Resenha: O assassinato do comendador (Vol. 1), de Haruki Murakami

“Para falar a verdade, até aquele momento eu acreditava que as obras nihon-ga sempre retratavam o mundo de maneira estilizada e serena. Tinha a visão limitada de que a técnica e os motes desse estilo não se prestavam a expressar emoções intensas, fazendo parte de um mundo totalmente distinto do meu. Entretanto, ao ver O assassinato do comendador, me dei conta de que isso não passava de um preconceito infundado. Naquele duelo mortal retratado por Tomohiko Amada existia algo capaz de abalar profundamente o observador. Um homem vitorioso, outro vencido. Um homem que fere, outro que é ferido. O contraste era algo que chamava a atenção. Aquela pintura tinha algo de especial.” (Pág. 75)

Eu estava bastante ansioso para conferir O assassinato do comendador, o primeiro romance inédito de Haruki Murakami em anos. A premissa inusitada, o estilo característico do autor (que é um dos meus favoritos) e alguns comentários positivos me deixaram muito curioso. No Brasil, a obra, que é um pouco longa, foi dividida em duas partes. Conferi o Volume 1 e é praticamente o que eu imaginava, por mais que eu esperava um pouco mais.

No meio de uma crise conjugal, que o marido nem sabia que estava acontecendo, um casal se separa. O marido abandona Tóquio e passa a viver em seu carro, viajando pelo Japão. Pintor de retratos reconhecido no meio, ele acaba por conseguir uma casa que pertenceu ao famoso Tomohiko Amada. A casa fica nas montanhas, e lá ele pode se dedicar a própria pintura. Nessa casa de paredes vazias, ele começa a ouvir ruídos estranhos e descobre um quadro inédito intitulado O assassinato do comendador. Ao tirá-lo de seu esconderijo, ele entra em um mundo estranho em que a ópera Don Giovanni de Mozart, a encomenda de um retrato, uma adolescente tímida e, claro, um comendador passarão a fazer parte de sua vida.

Eu costumo dizer que os livros do Murakami sempre apresentam algumas características em comum, e O Assassinato do Comendador não foge à regra. O centro da trama é, mais uma vez, um homem solitário com problemas de relacionamento cuja vida muda drasticamente. Como é de praxe, fatos fantásticos influenciam fortemente a narrativa, com muitas coisas estranhas e sem explicação clara.

A história do protagonista sem nome tem um tom mais contemplativo por causa do ritmo lento centrado na retratação do cotidiano. Nesse ponto, Murakami me conquistou com uma atmosfera suave, bucólica e tranquila, mesmo que um sentimento de melancolia seja constante — o pintor fica remoendo e refletindo repetidamente sobre seu casamento falido, tentando entender o que deu errado. Boa parte da narrativa acontece em uma casa em uma montanha, e consegui visualizar tão bem todos os arredores que me senti praticamente ali acompanhando de perto os acontecimentos. Essa sensação de estar presente vem da escrita suave e elegante de Murakami, gosto especialmente de como ele consegue descrever coisas simples de maneira enigmática ou com analogias inusitadas.

Apreciei os personagens de O assassinato do comendador por serem bem construídos e verossímeis. O pintor sem nome é tipicamente mais uma pessoa comum sem muitas aspirações, no entanto ele carrega uma forte carga de solidão, sofrimento e melancolia. O mais interessante é que ele está tentando se encontrar como pessoa e como artista, refletindo constantemente sobre o passado e as circunstâncias do mundo. Suas dúvidas e reflexões são exploradas durante a trama, coisas humanas e relatáveis que fiquei me perguntando se ele não era uma pessoa real. Outro personagem que apreciei bastante é Wataru Menshiki, um enigmático homem rico que pede que o protagonista pinte um retrato, sendo que suas ações têm uma forte carga de mistério e aos poucos percebemos que ele é bem complexo. Também conhecemos a história de Tomohiko Amada, um pintor famoso com passado mais conturbado do que parece. E, claro, há o comendador — mas quanto menos você souber sobre ele, melhor. Mesmo com personalidades diversas, há uma aura constante de solidão envolvendo todas essas pessoas.

Por trás da atmosfera bucólica, O assassinato do comendador é repleto de elementos de realismo fantástico. Depois que o protagonista encontra o quadro que dá nome ao livro, coisas anormais começam a acontecer — fatos simples, mas desconcertantes, como um guizo soando do nada no meio da madrugada. Pouco a pouco, a trama vai sendo tomada pela estranheza, o que nos faz refletir o que é real ou não junto com os personagens. O mais legal é que Murakami introduz esses elementos de maneira tão sutil que você toma tudo como verdade ou natural, mas sem se deixar de surpreender com os acontecimentos intrigantes.

“O som do guizo vem do ateliê. Não havia sombra de dúvida.
Mas e agora? O que eu deveria fazer? Minha mente estava um caos Eu sentia medo, é claro. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo dentro daquela casa, sob o meu teto. Era de madrugada, e eu estava absolutamente só, em um lugar deserto, no meio da montanha. Não havia como não sentir medo. No entanto, ao relembrar aquele momento, percebo que sentia ainda mais perplexidade do que medo. Talvez o cérebro funcione dessa forma. Para aliviar o terror, para diminuir uma forte pressão, ele mobiliza outro sentimento ou outra sensação, como em um incêndio quando usamos todos os recipientes para carregar água.” (Pág. 242)

Gostei bastante da ambientação e atmosfera do livro, no entanto isso não isenta a obra de vários problemas. O primeiro deles é uma narrativa arrastada, com várias cenas e trechos do cotidiano que pouco contribuem para a trama: você avança por vários capítulos e parece que não saiu do lugar. Além disso, a divisão da história é desproporcional, com desenvolvimentos mais interessantes acontecendo depois da metade da trama, com um corte bem estranho no fim — particularmente preferia que o livro fosse lançado em um único volume por aqui. Inclusive, mesmo só lendo metade da obra, imagino que seria uma leitura mais agradável se a narrativa fosse mais enxuta e direta. Por fim, é um pouco cansativo ver Murakami explorar novamente os mesmos temas de sempre sem grandes novidades, com algumas características assustadoramente parecidas com outras já utilizadas em obras anteriores.

assassinato-comendador-arte

O Assassinato do Comendador me conquistou com sua ótima atmosfera que mistura o dia a dia bucólico com realismo fantástico. Mais uma vez, Murakami explora temas como solidão, melancolia e inadequação por meio de personagens muito interessantes e cenas bem escritas, resultando em uma narrativa envolvente. No entanto, o livro tem ritmo irregular e soa desnecessariamente longo — e, para piorar, a edição brasileira foi dividida em dois volumes. No fim, eu gostei da experiência de acompanhar a história do pintor sem nome, principalmente por causa dos trechos finais instigantes, e quero muito saber como a história termina.

     “— Ouvi dizer que você é um excelente retratista. Além disso, para tudo há uma primeira vez — afirmou o Homem Sem Face.
     Em seguida, riu. Ao menos, tive a impressão de que um som parecido com um riso, como o eco vazio do vento de uma caverna.
     Ele tirou o chapéu que cobria metade do seu rosto. No lugar face, havia apenas um redemoinho de névoa leitosa, girando lentamente.
     Me levantei e trouxe do ateliê um caderno de esboços e um lápis macio. Depois me sentei no sofá e tentei retratar o Homem Sem Face. No entanto, não sabia por onde começar, nem como buscar um ponto de partida. Afinal, o que havia ali era apenas o nada. Como eu poderia dar forma a ausência de qualquer coisa? Além do mais, a névoa leitosa que envolvia esse nada se modificava o tempo todo.
     — É melhor você se apressar — disse o Homem Sem Face. — Não posso demorar aqui.
     Meu coração batia com um som seco. Não tenho muito tempo. Preciso ser rápido. Ainda assim, os dedos que seguravam o lápis estavam paralisados no meio de um gesto e não queriam se mover de jeito nenhum, como se tudo abaixo do meu pulso estivesse dormente. Ele estava certo, eu tinha pessoas para proteger e, de resto, desenhar era a única coisa que eu sabia fazer. Apesar disso, não conseguia de jeito nenhum desenhar o rosto daquele Homem Sem Face. Fiquei encarando, impotente, a névoa que se agitava.”(Pág. 8)

Arte: Gulf News

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