Análise: The Gunk

Um planeta tomado por uma estranha gosma é o cenário de The Gunk. No controle de uma garota equipada com uma manopla mecânica, exploramos localidades deslumbrantes em uma aventura de ação e plataforma bem tradicional. O primeiro trabalho 3D do estúdio sueco Image & Form, que é conhecido pela série SteamWorld, tem ambientação e visuais notáveis, mas decepciona pela sua interpretação rasa de conceitos consagrados.

Desbravando uma terra corrompida

A dupla de mercadoras espaciais Rani e Becks, em sua busca por fontes de renda, acaba em um planeta que não aparece em nenhum mapa interestelar. O local parece promissor: leituras indicam que há alguma energia valiosa ali. Explorando a superfície intocada e desabitada, Rani se depara uma estranha gosma tóxica que corrompe e absorve a força vital da flora e da fauna. Mesmo diante desse perigo, a dupla decide avançar em uma jornada que pode definir o destino do planeta.

The Gunk é estruturado na forma de uma aventura de ação e plataforma 3D. A principal ferramenta de Rani é sua luva mecânica, que a permite agarrar, sugar e lançar objetos. Os desafios, em sua maioria, consistem em utilizar essas ações para liberar rotas ou criar plataformas.  Muitas das áreas estão tomadas pela gosma negra e para avançar precisamos aspirá-la por meio da manopla. Depois de limpar completamente a corrupção de uma área, a flora reaparece e libera novos caminhos.

Fora isso, Rani pode escanear e catalogar diferentes elementos, como plantas, ruínas e dispositivos. Além de prover um contexto do passado do local, preencher o catálogo é útil para liberar melhorias para a protagonista, como aumentar o alcance da sucção da luva, habilitar um movimento de corrida ou permitir lançar esferas de energia para ativar dispositivos distantes. Para construir os aprimoramentos é necessário utilizar recursos, que muitas vezes estão escondidos fora da rota principal.

Purificação que nunca muda

O planeta desabitado está sendo destruído pela gosma parasita em The Gunk, mas o tom da jornada é justamente o contrário com sua progressão relaxante e jogabilidade descompromissada. O jogo tem um pouco de cada estilo, com boa distribuição de momentos de ação, plataforma, puzzle e exploração. A estrutura é bastante linear, porém há incentivos para sair da rota principal em caminhos com itens e elementos da história do mundo.

Das atividades, a minha favorita foi limpar os cenários. É muito satisfatório usar a manopla como se fosse um aspirador de pó para sugar a gosma e depois observar o cenário se restaurar ao terminar de remover a corrupção. Fora esses momentos, há também combates simples com pequenos monstros que podem ser derrotados quando lançados pela luva. As batalhas ajudam a trazer um pouco de tensão, mas é uma pena que existam só três tipos de inimigos por toda a jornada.

O maior problema de The Gunk é que as mecânicas são rasas demais a ponto de deixar as coisas banais. Uma atividade recorrente, por exemplo, é coletar uma fruta e lançá-la em uma poça de energia para criar plantas que servem como plataformas. Acontece que a solução dessas situações é extremamente trivial e óbvia na maioria das vezes, o que torna a aventura um pouco enfadonha. O mesmo se aplica à limpeza da corrupção: aspirar a gosma nunca muda e não há tensão alguma nesses momentos. Para piorar, os saltos da protagonista são meio imprecisos, fazendo com que alguns trechos de plataforma sejam desnecessariamente irritantes.

O resultado é um jogo completamente homogêneo e com ideias que praticamente não evoluem no decorrer das cinco horas de duração. Até existem alguns trechos mais complexos e interessantes na parte final da jornada, mas, fora isso, repetimos eternamente as mesmas ações banais com leves variações. É fácil perceber que houve uma tentativa de introduzir profundidade com o sistema de melhorias e os combates, mas eles são de impacto limitado.

Em um mundo fascinante

A jogabilidade de The Gunk pode não ser grande coisa, mas ao menos a ambientação é bem acertada. O planeta alienígena é deslumbrante, apresentando cenários com flora bela e elaborada, por mais que falte um pouco de variedade temática. Uma trilha sonora suave repleta de instrumentos de corda reforça a atmosfera contemplativa e relaxante.

É notável também o contraste entre as áreas verdes e os trechos completamente cinza tomados pela gosma, e a animação de purificação, que mostra as plantas ressurgindo e mudando os cenários, é sempre ótima de se ver. Destaco o modo de fotografia, pois ele tem inúmeros ajustes que permitem montar cenas interessantes para fotos.

Já a dúvida que sustenta a trama, em um primeiro momento, parece bem instigante: qual é a origem da gosma parasita? No entanto, ela se revela previsível e básica. Mesmo assim, há uma boa dinâmica entre a protagonista Rani e sua amiga Becks, que passam toda a aventura conversando por meio do rádio. A ótima dublagem dá vida às personagens, o que compensa o desenvolvimento superficial da relação delas. O texto está localizado para o português, em uma adaptação competente.

Uma jornada pouco memorável

The Gunk é belo e ambicioso, mas infelizmente não consegue aproveitar o seu potencial. É agradável limpar a gosma, resolver puzzles básicos e explorar cenários visualmente interessantes, porém muitas das mecânicas são subutilizadas e as ideias não evoluem além de seu estado inicial. Ao menos a atmosfera relaxante, os cenários deslumbrantes e a ótima dublagem tornam a experiência envolvente até certo ponto. No mais, The Gunk é razoável, no entanto não consegue se destacar.

The Gunk está disponível no PC, Xbox One e Xbox Series
Versão utilizada para análise: PC

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: