Análise: Disco Elysium – The Final Cut

Disco Elysium parece mais uma história de detetive, porém logo se revela nada convencional ao abordar temas de maneira ímpar. O trabalho de estreia da produtora independente ZA/UM transforma conceitos de RPG de mesa em uma aventura excepcional com muita liberdade e texto bem escrito. Além disso, Disco Elysium conta também com uma narrativa densa e envolvente, que aborda um protagonista repleto de falhas morais e temas políticos e sociais relevantes, sempre com uma pitada de excêntrico. A versão The Final Cut marca a estreia do jogo nos consoles e inclui várias novidades que o deixam ainda mais magnético, como dublagem completa de todos os personagens e missões inéditas.

Um tira sem memória e um estranho enforcamento

Um homem acorda em um quarto de hotel e não se lembra de nada: ele não sabe como chegou ali e também não reconhece o rosto estranho refletido no espelho. O cômodo está bagunçado e com muitos objetos quebrados, e a mente do homem diz que ele foi o autor desse caos depois de uma noite de bebedeira. Sim, isso mesmo: inúmeras vozes diferentes em sua cabeça começam a falar, dando informações desencontradas e às vezes discutindo entre si. Confuso, ele decide sair do quarto para ver se descobre algo.

As pessoas presentes no lobby do hotel claramente o conhecem, mas o evitam — pelo jeito a fama dele não é das melhores. Porém, aos poucos, ele consegue entender a situação geral. O homem é um policial na cidade de Revachol e foi incumbido de investigar um estranho enforcamento no distrito de Martinaise. Para isso, ele conta com o apoio de Kim Kitsuragi, um competente tenente de outra delegacia.

Mesmo sem se lembrar de seu próprio nome ou até mesmo de conceitos básicos do mundo, o policial com amnésia mergulha em uma investigação que se revela bem mais complexa do que inicialmente parecia, ainda mais levando em conta as tensões políticas de Revachol. Isso não será um grande problema, pois o homem percebe que é um detetive notável: ele encontra pistas com facilidade e é capaz de interrogar pessoas com desenvoltura. Ao mesmo tempo, precisamos também remontar a história e as memórias do investigador — uma tarefa complicada, pois sua mente está bem fraturada.

A mente e a percepção como instrumentos de investigação

Disco Elysium pega conceitos de RPG de mesa e computer RPGs e os transforma em uma interessante aventura com foco narrativo. Para avançar, o policial interage com pessoas e objetos a fim de executar ações ou obter informações. Durante esses momentos, que contam com elaboradas descrições textuais, aparecem diferentes opções que permitem alterar os rumos dos eventos e conversas. Os comandos são simples: basta clicar em algum local ou ponto de interesse para que o personagem se mova e realize interações. Uma das novidades de The Final Cut é a opção de usar controles tradicionais, mas não achei tão intuitivo quanto o estilo tradicional apontar e clicar.

No início da aventura, podemos montar manualmente as características do protagonista ou escolher entre três diferentes arquétipos: Pensador (inteligente, mas péssimo com pessoas), Sensível (carismático, porém mentalmente instável) ou Físico (foco em interações corporais). O perfil do personagem influencia o ritmo da aventura, pois os atributos afetam a percepção do mundo e determinam que tipo de opções podem ser feitas durante as interações.

O jogo conta com uma seleção no mínimo curiosa de características, que se dividem em Intelecto, Psique, Físico e Motoras. A habilidade Enciclopédia, por exemplo, provê informações do mundo que podem ser úteis para resolver certas situações. Autoridade permite intimidar pessoas com palavras ou postura. Ao aumentar a Percepção, o detetive passa a ver detalhes antes despercebidos, liberando novos pontos de interação nos cenários. Já Arrepios é utilizada para se conectar ao sobrenatural e a intuições indescritíveis. Cálculo Visual permite reconstruir visualmente cenas do passado por meio de observação minuciosa. Império Interior dá voz à intuição, aquela sensação que nos diz no íntimo qual é a melhor opção no momento. Apreciei a interpretação nada convencional de sentimentos e características humanas.

As várias situações e puzzles que aparecem pelo caminho dependem fortemente dos atributos. Muitas das interações contam com uma checagem de habilidade, que combina rolagem de dados e as características do personagem para determinar o sucesso da ação. Quanto maior o nível do atributo em questão, maior é a chance de a interação dar certo. Essa mecânica é utilizada em inúmeras situações, como tentar convencer uma testemunha a falar, arrombar uma porta, perceber detalhes de pegadas no solo, e mais. As checagens brancas podem ser repetidas inúmeras vezes, já as vermelhas oferecem uma única chance. Os atributos podem ser aumentados permanentemente com pontos obtidos ao subir de nível, ou temporariamente ao equipar diferentes roupas, ou consumir álcool ou drogas ilícitas.

Por fim, há o Gabinete de Reflexão, um recurso que representa as ruminações mentais do detetive. Certas interações desbloqueiam pensamentos, que podem ser colocados em espaços no Gabinete, liberando benefícios e desvantagens. Após algum tempo, os pensamentos são internalizados e suas características mudam completamente. Muitas vantagens exclusivas só estão disponíveis por meio do Gabinete de Reflexão, e é importante utilizá-lo com atenção, pois os espaços são limitados.

Flexibilidade e possibilidades em uma aventura não linear

Disco Elysium me conquistou com sua vasta liberdade, pois na maior parte das vezes há diferentes soluções para um mesmo problema. Ao encontrar uma porta trancada em uma livraria, podemos tentar derrubá-la ou encontrar a chave para abri-la. Em outro momento, para conseguir informações de uma pessoa, é possível intimidá-la com a autoridade do policial ou então fazer algum favor para ela. É notável também como muitas das tarefas estão interligadas: confrontar um suspeito é muito mais fácil caso você tenha conseguido algumas evidências antes. Atos pequenos podem ter consequências profundas no futuro, mudando sensivelmente os rumos da narrativa.

O objetivo principal do investigador é resolver o crime, mas há inúmeras atividades paralelas espalhadas por Revachol. Essas missões desenvolvem as histórias dos vários habitantes da cidade, ajudam a entender melhor o panorama desse universo complicado e permitem conhecer melhor os mistérios da mente do protagonista. O mundo em si não é muito grande, mas é bastante intrincado — objetos, mistérios e interações estão presentes em todos os cantos.

Há de tudo um pouco: em um momento, ajudei a dona da livraria a libertar a sua loja de uma maldição especializada em falir empreendimentos; passando por um beco, percebi uma parede que merecia receber uma “manifestação artística”, logo fui atrás de tinta para pintá-la; ao ver uma máquina de karaokê no hotel, o investigador sentiu uma vontade pungente de cantar ali, o que resultou na busca por uma fita com uma música triste. Há tanta coisa para ver e fazer que constantemente me concentrei nesse conteúdo opcional.

A liberdade também está presente na abordagem do protagonista. Podemos ir direto ao ponto nos interrogatórios, mas existem inúmeras outras opções, como perguntas pessoais, comentários inteligentes (ou idiotas) feitos após observação ou respostas completamente malucas. A moral do detetive é bem flexível: muitas vezes ele pode ser solidário e bondoso, mas é possível também subornar, intimidar, extorquir e enganar. O mais interessante é que não há abordagens corretas ou erradas. Quase tudo é possível e aceitável dentro do mundo distorcido de Disco Elysium.

O andamento da trama é bastante aberto, permitindo fazer passos mais elaborados ou usar atalhos para alcançar os objetivos. Os pontos de checagens de habilidade são frequentes, e não necessariamente é necessário ser bem sucedido em todos — muitas das cenas mais interessantes acontecem quando as coisas dão errado. Há, inclusive, um aspecto estratégico nessa mecânica, afinal podemos nos preparar de antemão ao alocar novos pontos de habilidade ou ao equipar itens. Dependendo do arquétipo do personagem, é praticamente impossível fazer certas abordagens, o que incentiva a jogar a aventura novamente com outros perfis de protagonista.

A mecânica de possibilidades é uma abordagem interessante para trazer um pouco de imprevisibilidade ao jogo. No entanto, alguns trechos da trama principal só avançam caso certas checagens de habilidade sejam completadas com sucesso, o que pode criar bloqueios pelo caminho. Você pode tentar novamente essas interações, mas elas só são desbloqueadas novamente ao colocar pontos no atributo correspondente e, mesmo assim, o sucesso não é garantido. Por causa disso, foram várias as vezes em que o azar atrasou ou parou completamente o meu progresso, o que é um pouco frustrante.

Um ponto que me incomodou foi a ausência de informações básicas sobre os sistemas de jogo. Em uma primeira olhada, é difícil entender com clareza como funciona cada uma das 24 habilidades e o Gabinete de Reflexão, já que seus textos de explicação são vagos. Por causa disso, é fácil desperdiçar pontos em coisas inúteis para aquele momento ou para o perfil do personagem como um todo. Com experimentação e atenção eu fui entendendo como os atributos funcionavam e consegui fazer um uso inteligente dos meus pontos, mas um pouco mais de clareza não faria mal algum.

Mergulhando em um mundo soturno e melancólico

O grande trunfo de Disco Elysium está em sua ambientação ímpar, que conta com personagens pitorescos e um universo ricamente construído. Muitos temas são explorados pela trama, como violência, sexo, pobreza, abandono, traição, melancolia e desespero, mas há também muitos momentos divertidos e leves. Os assuntos mais espinhosos são abordados de maneira séria e madura, às vezes com cenas desconcertantes. A trama principal, principalmente a sua conclusão, não é lá muito interessante, mas o que vale mesmo é o desenvolvimento, principalmente no conteúdo opcional.

A cidade de Revachol transmite muitos desses conceitos em um ambiente politicamente instável em que diferentes realidades sociais se chocam. Áreas industriais e apartamentos precários se contrastam no mesmo quarteirão; já a região costeira é repleta de simples cabanas de pescadores, natureza, gelo e ruínas. O resultado é um local pitoresco, que também transmite melancolia com suas marcas de conflitos passados, sujeira, pobreza e contrastes de luz.

Mesmo assim, o visual encanta com seu estilo impressionista, com cenários que parecem ter sido feitos com pinceladas severas de tinta. A câmera isométrica resgata o charme de aventuras dos anos 1990 e ajuda a trazer dinâmica às várias cenas da aventura. E o tom de melancolia é reforçado pela suave e pungente trilha sonora produzida pela banda britânica British Sea Power.

A narrativa é transmitida majoritariamente por texto, em passagens longas, densas e muito bem escritas — me senti lendo um elaborado romance policial interativo. O jogo está completamente localizado para o português e a adaptação é minuciosa: fiquei impressionado com o cuidado despendido, ainda mais levando em conta a imensa quantidade de diálogos espalhados pela jornada. Há um recurso que permite alternar instantaneamente entre duas línguas, mas não precisei utilizar em nenhum momento para verificar o original em inglês, pois o texto em português está impecável.

Inúmeras vozes e o peso da política

Disco Elysium é uma trama de investigação, mas é também uma história sobre pessoas variadas, explorada sob uma forte ótica social, política e mental.

O protagonista me cativou com sua personalidade multifacetada e vulnerável. Claramente vemos que ele tem problemas com álcool, com drogas ilícitas e com seu próprio passado conturbado, mas, mesmo assim, ele tenta seguir em frente. Ele também é imprevisível, às vezes soltando falas absurdas e engraçadas em momentos sérios, ou então ficando completamente emocional e melancólico com algum fato aleatório.

É interessante observar as diferentes partes da mente dele fazendo sugestões ou até mesmo discutindo entre si durante as interações, como se ele tivesse inúmeras personalidades conflitantes. E às vezes ele parece insano, pois conversa com a própria gravata e com outros objetos. Mas, por trás da instabilidade, há um homem com senso crítico afiado e um carisma indescritível — é muito difícil não se afeiçoar a um personagem tão humano e quebrado.

Já o tenente Kim Kitsuragi é um contraponto com sua personalidade calma, séria e centrada. No começo, ele e o investigador não se dão muito bem, afinal o tenente não confia em um bêbado desmemoriado. Porém, conforme passam por diversas situações complicadas, eles se aproximam e se tornam quase amigos. Gostei demais de ver seus comentários sarcásticos sobre as atitudes excêntricas do protagonista, os diálogos divertidos nos momentos de camaradagem (como uma parte em que a dupla passa tempo com um jogo de tabuleiro), e também vislumbres de suas vulnerabilidades e estranhezas.

Fora a dupla principal, há uma vasta gama de personagens secundários para conhecer, como o irritante garoto Cuno, a exótica dona da livraria, o líder durão de uma gangue, um sindicalista inescrupuloso, e mais. Cada um desses indivíduos é ricamente trabalhado em diálogos densos e linhas de história interessantes, sempre explorando os temas gerais de Disco Elysium. É por meio deles também que entendemos um pouco mais do universo do jogo, que é bastante complexo e intrigante.

A personalidade das pessoas é representada com belas ilustrações impressionistas de seus rostos e uma dublagem ímpar que dá vida e identidade a eles. Inclusive, uma das novidades da versão The Final Cut é a dublagem integral de todos os personagens — uma decisão acertada, pois a variedade de sotaques e tonalidades traz ainda mais charme ao mundo do jogo. O mesmo cuidado se aplica aos diferentes aspectos da mente do protagonista, que são representados com desenhos surreais.

Política é um dos temas centrais de Disco Elysium, afinal a cidade de Revachol se estabeleceu após um confronto mundial e agora é um lugar liberal, mas com inúmeros conflitos de interesses e tensão constante. Temos um sindicato corrupto que usa sua influência para controlar sorrateiramente o bairro de Martinaise, uma força policial que não é levada a sério pelos habitantes, presença de racismo e xenofobia, discursos extremistas, e mais. A sensação que eu tive é de que o lugar está sempre à beira de um colapso ou enfrentamento sério. Constantemente somos questionados sobre nossos pontos políticos em vários dos diálogos, e o alinhamento do protagonista influencia o rumo de algumas conversas. Há inúmeros momentos desconfortáveis, que muitas vezes se desenrolam em conflitos tensos e viscerais — é desconfortável, mas é também hipnotizante.

Uma das inclusões mais notáveis em The Final Cut é um conjunto de missões políticas, que servem como um fechamento para o alinhamento do detetive. Cada uma das ideologias (Fascismo, Comunismo, Ultraliberalismo e Moralismo) conta com uma linha de história exclusiva, e somente uma delas pode ser vista em cada partida. No meu caso, o protagonista era Ultraliberal e colocou na cabeça que precisava fazer muito dinheiro, o que resultou em uma cômica e surreal sequência de eventos. Essa adição é interessante, e as quatro missões, juntas, oferecem conteúdo considerável, mas não acredito que seja um motivo suficiente para veteranos revisitarem o jogo.

Uma investigação fenomenal

Disco Elysium combina diferentes elementos em um RPG muito envolvente. Investigação, existencialismo e política se misturam em uma aventura nada usual, repleta de mecânicas simples e elegantes. Além disso, há muito o que ver pelo seu elaborado mundo, que pode ser desbravado de maneiras distintas por causa da liberdade na hora de abordar as situações. A densa narrativa explora temas notáveis por meio de vários personagens memoráveis e cenas pungentes, em um texto elaborado e impecavelmente localizado para o português. Um visual com toques impressionistas, música suave e dublagem acertada montam o clima melancólico da cidade de Revachol. No fim, essas características fazem com que Disco Elysium seja uma experiência excepcional.

Disco Elysium – The Final Cut está disponível no PC, PlayStation 4/5 e iOS
Versão utilizada para análise: PC

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