principalmente por conta de Kvothe e seus feitos. E por fim gostei muitíssimo de todo o universo criado por Rothfuss, já que ele criou um completo e interessante mundo, com uma porção de detalhes como línguas, raças, locais e toda uma cultura.

Pra mim tinha tudo para ser perfeito, mas algumas coisas me decepcionaram um pouco… Ok, é um universo vasto e interessante, mas faltou explorar melhor algumas coisas e explicar tantas outras. Na verdade seria interessante um glossário ou anexo detalhando termos e ideias utilizados durante a história, já que muitas vezes eu fiquei me perguntando o significado de alguns termos importantes (fica a impressão que o autor meio que infere que o leitor já sabe o significado, mesmo sem ter explicado). Outra questão é sobre o volume do texto, muitos trechos ficariam bem mais interessantes (e menos cansativos) se fossem mas concisos, vez ou outra dá a impressão que o autor está meio que enrolando. Também fiquei um pouco intrigado com o decorrer e “desfecho” da história, já que a trama é pausada bem num anticlímax e muitas coisas que eu pensei que seriam resolvidas nesse volume foram deixados para o próximo.

No fim das contas gostei muitíssimo de O Nome do Vento, fazia muito tempo que eu não lia uma história de fantasia heroica (por mais que não seja tão “heroica” assim) tão boa. Espero ansiosamente pelos dois próximos volumes, torcendo para que a qualidade seja mantida.

*Leia aqui um trecho do livro

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Quase Memória, de Carlos Heitor Cony

Consegui esse livro por acaso e comecei a ler sem ter idéia alguma do que se tratava ou do estilo. Ainda bem que esses acasos acontecem, mais uma boa surpresa.

Ponto alto na produção literária brasileira das últimas décadas, Quase Memória explora o território entre a ficção e a memória a partir das reminiscências do autor sobre o pai morto. Nele, Carlos Heitor Cony mapeia minuciosamente a relação pai e filho: os sentimentos contraditórios, as alegrias e tristezas que não se esquecem, o afeto incondicional e, acima de tudo, a cumplicidade.

A premissa é simples: o autor recebe um pacote que acredita ter sido enviado pelo seu falecido pai, Ernesto Cony Filho. Partindo disso o autor passa a relembrar várias memórias de seu pai e de sua infância. O resultado disso é uma série de relatos, em sua maioria desconexas, que retratam como era a relação de Cony com seu pai, ao mesmo tempo que monta uma espécie de “biografia” do pai.

A escrita é simples e sem floreios, mas que funciona perfeitamente bem. Os relatos, mesmo que desconexos e um pouco truncados, são em sua maioria interessantes e bem divertidos, principalmente por conta da personalidade meio maluca e excêntrica de Enersto. Tudo é escrito de tal maneira que o leitor se sente bem próximo de Enersto. As qualidades do romance acabam tornando-se também seus defeitos: é um pouco difícil acompanhar a cronologia dos fatos por eles serem apresentados de maneira meio embaralhada, assim como alguns relatos que terminam de maneira confusa e incompleta. E os trechos em que se passam no ‘presente’, que são focados no próprio autor, são um pouco monótonos e desinteressantes.

Misturando ficção e realidade, Quase Memória é um livro bem interessante. Divertido e até um pouco motivacional, é uma leitura fácil, melhor ainda se lida aos poucos.

*Leia aqui um trecho do livro

Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Haruki Murakami

Somerset Maugham certa vez escreveu que em cada barbear reside uma filosofia, Eu não poderia estar mais de acordo. Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até. (pág.7)

Confesso que não estava animado em ler esse livro. Por algum motivo o fato de não ser um romance me criou um certo tipo de “bloqueio”, já que eu queria mais romances do Murakami traduzidos por aqui. Mas por acaso li o primeiro capítulo e gostei muito do que li, acabei decidindo então ler.

“Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma espécie de coletânea de ensaios do Murakami sobre seu hábito de correr. Acontece que o Murakami acaba misturando tudo com várias memórias pessoais, o que torna o livro bem autobiográfico e reflexivo. Pra mim essa mistura ficou ótima. O estilo de escrita característico do Murakami está aqui, mesmo que bem mais suave desta vez, o que torna a leitura muito agradável (e até bem divertida nesse caso). E mesmo com foco na não ficção ele consegue colocar algumas coisas na entrelinhas, como sempre faz.

Mesmo não sendo corredor e me interessar pouco pelo assunto, não consegui largar a leitura. Isso pois o Murakami fala de tudo, não somente de corrida. Na verdade em alguns pontos o assunto principal é posto de lado e ele começa a falar de si, o que é ótimo para conhecer o Murakami como pessoa. É legal também ver como a corrida influenciou seus romances e sua vida. Notei também uma carga motivacional muito grande no texto, de maneira sutil, mas ao mesmo tempo bem realista. Pelo texto o Murakami se concentra principalmente em seus próprios defeitos como perfeccionismo e teimosia, ao mesmo tempo que lida com questões de perseverança e superação, com vários pontos de reflexão muito interessantes. Pra mim isso foi excelente pois cria uma aproximação entre o leitor e o autor, principalmente por ser possível se identificar com variadas situações e pontos de vista retratados. E nada melhor que uma pessoa “real” para falar sobre lições de vida.

Curto e com um texto que flui de maneira excelente, “Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma ótima leitura para qualquer pessoa, inclusive quem não se interessa por corrida. Apreciadores do autor (como eu) vão se deliciar ainda mais por conhecer o Murakami de maneira tão próxima e humana.

*Leia aqui um trecho do livro

Somerset Maugham certa vez escreveu que em cada barbear reside uma filosofia, Eu não poderia estar mais de acordo. Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até.

Maré Voraz, de Amitav Ghosh

Eles dois, Fokir e ela, poderiam muito bem ter sido rochedos ou árvores, de tão pouco que sabiam um sobre o outro, e o fato de não conseguirem se comunicar não era de certa forma melhor, mais honesto? Pois, comparada à maneira  como os ecos dos golfinhos espelhavam o mundo, a linguagem não passava de uma cartola cheia de truques, que faziam você se julgar equivocadamente capaz de ver através dos olhos de outra pessoa.

Adentrando em terrenos que nunca me aventurei, dessa vez decidi ler um romance de um autor indiano, por recomendação do colega Marlo Renan. E uau, fiquei maravilhado com a leitura.

Maré Voraz, do indiano Amitav Ghosh, se passa nas Sundarbans, região da baía de Bengala, próximo da Índia. O “País das Marés”, como é chamado, é consistido de inúmeras ilhas, rios e mangues e varias comunidades vivem nessas ilhas. É nesse cenário que acompanhamos Piya (uma bióloga marinha norte-americana), Kanai (um empresário  especializado em tradução) e Fokir (um humilde pescador), cada um em busca de algo no País das Marés. Falar além disso é estragar boa parte da trama.

Ghosh escreve de maneira simples e direta, com descrições excelentes. Eu mesmo não conhecia a região antes de ler o romance, depois que procurei imagens vi que batia perfeitamente com o que eu tinha imaginado pelas descrições. Toda a trama é bem construída, assim como os personagens que são profundamente desmontados e remontados. Ghosh teve também o cuidado de exibir muito bem toda a cultura do País das Marés, explicando com detalhes lendas e crenças de seu povo. Na obra são abordadas também questões ambientais e políticas, endossadas com fatos verídicos colocados de maneira bem concisa na trama.

A melhor característica, sem sombra de dúvidas, são seus personagens. Vários e vários capítulos são utilizados pra descrever e desvendar cada um dos personagens da trama, sendo que detalhes importantes são adicionados a cada minuto. Ghosh teve um cuidado muito grande ao construir personagens extremamente verossímeis, tornando cada um deles muito especial. A trama em si é muito simples e arrastada, os capítulos se intercalam muito entre passado e presente e em tramas secundárias e isso pode afastar a maioria das pessoas. E mesmo sendo um texto bem direto, as vezes quase técnico, várias sutilezas estão presentes, trazendo assim algumas pequenas surpresas.

Eu gostei muito do que li. Pouco a pouco os personagens e a trama foram crescendo dentro de mim, eu realmente me sentia assistindo tudo de perto. Gostei também da maneira que as questões ambientais e sociais foram colocadas, todas elas fluíram de maneira muito natural. Outro destaque pra mim foi o rumo e amadurecimento da maioria dos personagens, algumas coisas tomaram rumos diferentes do que eu imaginava. As partes finais foram bem surpreendentes também, com fatos e revelações muito interessantes. E por fim o livro explora inúmeros sentimentos e características humanas, digamos que trata de tudo um pouco de uma maneira muito boa. Mas só faltou um ponto para ser inesquecível: o livro todo poderia ser mais enxuto, muitos pontos são longos sem muito sentido e algumas explicações poderiam ter sido simplificadas. E seria muito útil também um glossário das várias palavras em bengali espalhadas pelo texto (e olha que são muitas), muitas vezes eu tive que pesquisar o que significava cada palavra para entender completamente.

De qualquer maneira Maré Voraz é uma leitura fascinante, um passeio incrível por uma região única e interessante .

 

*Leia aqui um trecho do livro

Kitchen, de Banana Yoshimoto

O lugar que mais gosto no mundo é a cozinha.

A morte e a perda estão sempre presente na vida de todos, isso é fato. São fatos tão corriqueiros que acabam se tornando banais e sem muita importância as vezes… mas muitos relacionamentos acabam acontecendo justamente por conta da morte. É nesse contexto que Kitchen se baseia.

Kitchen é na verdade dois contos distintos: o próprio Kitchen (que é dividido em duas partes) e Moonlight Shadow. Em Kitchen acompanhamos Mikage Sakurai, garota que passa a morar com a (até então) desconhecida família Tanabe após a morte de sua avó, sua única família. Em Moonlight Shadow a protagonista é Satsuki, garota que sofre com a morte de seu namorado. Isso é o máximo que dá pra falar sem entregar demais as tramas, que têm algumas características e pontos em comum.

Dentre os dois com certeza Kitchen é bem melhor: a história, mesmo que simplista, é bem desenvolvida. Os personagens são interessantes, até mesmo os de participação mínima. E o relacionamento principal é bem tênue, dando margem para múltiplas interpretações. O texto flui bem também, como é um conto longo a autora se concentra bem nas partes importantes, mas tudo é escrito de tal maneira que o leitor consegue “construir” os personagens fora das cenas descritas. Gostei muito.

Já Moonligh Shadow falta “algo”. Nesse as coisas parecem corridas demais, sendo assim os personagens e história não são construídos suficientemente bem. A história eu achei bem enfadonha, principalmente mais pro final, sem contar que a abordagem é meio preguiçosa. Os personagens também são um pouco chatinhos, mesmo sendo poucos, não consegui me identificar em nada com eles. Não gostei tanto.

“Sutil” é uma palavra que resume bem Kitchen. Banana Yoshimoto consegue usar bem um temas pesados (morte, a dor da perda e a gradual recuperação) de maneiras diferentes, sempre com suavidade. É uma pena que o segundo conto não seja tão interessante assim, tornando a experiência geral um pouco mais simplória… Também tem o fato de eu sempre ter um olhar mais racional, deixando um pouco o emocional de lado… Mas é sim um ótimo livro.

Impressões: Mother 3

E depois de tantos anos finalmente terminei Mother 3. Sucessor de Earthbound (Mother 2 no Japão), Mother 3 demorou eras pra sair, afinal foi planejado para o 64DD e só no final da vida do Gameboy Advance que foi lançado. A Nintendo não lançou o jogo no ocidente, decepcionando inúmeros fãs. Diante disso, um grupo decidiu traduzir o game. Após dois anos de trabalho a tradução foi finalmente lançada e eu aproveitei para conferir o resultado.

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Summer Wars

Kenji é um gênio na matemática e em suas férias de verão está trabalhando como estagiário no mundo virtual de Oz (mundo este no qual todas pessoas têm um avatar e controlam tudo da sua vida por ali), nada de muito. Keiji então recebe um convite inusitado: Natsuki, a garota mais popular de sua escola, lhe convida para trabalhar nos preparativos da festa de 90 anos da avó dela, na casa de campo da família. Os problemas começam quando Oz é invadido por um hacker, trazendo caos tanto para o mundo real quanto para o virtual, mudando completamente os rumos de uma viagem que parecia ser pacífica.

A sinopse não faz jus ao filme, nunca. Eu mesmo não dava nada pra uma premissa dessas… E me surpreendi totalmente com uma história que toma rumos imprevisíveis.

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The Wind-up Bird Chronicle, de Haruki Murakami

Em um subúrbio de Tókio um homem chamado Toru Okada procura pelo gato perdido de sua esposa. Essa busca, que parece simples e ordinária, se revela na verdade em algo que muda completamente a vida de Toru Okada: o rapaz acaba se envolvendo com várias pessoas inusitadas e percebe que não é somente o gato o alvo de sua busca.

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Flashforward

Lloyd Simcoe e Theo Procopides são dois cientistas que trabalham no CERN (maior centro de estudos sobre física de partículas do mundo) e estão prestes a testar um novo experimento utilizando um acelerador de partículas, experimento esse que tem como objetivo criar moléculas que existiram somente momentos após o Big Bang. Algo dá errado e o experimento tem outro resultado: toda a consciência da humanidade é transportada para o futuro por dois minutos, num evento batizado de Flashforward. Todas as pessoas então tiveram um leve deslumbre do futuro, enquanto outras não viram nada (ou seja, já estavam mortas). Nesses dois minutos em que todos estiveram inconcientes o caos foi instaurado, muitos morreram em acidentes e outras fatalidades. Partindo disso Lloyd Simcoe investiga o que causou esse fenômeno, enquanto Theo Procopides tenta evitar sua própria morte (já que ele não teve nenhuma visão do futuro).

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Impressões: Jogando arcades obscuros

Fazia eras que não entrava em um desses lugares com mil arcades (principalmente por conta dos preços proibitivos), mas em uma viagem recente a São Paulo acabei entrando na Hot Zone de um shopping e me surpreendi: tinha Taiko no Tatsujin  4 e Mario Kart Arcade GP2! Raridades! Corri para testar os dois e acabei descobrindo também After Burner Climax e compartilho aqui minha opinião.

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