Análise: Smelter

Smelter tem uma premissa no mínimo curiosa: Eva se funde a uma criatura para obter poderes especiais a fim de encontrar Adão, que desapareceu depois de um estranho evento. Essa trama maluca é explorada em uma aventura que se divide em estágios de plataforma tradicionais e em trechos de estratégia em tempo real, que se relacionam constantemente. Claramente inspirado em Mega Man X e Actraiser, este indie se destaca com a grande diversidade de conteúdo e criatividade, por mais que falte equilíbrio entre alguns de seus elementos.

Uma parceria inusitada

Um cataclisma atingiu o Jardim do Éden e, por causa disso, Adão e Eva acabam se separando. Explorando uma caverna, a mulher encontra uma criatura alada chamada Smelter, que é capaz de prover poderes especiais ao se fundir com pessoas. O bicho tagarela faz uma proposta: ele promete ajudar Eva em sua busca emprestando a sua força, em contrapartida a mulher precisa auxiliá-lo na reconstrução de seu reino. Eva aceita o acordo e assim começa a jornada da dupla pela perigosa região conhecida como Rumbly Lands.

Smelter se divide em dois momentos distintos. No controle de Eva, exploramos estágios de ação e plataforma 2D tradicionais repletos de partes com saltos e muitos inimigos. Já o mapa é desbravado por Smelter em um híbrido de construção de reino e estratégia em tempo real. Nesses trechos, precisamos criar unidades e estruturas para combater investidas de inimigos, ao mesmo tempo em que expandimos nossos domínios.

Os dois estilos têm relação entre si. Runas e itens encontrados nos estágios de ação liberam poderes e melhorias para Smelter e para as estruturas, permitindo alcançar novas áreas do mapa e liberando novas opções estratégicas. Já Eva é fortalecida ao ativar locais especiais no mundo e ao aumentar a população do império. Sendo assim, para conseguir avançar, é essencial desenvolver bem aspectos dos dois estilos de jogo.

O jogo emana aquela vibe da era 16-bits com seu belo visual em pixel art, com sua trilha sonora de melodias intensas repleta de guitarras e sintetizadores, e com sua ambientação leve e divertida. O resultado é um mundo agradável que parece ter vindo do passado, sem deixar de ser moderno. Um ponto duvidoso é a história em si: Eva e sua mitologia praticamente não têm influência na trama e no universo. O mundo apresenta elementos usuais de fantasia com monstros e magia, e a simples trama se concentra unicamente em Smelter. Não explorar a mitologia da personagem foi uma oportunidade perdida, mas no fim não faz muita diferença, pois a história é basicamente irrelevante — os diálogos não fazem sentido algum e a linha narrativa não tem forma clara.

Uma Eva guerreira explorando regiões perigosas

O melhor de Smelter está nos estágios de ação 2D em que controlamos Eva. Eles apresentam conceitos consolidados, mas há algumas ideias interessantes. Além de atacar e pular, a heroína também conta com uma investida, que é uma ótima opção para se locomover rapidamente ou escapar de ataques de inimigos. Já a verticalidade está presente com a habilidade de pular por paredes. Por fim, Eva também pode lançar uma garra de energia com diferentes usos, como mover objetos, se agarrar a barras para se lançar no ar ou consumir inimigos derrotados para recuperar a vida. A movimentação é ágil e os controles são bem precisos, o que torna a navegação bem agradável.

Além dessas habilidades, a heroína tem três diferentes armaduras elementais com propriedades distintas. O poder de pedra oferece poderosos socos, maior defesa e uma habilidade que impede que a garota seja arrastada por ventos fortes. A vestimenta de eletricidade tem movimentos de mobilidade e um chicote de energia para golpear inimigos à média distância. Ao ativar a armadura de água, a garota consegue disparar projéteis de um canhão no braço e consegue flutuar no ar. Depois de obtidos os poderes, é possível alternar livremente entre eles, e habilidades adicionais podem ser liberadas no decorrer da aventura.

O andamento dos estágios é linear, mas existem itens escondidos pelos cenários, em paredes falsas ou locais de difícil acesso. Pelas fases também estão presentes trechos opcionais de desafio. Neles, há algum caminho complicado que precisa ser atravessado sob alguma condição, como não ser visto, não levar dano ou chegar ao final em determinado intervalo de tempo. A dificuldade desses desafios é entre moderada e alta, e gostei bastante deles, pois é necessário domínio das habilidades de Eva e destreza. Alguns deles me enfureceram com trechos extremamente complicados que exigiam precisão milimétrica, porém isso não chega a ser um grande problema, afinal eles são opcionais.

Todos esses elementos são explorados em estágios repletos de situações diversas. Há de tudo um pouco, como arenas focadas em combate, trechos com plataformas instáveis ou que desaparecem de tempos em tempos, momentos em que precisamos fugir de inimigos, seções de furtividade, e mais. As partes mais criativas são aquelas que exigem utilizar diferentes armaduras de Eva, e as habilidades desbloqueáveis opcionais oferecem ainda mais possibilidades de exploração. Só achei as fases longas demais, principalmente as últimas, e a ausência de uma opção para começar em algum checkpoint específico faz falta na hora de visitar novamente as áreas.

Smelter também se inspira no passado em sua dificuldade, que varia entre moderada e alta. Várias características são responsáveis por isso: recuperar a vida durante os estágios é raro, os inimigos são poderosos e posicionados em locais complicados, armadilhas e buracos que matam instantaneamente estão por todos os cantos. O resultado é um desafio intenso que demanda atenção e destreza. Perdi as contas das vezes que morri, mas os checkpoints constantes evitaram a frustração.

Mesmo assim, existem alguns picos de dificuldade irritantes. Há alguns trechos, principalmente mais para o final do jogo, que são longos e extremamente complicados, às vezes exigindo movimentos com precisão milimétrica. Certos chefes também têm problemas com ataques imprevisíveis ou rápidos demais. Espero que ajustes sejam feitos no futuro para deixar essas partes mais justas.

Estratégia limitada na pele do monstrinho alado

Fora dos estágios 2D, controlamos Smelter em um misto de administração de reino e estratégia em tempo real. Com os recursos coletados nos estágios, expandimos o império do monstrinho alado construindo diferentes estruturas pelo mapa. Primeiro precisamos fazer pomares para coletar maçãs, que alimentam nossas tropas. Em seguida, é necessário construir quartéis, que geram soldados. Por fim, as unidades podem ser colocadas em campos de infantaria (que atacam inimigos no solo) ou em torres de arquearia (para acertar oponentes voadores). O espaço disponível é bem limitado, logo é importante pensar com cuidado que tipo de estrutura montar.

Ao adentrar uma nova região, Smelter precisa cumprir uma missão para dominar o local e, consequentemente, obter acesso ao estágio de ação. Essas tarefas se resumem a derrotar ondas de inimigos, às vezes protegendo estruturas importantes do mapa. O monstrinho participa ativamente dos embates atirando nos inimigos ou então realizando reparos em construções danificadas. Melhorias são desbloqueadas aos poucos ao avançar na aventura, como diferentes unidades com poderes elementais e opções de melhoria de estruturas. Há também estágios em que Smelter precisa enfrentar inimigos sozinho no estilo shoot ‘em up, mas eles são extremamente simples e repetitivos.

O conceito desses momentos é interessante, mas na prática não empolga por causa de vários problemas. Para começar, as batalhas não exigem muita tática: basta colocar o máximo possível de estruturas de ataque para vencer as ondas de inimigos. Além disso, a dificuldade não é balanceada, bastando poucos erros para ser completamente destruído pelos inimigos. Por fim, a parte de administração de reino é bem limitada, pois há somente três tipos de estruturas e os mapas em si são bem simples — basicamente não há estratégia ao expandir os domínios do monstro voador.

A tentativa de mesclar ação 2D e estratégia em tempo real é notável, mas, no fim das contas, não funciona muito bem. A ligação entre os dois estilos é bastante tímida e desconexa (basicamente liberação de habilidades ao custo de recursos), e as limitações dos trechos do mapa os tornam quase irrelevantes. Particularmente, acredito que o jogo se destacaria mais ao focar somente nos trechos de ação e plataforma, ou talvez com um melhor desenvolvimento das partes de estratégia.

Mistura divertida, mesmo que desbalanceada

Smelter ousa ao mesclar ação 2D e estratégia em tempo real em uma aventura interessante, mas um pouco desequilibrada. O ponto alto está nos trechos de plataforma, que contam com desafios criativos e intensos — é divertido controlar Eva, principalmente por causa de sua agilidade e diversidade de habilidades. Já os momentos de estratégia em tempo real se revelam extremamente limitados, pouco adicionando à experiência no geral. Fora isso, a ambientação envolve com o visual e música inspirados na era 16-bits, mas a história é irrelevante, inclusive a participação de Eva. No mais, Smelter é uma experiência inventiva que diverte em seus pontos fortes.

Smelter está disponível no PC, PlayStation 4, Xbox One e Switch
Versão utilizada para análise: PC

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