Análise: Night Call

Ser taxista em uma grande metrópole significa lidar diariamente com muitas pessoas de personalidades distintas, cada qual com histórias, problemas, dilemas e alegrias. E o táxi, como uma sala em outra dimensão, é perfeito para confidências, revelações e sinceridade. Mas o que acontece quando um serial killer aparece e bagunça a vida de um motorista? Night Call tenta responder essa pergunta. Nesse jogo independente que combina aventura e investigação, acompanhamos um taxista que se vê forçado em atuar como um detetive enquanto trabalha. Inúmeras histórias variadas e muito bem construídas, e uma atmosfera ímpar inspirada em filmes noir, me fizeram mergulhar no universo do título.

Uma complicada vida dupla forçada

Um assassino está à solta em Paris e já fez inúmeras vítimas. Até o momento, um taxista é o único sobrevivente. Depois de dias em coma, ele volta para o trabalho e é abordado por uma policial. Ela diz que sabe do passado conturbado dele (que ele tenta esconder a todo custo) e o força a colaborar com a investigação — caso não encontrem o responsável, o taxista levará a culpa. Sem outra opção, o motorista precisa conversar com passageiros e informantes a fim de encontrar evidências que indicam a identidade do assassino. Curiosamente, o taxista tem um talento inato que faz as pessoas se abrirem para ele, uma habilidade importante nesse tipo de investigação.

Night Call é uma mescla de vários gêneros. Em cada noite temos várias ações à disposição, como atender clientes, visitar locais, papear com pessoas em postos de gasolina e mais. O foco é conversar com os passageiros em busca de informações em trechos que lembram um visual novel, ou seja, acompanhamos diálogos em forma de texto com eventuais momentos de interação na forma de respostas. Os rumos das conversas podem mudar drasticamente de acordo com nossas ações e não há exatamente escolhas certas.


Fora isso, há a investigação em si. Durante o trabalho, precisamos obter informações sobre os suspeitos e são várias as possibilidades: passageiros podem comentar rumores sobre o caso, locais podem ser visitados a fim de encontrar pistas ou informantes, jornais e rádio comentam  detalhes do caso, e mais. Todas as pistas são compiladas em um quadro no quarto do taxista e é possível estudar as ligações para tentar determinar quem é o assassino — a identidade do criminoso deve ser descoberta em menos de uma semana.

Para complicar as coisas, precisamos administrar os recursos para sobreviver. As corridas são importantes, pois há contas e combustível para pagar. Já as informações mais relevantes para a investigação só podem ser obtidas nos pontos de interesse, e visitar esses locais não dá dinheiro algum (às vezes, inclusive, há gastos adicionais). Como cada ação consome parte do tempo disponível, é imprescindível balancear as atividades: ficar sem dinheiro ou combustível significa fim de jogo, porém não ter evidência suficiente para indicar o assassino correto resulta em um final trágico para o taxista.

Uma infinidade de pessoas e conversas

O que eu mais gostei em Night Call é a grande variedade de passageiros. O taxista atende todo tipo de gente e os temas dos diálogos são bem interessantes e contemporâneos. O texto é muito bem escrito e variado: cada pessoa apresenta maneirismos, ritmo e termos exclusivos, nenhum parece um com outro. Os temas mais mundanos conseguem ser abordados de maneiras instigantes, já assuntos mais complicados receberam um tratamento natural e sem sensacionalismos.

Me surpreendi com a diversidade dos temas abordados, como política, imigração, religião, questões humanitárias e mais. Uma babá adolescente, por exemplo, suspeita que uma criança está sendo agredida pelos pais, e podemos instigá-la a denunciá-los ou não. Já outra passageira estava indo para a Grécia cobrir a situação dos imigrantes, porém ela se sentia desconfortável por ser somente uma observadora — em seu íntimo ela queria fazer mais, no entanto isso colocaria a carreira dela em risco. Um DJ desdenha do sucesso de um ex-pupilo ao mesmo tempo em que reflete sobre seus fracassos. Um policial compartilha o fato de que vai casar com outro homem, contudo ele teme em contar para seus colegas de trabalho por causa do ambiente machista.


A construção do taxista é feita de forma indireta e também explora assuntos delicados. Ele é de descendência árabe, o que gera desconfiança de alguns, pois no mundo do jogo houve recentemente um ataque terrorista associado a essa etnia — sem contar que a França sofre com problemas relacionados aos imigrantes. Além disso, o taxista tem um passado complicado e sempre reflete sobre a própria vida ao conversar com os passageiros. Algo legal é que é possível aprofundar o relacionamento com certos personagens ao encontrá-los várias vezes durante a semana, o que libera novas interações.

Há também um pouco de realismo fantástico e maluquice: um dos clientes é um cosplayer maluco, outro é um Papai Noel que esqueceu onde estacionou seu trenó, uma viajante do futuro aparece com previsões apocalípticas, um gato foge de seu dono por causa de excesso de carinho e mais. O texto consegue mudar o tom com precisão e nunca parece estranho ir de um assunto sério para algo engraçado ou exótico — eu sempre fiquei curioso para saber que história o próximo cliente iria contar, afinal qualquer assunto pode aparecer. Há mais de 70 personagens para conhecer no jogo, o que garante uma extensa variedade de histórias.


Sendo um jogo baseado em texto e pessoas, senti falta de alguns recursos úteis. Em boa parte dos visual novels há a opção de acessar todo o histórico da conversa para rever trechos ou diálogos, infelizmente Night Call não conta com isso. Também gostaria de uma maneira mais fácil de checar informações sobre os passageiros anteriormente encontrados — há um menu bem básico que mostra todos que já conversamos, no entanto ele está em uma tela separada e mal tem informações úteis. Por fim, fiquei decepcionado com o fato de que muitos personagens repetem o mesmo texto quando os encontramos de novo.

Fora a premissa inicial, o jogo cativa com uma atmosfera incrível inspirada no cinema noir: Paris é representada em preto, branco e cinza, com eventuais tons de dourado. Há uma sensação geral de melancolia e mistério reforçada por elementos visuais, como chuva constante e algumas cenas que exibem cenários durante a madrugada. Uma trilha sonora minimalista com faixas inspiradas em jazz suave e filmes noir potencializam os sentimentos do jogo.

Os problemas do turno da noite

Conhecer os passageiros é minha atividade favorita em Night Call, no entanto ainda há a parte investigativa para se levar em consideração. O jogo conta com três casos distintos que são mecanicamente idênticos, mas os culpados sempre mudam. Infelizmente a premissa de todos eles é a mesma, sendo a diferença o nome do assassino, quais passageiros podem ser encontrados e a dificuldade. O curioso é que errar o assassino no final da semana não significa derrota: basta carregar novamente o arquivo e escolher outro suspeito. Essa implementação tira um pouco de peso e importância da investigação em si, mas não me incomodou tanto — o que vale, aqui, são as conversas e as pessoas.

As ideias do jogo são instigantes, no entanto a implementação delas deixa a desejar em alguns aspectos. O taxista tem dois objetivos conflitantes e tempo limitado, sendo assim é necessário escolher com cuidado o próximo passo. Contudo, o jogo não dá informações claras e suficientes para podermos fazer escolhas conscientes: é impossível saber se uma corrida é vantajosa financeiramente ou quanto combustível será consumido ao ir a um ponto de investigação. No meu tempo com o jogo, mesmo me concentrando somente nos passageiros, acabei com prejuízos financeiros no final de praticamente todos os turnos. Informações antecipadas sobre os passageiros, corridas e gasto de combustível com certeza deixariam a experiência mais agradável e estratégica.


A parte da investigação é interessante, porém não combina muito bem com as conversas com os passageiros. As informações coletadas durante os diálogos não têm contexto algum: um texto indica “o passageiro comenta sobre o assassino” e uma notificação de nova informação aparece. As pistas em si, em sua maioria, são rumores simples e não são suficientes para inferir alguma coisa (e algumas delas são contraditórias). Os dados coletados nos pontos de investigação são mais elaborados e essenciais para conseguir descobrir quem é o assassino, mas, mesmo assim, raramente passam de uma frase solta. No fim, fiquei com a sensação de desconexão entre as conversas e mecânicas de investigação — parece que essa a última foi incluída no jogo de qualquer jeito.

No fim, é fácil perceber que Night Call é, na verdade, um visual novel com leves aspectos de investigação e gerenciamento. Com muita insistência eu consegui entender como fazer para conciliar os objetivos de alguma maneira, mas achei uma pena que os sistemas sejam subdesenvolvidos. Por sorte, o jogo conta com um modo mais fácil perfeito para aproveitar as histórias, assim como uma modalidade difícil para os que querem um desafio (ou dor de cabeça).

Um belo olhar sobre a diversidade humana

Night Call me conquistou com seu conceito e ambientação únicos. É muito instigante explorar uma Paris noir na pele de um taxista, principalmente por causa da extensa quantidade de passageiros diferentes para encontrar. Fiquei surpreso com a diversidade de temas, que vai de assuntos banais, passa por questões contemporâneas sérias e acaba em eventos sobrenaturais e inusitados — o ótimo texto é versátil e traz identidade às diferentes conversas. A parte da investigação tem ideias interessantes, no entanto a implementação delas deixa a desejar. Night Call e seus inúmeros personagens são capazes de trazer à tona diferentes sentimentos, e é justamente essa característica que o faz notável.

 

Night Call está disponível no PC

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