Análise: Genesis Noir

Em Genesis Noir, acompanhamos um homem que tenta impedir o Big Bang para salvar o seu amor. Para isso, ele explora a história do universo em uma série de trechos com puzzles e cenas inusitadas. Um visual impactante, música bem colocada e muitos momentos criativos são os pontos altos do jogo, que lembra mais um filme surreal interativo por causa de suas mecânicas simples. Como boa parte das obras experimentais, para aproveitar o jogo é importante estar disposto a aceitar a atmosfera absurda, que não está livre de problemas.

Suprimindo o universo em nome do amor

Um vendedor de relógios chamado No Man, depois de chegar em casa após trabalhar, decide ligar para a sua musa, a cantora de jazz Miss Mass. Os dois decidem se encontrar e o homem vai até o apartamento da moça. Chegando lá, o vendedor presencia uma cena desesperadora: um saxofonista chamado Golden Boy, com inveja desse relacionamento, atira em Miss Mass. Da arma do rapaz sai um grande feixe de energia, também conhecido como o Big Bang, evento que criou o universo. Desesperado, No Man consegue pausar o tempo e vai tentar descobrir uma maneira de salvar Miss Mass de sua perdição iminente.

Essa premissa inusitada já mostra o que esperar de Genesis Noir. Claramente os envolvidos no triângulo amoroso são entidades superiores e de seu conflito surgiu o evento que deu início ao universo. Muito dessa trama é inferida pelo decorrer da história e nada é muito explícito ou bem explicado — ligar os pontos e eventos fica a cargo do jogador.

Para salvar Miss Mass, No Man precisa explorar o caos temporal criado pelo Big Bang, em uma jornada que aborda diferentes estágios da criação do universo e sua relação com a humanidade. Para avançar, é necessário concluir diferentes eventos espalhados no rastro da energia emanada pela arma de Golden Boy, em trechos que misturam cenas não interativas, puzzles e elementos point and click. O andamento é nada convencional, sendo o resultado um título único.

Brincando na evolução cósmica

Como jogo, Genesis Noir é bem simples e tem foco na experiência em si. Os puzzles e situações que aparecem pelo caminho são bem fáceis e nos convidam a brincar com seus elementos táteis. Logo no início do universo, misturamos diferentes partes de micróbios para criar novas espécies na Terra primitiva; em um surreal jardim cósmico, criamos árvores manipulando o tempo ou removendo pedras do solo; ao encontrar um baixista em uma cidade, criamos melodias por meio de experimentações sonoras; no futuro distante, ajustamos equipamentos para ajudar uma cientista em um experimento com um acelerador de partículas.

Boa parte dos enigmas são resolvidos por tentativa e erro, já outros exigem observação de elementos próximos, nunca deixando de lado a intenção lúdica de simplesmente sair testando e experimentando possibilidades. No entanto, existem puzzles e situações com soluções extremamente específicas e com instruções bem vagas, trazendo um pouco de frustração — muitos deles eu descobri a solução por puro acaso. Também é comum às vezes ficar travado sem saber como prosseguir, pois o cenário não dá as indicações necessárias com clareza. Por sorte, essas questões incomodam pouco no decorrer das poucas horas da aventura.

É interessante a diversidade de momentos no título. Alguns capítulos apresentam pequenas áreas que podem ser exploradas livremente, enquanto outros mostram uma série linear de cenas interativas. Apreciei essa abordagem, pois é difícil saber que tipo de experiência o jogo vai oferecer a seguir. No entanto, faltou um equilíbrio maior e entre os trechos: algumas fases são extremamente curtas, já outras se arrastam por muito tempo. Esse tipo de problema é mais aparente nos momentos finais da aventura, com várias cenas longas e com pouca interação. Particularmente, acredito que Genesis Noir funciona melhor em seus momentos mais contidos e inspirados.

Perdido na loucura das estrelas

O grande chamariz de Genesis Noir é a sua experiência exótica, uma mistura estilosa entre filme noir monocromático, jazz e ciência, sempre com altas doses de absurdo. Pode parecer estranho, mas funciona e é o maior charme do jogo.

O universo do jogo é retratado com um visual impressionista surreal. Os mundos dentro do Big Bang apresentam somente tons de azul escuro, branco e dourado, trazendo contraste e personalidade. As cenas são bastante elaboradas, com ângulos impossíveis, elementos retratando múltiplas realidades simultâneas e muitos detalhes. A trilha sonora, que usa principalmente elementos de jazz, é bem pontual, mas aparece nos momentos certos, intensificando as emoções das cenas.

Eu me impressionei bastante com as inúmeras situações da jornada: na era das cavernas, o protagonista procura o rastro de uma besta por uma densa floresta; flutuando no espaço, controlamos a órbita de planetas para criar uma estrela; em busca de um artefato, o vendedor de relógios explora a evolução de culturas da Terra ao quebrar vasos de cerâmica e tijolos. Todos esses momentos são um espetáculo visual e achei um deleite observar as cenas inusitadas e elaboradas.

Genesis Noir explora dois principais temas em uma trama extremamente fragmentada. Por um lado, temos No Man tentando salvar sua musa; por outro, observamos a evolução do universo, partindo de sua criação primitiva. Pelo caminho, são trabalhados de maneiras sutis inúmeros sentimentos humanos, como medo, arrependimento, admiração e amor. Aos poucos os assuntos se relacionam, sendo interessante a maneira como muitos trechos se amarram. A história é contada majoritariamente por meio de elementos visuais, e o texto só aparece no início de cada capítulo, com alguma explicação científica sobre o cosmos e em algumas cenas dos capítulos finais.

O resultado dessa abordagem mais aberta é um caleidoscópio temático curioso que permite inúmeras interpretações. No entanto, a trama é obtusa demais a ponto de não fazer sentido. O suposto triângulo amoroso entre as três entidades, por exemplo, é muito mal explorado e confuso, sendo bem difícil entender com clareza as relações entre os personagens — a sinopse do jogo nas lojas digitais é muito mais informativa nesse sentido. Já a parte da evolução do universo começa de forma clara, porém se torna uma bagunça estranha no final. Não vejo problema no uso de uma abordagem mais aberta e subjetiva, porém um pouco mais de consistência deixaria a experiência mais agradável.

Uma fantasia para poucos

Genesis Noir é uma experiência curiosa e altamente experimental. Um universo surreal espera aqueles que mergulham na proposta do jogo, que usa uma mistura de cenas não interativas e puzzles táteis para contar uma complicada história de amor. Muitos momentos exagerados e impressionantes estão espalhados pela aventura, e o visual impactante e a trilha sonora pontual, mas poderosa, intensificam as sensações. Porém, o título incomoda ao apresentar puzzles muito básicos, alguns trechos confusos e uma trama obtusa demais. No fim, Genesis Noir é um breve espetáculo visual envolvente, basicamente um filme interativo.

Genesis Noir está disponível no PC, Xbox One e Switch
Versão utilizada para análise: PC

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