Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst

“— É exatamente para isso que servem as fogueiras — diz. — Para partilhar histórias. Há uma ligação espiritual entre a chama e a narrativa.
S. concorda. Ele compreende intuitivamente a proposição de Stenfalk; criamos histórias que nos ajudam a moldar um mundo caótico, avançar em meio às desigualdades de poder, aceitar nossa falta de controle sobre a natureza, os outros, nós mesmos. Mas o que você faz quando não tem as próprias histórias?” (Pág. 146)

S. me intrigou desde a primeira vez que soube de sua existência. O livro, que é fruto de uma parceria entre o produtor J. J. Abrams (conhecido principalmente pela série Lost) e o romancista Doug Dorst, não é nada usual, pois apresenta histórias dentro de histórias, com enigmas e várias camadas. Além disso, o volume é muito bem produzido com notas escritas à mão nas margens e itens inseridos nas páginas, como postais, cartas e fotos. Depois de anos na minha estante, finalmente decidi encarar S. e gostei bastante da experiência. Continue Lendo “Resenha: S., de J.J. Abrams e Doug Dorst”

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Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

“Nunca nos damos conta do vazio em que deixamos passar o tempo enquanto não vivemos de verdade. Por vezes a vida, não os dias queimados, é só um instante, um dia, uma semana, um mês. Sabemos que estamos vivos porque dói, porque de repente tudo importa e porque quando esse breve momento se acaba, o resto da existência se transforma numa recordação à qual tentamos em vão regressar enquanto nos resta alento no corpo.”

Lembro-me com clareza o quanto eu fiquei absorto em A Sombra do Vento. O romance de Carlos Ruiz Zafón me conquistou com sua narrativa intrincada, ótima trama e personagens memoráveis — gostei demais de me perder por uma Barcelona sombria e repleta de mistérios. Acompanhei com afinco toda a série “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, e agora, mais de dez anos após a leitura primeiro volume, conferi o fim da tetralogia com O Labirinto dos Espíritos. O livro tem todas as ótimas características do autor com uma história com ambientação impecável e ótimo ritmo, o que tornou a experiência muito envolvente. Continue Lendo “Resenha: O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón”

Minhas leituras favoritas de 2018

2018 foi um ano bem intenso e, para mim, passou num piscar de olhos. No campo das leituras, eu acabei lendo um pouco menos que no ano anterior, no entanto abri um pouco meus horizontes com alguns livros que eu nem sonhava em conferir. Continue Lendo “Minhas leituras favoritas de 2018”

Resenha: Praia de Manhattan, de Jennifer Egan

“Cada vez que Anna transitava do mundo de seu pai para o de sua mãe e de Lydia, sentia que largava uma vida pela outra, mais profunda. E quando voltava para junto do pai, de mãos dadas com ele enquanto percorriam a cidade, era a vez de largar sua mãe e Lydia, muitas vezes esquecendo-se delas por completo. De um lado para outro ela ia, submergindo cada vez mais — e ainda mais —, até ter a impressão de que não tinha como afundar mais. Contudo, de algum modo, sempre tinha. Nunca chegava a tocar o fundo.”

Uma Nova York sombria e nada glamourosa é o cenário de Praia de Manhattan, de Jennifer Egan. Ao contrário de outros trabalhos da autora, como A Visita Cruel do Tempo, esta é uma obra mais tradicional: o foco é na vida de Anna Kerrigan, uma mulher que decide ser mergulhadora ao mesmo tempo em que procura o pai desaparecido. Praia de Manhattan me conquistou com seus ótimos personagens e sua narrativa envolvente. Continue Lendo “Resenha: Praia de Manhattan, de Jennifer Egan”

Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter

“    Ela pegou a caixa, sopesou-a; pesava quase nada. Levantou a tampa. Outro pedaço de papel, encabeçado pelas palavras TERMINE O APARELHO, tinha instruções simples, parecidas com o diagrama que fora parar na rede. Você não pode usar peças de ferro; essa advertência estava sublinhada. Era preciso apenas enrolar manualmente algumas bobinas de fio de cobre e deslizar contatos para sintonizá-las.
    A policial começou a trabalhar. Enrolar as bobinas era uma tarefa agradável, embora ela não soubesse explicar o porquê. (…)
    Quando terminou, ela fechou a tampa, segurou a chave, cruzou os dedos mentalmente e colocou a chave na posição OESTE.
    A casa desapareceu em uma lufada de ar fresco.
    Flores do campo, por toda parte, até a cintura, como em uma reserva natural.”

A Terra Longa me chamou a atenção com sua premissa: a humanidade descobriu a existência de Terras paralelas e, naturalmente, as pessoas decidem desbravá-las. De autoria conjunta de Terry Pratchett (da série Discworld) e Stephen Baxter (que lançou várias histórias de ficção científica), o livro explora o conceito de mundos paralelos na forma de uma grande viagem repleta de pequenas histórias. Mesmo com alguns pontos problemáticos, apreciei a jornada pelo multiverso da Terra Longa. Continue Lendo “Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter”

Resenha: Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

“Fechei os olhos e vi as crianças fazendo a brincadeira de novo. —A facilidade me pareceu muito assustadora — falei. —Agora entendo por quê.
—O quê?
—A facilidade. Nós, as crianças… Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão.” (Pág. 164)

O que aconteceria se uma mulher negra da década de 1970 fosse parar na época da escravidão? Essa é a premissa de Kindred: Laços de Sangue, uma das obras mais famosas de Octavia E. Butler. Racismo e escravidão são abordados em uma história intensa, cuja sensação de perigo constante é palpável. A narrativa ágil e a temática nada usual me prenderam do início ao fim. Continue Lendo “Resenha: Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler”

Resenha: O elefante desaparece, de Haruki Murakami

“Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma ligeira vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu sentia nas pontas dos dedos uma vaga sensação de tocar no umbral das fronteiras do sono, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta. As poucas e breves cochiladas eram acompanhadas de uma nítida impressão de que minha consciência, sempre vigilante, observava-me atentamente do quarto ao lado, separada por uma fina parede. O meu corpo pairava relutante na penumbra, sentindo na pele sua respiração e seu olhar. Da mesma forma que o meu corpo desejava dormir, minha consciência queria igualmente me manter alerta.” (Sono)

O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos de Haruki Murakami. Pode não parecer, mas o título dá uma ideia do que esperar nas histórias: fatos estranhos capazes de afetar a realidade de maneiras curiosas. Como é de costume do autor japonês, as tramas são repletas de personagens solitários e melancólicos, com a presença pontual de surrealismo. A ambientação envolvente da maior parte das narrativas foi o detalhe que me fez gostar bastante dessa coletânea.

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Resenha: Tirza, de Arnon Grunberg

“A mesa já estava posta para dois. Ele a arrumava bem antes de o jantar estar pronto. Às vezes começava a fazer isso assim que chegava do trabalho. Porque mal podia esperar que ele e Tirza se sentassem a mesa, porque aquele momento restituía o equilíbrio que sempre ameaçava se perder. Tirza e ele, à mesa, jantando. O simulacro de uma família e, mais que isso, um pacto. Um pacto sagrado.”  (Pág. 34)

Tirza, do holandês Arnon Grunberg, é um livro desconcertante e interessantíssimo ao mesmo tempo. A premissa é bem simples: um homem tem uma vida perfeita, mas o que existe por trás dessa fachada? Um protagonista desagradável, fatos inquietantes e uma narrativa bem amarrada me prenderam e me intrigaram durante toda a leitura. Continue Lendo “Resenha: Tirza, de Arnon Grunberg”

Resenha: Os Braceletes da Perdição (Mistborn: Segunda Era #3), de Brandon Sanderson

“— As pessoas são como cordões, Steris — disse Wax. — Nós saímos deslizando, para um lado e para outro, sempre procurando algo novo. Faz parte da natureza humana descobrir o que está escondido. Há tanto que podemos fazer, tantos lugares aonde podemos ir. — Ele se ajeitou no assento, mudando o centro de gravidade, o que fez a esfera girar para cima. — Mas se não há limites, ficamos enrolados — disse ele. — Imagine mil desses cordões disparando pela sala. A lei está aí para nos impedir de barrar a capacidade de explorar de todos os outros. Sem lei não há liberdade. Por isso sou o que sou.
— E a caçada? — perguntou Steris, verdadeiramente curiosa. — Isso não lhe interessa?
— Claro que sim — disse Wax, sorrindo. — Isso é parte da descoberta, parte da procura. Descobrir quem fez. Descobrir os segredos, as respostas.
Havia, claro, outra parte, a parte que Miles forçara Wax a admitir. Havia certa raiva perversa dirigida aos que violavam a lei, quase uma inveja. Como essas pessoas ousavam escapar? Como ousavam ir aos lugares aonde ninguém mais podia ir?”

Eletrizante é uma palavra que eu usaria para resumir Os Braceletes da Perdição, o terceiro livro de Mistborn: Segunda Era. O autor Brandon Sanderson apostou em uma aventura repleta de ação e reviravoltas, sem deixar de desenvolver os personagens e o universo. O andamento excelente me prendeu de uma maneira impressionante, devorei rapidamente o livro — e já quero mais. Continue Lendo “Resenha: Os Braceletes da Perdição (Mistborn: Segunda Era #3), de Brandon Sanderson”

Resenha: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

“Há manhãs em que ele esquece de como foi parar ali e de qualquer ambição modesta que possa ter e sente que no fundo não há nada a desvendar ou entender a qualquer custo. Manhãs como a manhã nublada em que senta em frente à janela de casa com a cachorra ao lado e perde tempo olhando o vento nordeste furioso agitar a água que está entre o azul e o verde, sem reflexos, como se vista por um filtro polarizador. As ondas explodem nas pedras em leques de espuma branca como merengue e os pingos grossos molham seus pés e espalham um perfume de sal e enxofre. Então o vento vira sem aviso. Sua força invisível reconfigura toda a paisagem em instantes. Soprando do sul, estica toda a superfície encrespada do mar em direção ao fundo como se estendesse um lençol amassado sobre a cama.”

Um dos motivos de eu gostar de ler é a sensação de me sentir fisicamente nos locais retratados nas tramas. A narrativa envolvente de Barba ensopada de sangue, do escritor brasileiro Daniel Galera, me fez sentir exatamente isso: era como se eu estivesse ali naquele espaço do litoral brasileiro acompanhando o cotidiano do protagonista sem nome. Continue Lendo “Resenha: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera”