Análise: NieR Replicant ver.1.22474487139…

Em 2010, a Square Enix lançou um RPG de ação chamado NIER, que rapidamente ganhou o status de “excelência desconhecida” por alguns aspectos ousados, a despeito de vários defeitos. Agora, com o sucesso de NieR:Automata, o exótico diretor Yoko Taro decidiu resgatar o jogo na forma de NieR Replicant ver.1.22474487139… O novo título remasteriza a parte técnica do original ao mesmo tempo em que melhora mecânicas e introduz conteúdo novo. O resultado é algo simultaneamente novo e familiar, mas que ainda se apoia em muitos problemas do passado.

Um detalhe curioso é que o NieR original teve duas versões no Japão, cuja principal diferença era o protagonista. NieR Gestalt (Xbox 360) tinha como herói um pai que tentava salvar a sua filha, já em NieR Replicant (PlayStation 3) um jovem procura uma cura para sua irmã doente. No Ocidente foi lançada somente a versão Gestalt para os dois consoles, pois a Square Enix acreditava que a relação “pai e filha” tinha maior apelo neste lado do globo. Sendo assim, NieR Replicant ver.1.22 é a primeira vez que os jogadores ocidentais têm a oportunidade de ver a história do ponto de vista de um protagonista mais jovem.

Em busca de uma cura em um mundo devastado

Shinjuku, Tóquio, ano de 2049. O planeta está devastado e dois irmãos se refugiam em um mercado. Logo criaturas sombrias atacam a dupla, e o garoto os defende como pode. 1300 anos se passam e agora os irmãos moram em uma vila rural. A garota, que se chama Yonah, está acometida pela Black Scrawl, uma doença fatal que o corpo é tomado lentamente por símbolos negros. Seu irmão mais velho quer salvá-la a todo custo, porém a tarefa não é fácil: o mundo foi tomado por Shades, monstros feitos de sombra, e muito do legado da humanidade se perdeu com o caos.

A esperança surge quando o garoto encontra Grimoire Weiss, um livro mágico com poderes excepcionais. Com um pouco de investigação, os dois descobrem que talvez haja uma maneira de salvar Yonah por meio dos Sealed Verses, feitiços poderosos que podem ser aprendidos por Weiss. Com isso, o jovem guerreiro e o livro mágico decidem encontrar tais versos em uma jornada perigosa. Pelo caminho, eles adquirem aliados: Kainé, uma mulher extremamente agressiva e poderosa; e Emil, um garoto tímido amaldiçoado com o poder de tornar pedra qualquer um que ele veja.

O prólogo, que mostra o mundo contemporâneo, já dá uma dica de que NieR é muito mais que uma simples história de fantasia. No decorrer da aventura entendemos aos poucos como os irmãos ainda estão vivos depois de tanto tempo e como o planeta chegou nesse estado quase medieval, em uma trama com reviravoltas e muitos elementos emotivos que nos fazem questionar constantemente as nossas ações.

Em uma jornada simultaneamente comum e surpreendente

A aventura de NieR se desenrola em um RPG de ação tradicional. No controle do garoto, precisamos completar inúmeras tarefas para fazer a história avançar, como explorar calabouços, ajudar pessoas ou derrotar chefes. Há também missões opcionais que ajudam a desenvolver o mundo e seus habitantes. O andamento é bem direto, mas há espaço para exploração livre pelos cenários e algumas atividades mais elaboradas, como pescaria e plantio de vegetais.

O protagonista conta com grande diversidade de opções para acabar com os inimigos durante o combate. Além de atacar com armas, ele utiliza os poderes de Grimoire Weiss para desferir inúmeros feitiços (como pequenos projéteis, lanças de energia concentrada e uma imensa mão sombria), que podem ser carregados em versões mais fortes. Há um pouco de customização na forma de Words, que melhoram características das habilidades ofensivas, como intensificar a força, diminuir o custo de magia ou aumentar a taxa de obtenção de itens.

O combate de NieR Replicant ver.1.22 passou por várias alterações em relação ao original. Agora podemos aparar ataques de inimigos ao defender na hora exata, carregar feitiços enquanto executamos outras ações e as possibilidades de combo foram expandidas com a introdução de um ataque forte. O resultado são batalhas mais curtas e ágeis que remetem aos sistemas de NieR:Automata. Foi incluso também um modo de combate automático para aqueles que desejam se concentrar somente na história.

Uma das características mais notáveis do jogo é a subversão constante das expectativas com alterações que transformam elementos da jogabilidade. Ao entrar em casas ou certos trechos, a ação se torna lateral e lembra um título 2D, com desafios de plataforma. A visão fixa aérea, em combinação com inúmeros projéteis, transforma NieR em uma espécie de shoot ‘em up com elementos de bullet hell. Já uma mansão conta com câmera fixa que remete aos Resident Evil clássicos. Eu me surpreendi constantemente com os gêneros explorados pelo caminho.

O passado influenciando no presente

NieR Replicant foi lançado originalmente em 2010 e hoje muitas de suas decisões de design se mostram datadas. As missões são simples tarefas de ir de um lugar a outro ou conseguir itens para personagens. Já os mapas são mais amplos e possuem poucos elementos marcantes, além dos calabouços serem extremamente lineares. Para piorar, o ciclo de jogo nos força a revisitar os mesmos locais inúmeras vezes sem grandes novidades pelo caminho, o que torna a experiência meio repetitiva.

Mesmo assim, explorar o mundo tem aspectos divertidos. Certos locais apresentam características criativas, como os puzzles no templo do deserto ou os trechos bullet hell na fábrica abandonada. As missões podem ser estruturalmente simples, porém boa parte delas têm histórias que desenvolvem NPCs e constroem melhor o universo. E, claro, é ótimo ver os protagonistas interagindo: muitas das conversas mais interessantes ou divertidas só acontecem durante esses momentos.

O combate é ágil e descomplicado, alternando entre momentos de puro hack and slash e algumas partes estratégicas. Os chefes, em especial, impressionam com batalhas de escala épica com inúmeras fases bastante criativas. Mesmo assim, é uma pena que as várias mecânicas não sejam exploradas de maneiras significativas: o movimento de aparar, por exemplo, raramente vale a pena. É mais ágil e efetivo simplesmente atacar. Além disso, a variedade e complexidade limitada de inimigos deixa as batalhas repetitivas com o tempo — na segunda partida eu já estava evitando os confrontos.

Reimaginando um clássico cult

NieR Replicant ver.1.22 apresenta visual retrabalhado, com novos modelos e mudanças em várias áreas. Os cenários são repletos de detalhes e camadas, resultando em um mundo belo e com um ar de complexidade. Apreciei a vastidão dos campos do norte, a curiosa configuração nas montanhas da vila Aerie, a arquitetura grega da cidade Seafront e os corredores opressivos da fábrica de robôs Junk Heap. Ainda há elementos com texturas borradas e modelos simples, porém o resultado é impressionante, ainda mais em comparação com o original.

A trilha sonora foi remasterizada e expandida: as composições ganharam elementos e ficaram mais elaboradas e belas, mesmo que algumas faixas perderam um pouco do tom intimista das originais com essas mudanças. Uma combinação de vocais em uma língua inventada, elementos orquestrais e toques de eletrônico traz um tom etéreo e melancólico ao mundo pós-apocalíptico de NieR. Temple of Drifiting Sands, The Wretched Automatons e Emil ~ Sacrifice são alguns dos exemplos notáveis.

O jogo conta também com conteúdo inédito. A linha de história “Mermaid” é integrada naturalmente à trama principal e traz um pouco de desenvolvimento ao mundo, mesmo sendo bem simples. Foi incluído também um novo final com mais surpresas e reviravoltas. Por fim, há conteúdo de NieR:Automata: visuais para os personagens, quatro armas e uma opção para usar a sua trilha sonora. Fora isso, Replicant ver.1.22 inclui o calabouço focado em combates que, no original, só podia ser acessado via DLC — salvo um trecho com mecânicas diferentes, essa área extra não é lá muito interessante, afinal só reaproveita os inimigos da trama principal.

Preso em um universo pungentemente melancólico

NieR Replicant pode não ser excepcional em sua exploração e combate, mas o seu real apelo está em sua trama e ambientação. No começo a história pode parecer mais uma jornada de fantasia, no entanto, aos poucos, ela se revela complexa e interessante, explorando temas como desolação, tristeza e decepção — o que era de se esperar em um mundo pós-apocalíptico tomado pelo caos. Existem alguns momentos alegres, mas, no geral, o tom é de melancolia, principalmente pelas conclusões trágicas e agridoces.

Um elenco cativante de personagens ajuda a tornar a história envolvente. O protagonista em si não tem muito desenvolvimento e é o típico herói justo que se importa com seus companheiros. Já o livro falante Grimoire Weiss diverte com sua arrogância que raramente é levada à sério, e muitos dos diálogos mais divertidos são iniciados por ele. A jovem Kainé incomoda com sua atitude extremamente agressiva e repleta de palavras chulas, porém, aos poucos, ela se revela complexa e leal. Por fim, o garoto Emil é o sensível do grupo e protagoniza muitas das cenas mais tocantes da história. Uma dublagem excepcional ajuda a dar vida ao exótico grupo de heróis.

A narrativa é explorada em camadas: o jogo tem vários finais e, para vê-los, é necessário passar pela jornada várias vezes. A cada partida, novos elementos de história e dos personagens são introduzidos e fatos antigos são explorados de outros ângulos. Parece algo banal, mas a maneira que isso ocorre é bem interessante — uma mesma cena tem peso e contextos completamente diferentes com as novas informações. Essa abordagem joga uma nova luz sobre os antagonistas e logo percebemos que nem tudo é o que parece, o que me fez questionar constantemente as minhas ações junto aos protagonistas.

Receber detalhes da trama incrementalmente é um recurso único e interessante, porém os requerimentos para ver sua totalidade incomodam. O problema é que há pouco de novo entre as partidas: fora as poucas cenas inéditas, enfrentamos os mesmos inimigos, passamos pelos mesmos eventos e atravessamos os mesmos mapas. Por esse motivo e as limitações de design do jogo, essa atividade se torna cansativa e repetitiva. No começo até me perguntei se uma única partida com todas as cenas já não seria suficiente, mas depois concluí que não teria o mesmo impacto — é uma pena que esses problemas incomodem tanto.

Explorar os vários finais pode parecer opcional, mas não é: para aproveitar completamente a experiência de NieR Replicant, é essencial passar por todo esse processo, afinal a trama na totalidade só se revela ao explorar todos os ciclos. No começo da segunda partida eu já estava cansado de tanta repetição e passei a simplesmente ignorar os inimigos, mesmo achando a história bem interessante. Sinto que isso se dá por causa de alguma limitação da desenvolvedora na época do original, tanto é que NieR:Automata conseguiu fazer isso melhor ao ter diferentes protagonistas, mecânicas e pontos de vista entre as partidas.

Uma remasterização admirável

NieR Replicant ver.1.22474487139… envolve com sua atmosfera de fantasia soturna e melancólica. A trama pode ser simples, mas a maneira de contar a história traz grande impacto — é difícil não se sentir desconfortável com as reviravoltas proporcionadas pelos diferentes pontos de vista. Como RPG de ação, NieR é competente e oferece bons momentos de exploração e combate, mas algumas questões, como conteúdo limitado e repetido constantemente, comprometem a experiência. As inúmeras melhorias no visual e nas mecânicas tornam o jogo mais palatável, porém as decisões duvidosas de design seguem intocadas. No mais, NieR Replicant ver.1.22474487139… é um título repleto de imperfeições o qual exige muita dedicação, no entanto a sua jornada vale a pena.

NieR Replicant ver.1.22474487139… está disponível no PC, PlayStation 4 e Xbox One
Versão utilizada para análise: PlayStation 4

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