Análise: Wargroove

Uma rainha em fuga é a protagonista de Wargroove, título de estratégia por turnos da Chucklefish Games. Por trás do visual vibrante e atmosfera leve, há um sistema elaborado que permite muitas possibilidades de táticas. O resultado é uma experiência muito recompensadora, com ideias criativas exploradas por vários modos de jogo. Claramente inspirado na série Advance Wars, o título expande ideias do gênero e consegue ter identidade própria.

No controle de pequenos exércitos

Em sua essência, Wargroove é um título de estratégia por turnos no qual comandamos um pequeno exército em missões variadas. As partidas acontecem em mapas divididos no formato de grade, com cada unidade ocupando um único espaço. Comandamos diretamente cada batalhão, que apresenta ações como se mover ou atacar. O jogo é inspirado nos títulos estratégicos da Intelligent Systems, especialmente Advance Wars, contudo ele apresenta personalidade ao ter características únicas.

Há uma grande variedade de unidades no jogo, cada qual com atributos distintos. Os guerreiros de infantaria não são muito poderosos, no entanto conseguem capturar cidades. Já os cães se especializam em reconhecimento por causa de sua alta taxa de movimentação. Magos são frágeis, porém contam com feitiços de cura. Arqueiros atacam à distância ao custo de se moverem mais lentamente. Cada batalhão tem vantagem sobre certos tipos de inimigos, logo fazer escolhas conscientes é essencial para sair vitorioso.


Uma mecânica única de Wargroove são os Ataques Críticos. Cada uma das unidades é capaz de desferir um golpe poderoso ao satisfazer condições específicas. Os lanceiros, por exemplo, dão dano crítico ao ter outra unidade idêntica no espaço adjacente. Um cavaleiro montado ativa a técnica ao atacar um inimigo bem distante de sua posição inicial. Os arqueiros golpeiam com força quando atiram sem se mover. As vantagens dos Ataques Críticos são capazes de compensar fraquezas de alguns batalhões, logo eles são um incentivo para jogar de maneira inteligente.

Nas missões, também controlamos um comandante. Essa unidade única é mais poderosa que as outras e sua vida se recupera aos poucos entre os turnos. Além disso, os generais têm a disposição o Groove, uma técnica especial exclusiva de efeitos variados: Mércia recupera a vida das unidades próximas, Nuru invoca uma unidade à sua escolha, Emérico cria um cristal que aumenta a defesa dos aliados, e assim por diante. Por causa dessas vantagens, os comandantes são unidades valiosas e muito úteis, só é necessário ter cuidado, pois as missões acabam quando eles são derrotados.


Além dessas características, Wargroove conta com diversas outras variáveis, como tipos de terreno, variações de clima, uma névoa que limita a visão do campo de batalha e muito mais. O resultado é um jogo complexo e diversificado, com partidas repletas de possibilidades.

A diversão que vem dos sistemas elaborados

Dominar os vários sistemas de Wargroove é sua maior fonte de diversão. Gostei bastante de explorar as possibilidades dos diferentes tipos de unidades, em partidas que lembram um xadrez mais complexo. E para vencer não basta somente entender os batalhões, mas também utilizar o terreno ao nosso favor: os mapas contam com gargalos e outros pontos estratégicos perfeitos para impedir o avanço dos inimigos, se bem utilizados. As informações estão bem distribuídas na interface, facilitando fazer escolhas conscientes.

A quantidade de variáveis e mecânicas é grande, e Wargroove as introduz aos poucos no modo Campanha. Nele, acompanhamos Mércia, a jovem rainha do reino de Carmesinta, que precisa fugir de sua terra após uma invasão. Pelo caminho, a monarca participa de batalhas, das quais boa parte se resume em derrotar o comandante ou base do inimigo, mas alguns estágios apresentam estruturas distintas. Em uma situação, por exemplo, precisamos levar civis para um ponto específico do mapa enquanto enfrentamos inimigos. Em outra missão, o objetivo é invadir uma fortaleza no comando de um grupo bem limitado. Névoa limita a área de visão em algumas áreas, forçando o avanço cuidadoso.


Apreciei bastante a diversidade de situações do jogo, pois elas exploram as mecânicas de maneiras criativas. O mais legal é a necessidade de se adaptar constantemente, afinal cada missão exige estratégias diferentes para serem vencidas, além de algumas surpresas acontecerem no decorrer dos estágios. A dificuldade vai depender da habilidade do jogador, mas ela está longe de ser baixa — mesmo eu já estando habituado ao gênero, foram várias as vezes que precisei reiniciar uma missão por ter comprometido a vitória com algum erro bobo. De qualquer maneira, existem opções para diminuir ou aumentar a dificuldade, o que deixa o jogo acessível.

Alguns pequenos problemas me incomodaram em Wargroove. Às vezes, a inteligência artificial realiza ações duvidosas, como utilizar uma unidade muito enfraquecida em ataques suicidas. Com um pouquinho de técnica, é possível abusar desses comportamentos. Além disso, a interface poderia ser melhor: ela é bonita, mas faltam informações cruciais e clareza. Os comandos, por exemplo, não estão listados em lugar algum, descobri por acaso alguns recursos avançados testando as teclas, como a opção de acelerar a velocidade de movimentação das unidades ou colocar o cursor automaticamente na próxima unidade disponível. A parte de gerenciamento do conteúdo baixado é confusa, sendo pouco intuitivas as ações de acessar ou apagar os mapas. Não são questões cruciais, mas que eu gostaria que fossem resolvidas no futuro.

Explorando a fórmula de maneiras inventivas

Outro grande trunfo de Wargroove é a diversidade de modos de jogo. A Campanha tem várias missões criativas, além de uma história simples, porém divertida. Já no Arcade escolhemos um dos capitães e precisamos vencer algumas batalhas em sequência. Um dos mais criativos é o modo Enigma. Nele, temos um único turno para derrotar o exército inimigo, o que exige utilizar os recursos disponíveis de forma meticulosa e inteligente. Apreciei como cada modo explora as mecânicas de maneiras distintas.

O recurso mais notável do título é a sua ferramenta de criação. Por meio dela, é possível criar mapas, enigmas e até mesmo campanhas customizadas. O modo é muito poderoso: inúmeros recursos estão disponíveis, o que permite criar cenas de conversas e até mesmo fases com progressão distinta, como se fosse um pequeno RPG tático. As criações podem ser compartilhadas facilmente e é simples baixar conteúdo feito pelos jogadores. A ferramenta de criação possibilitará que Wargroove tenha conteúdo praticamente infinito, e me surpreendi com a qualidade elaborada das criações já disponíveis.


Por fim, há um modo Multiplayer para até quatro jogadores, com partidas locais ou online. Características dos embates são completamente customizáveis, com direito a usar mapas criados no editor ou feitos por outros jogadores. Um detalhe notável é a presença de cross-play no online, ou seja, jogadores de plataformas diferentes podem se enfrentar. Além disso, há suporte a partidas assíncronas: caso queira, não é necessário ficar esperando a jogada do oponente, o título manda um aviso para cada participante quando chega a sua hora de jogar.

Uma guerra com muito humor e carisma

Além de cuidado com as mecânicas de jogo, a produtora Chucklefish construiu com esmero o mundo e a atmosfera de Wargroove. O visual remete à era 16-bits com muita cor e gráficos em pixel art. A cultura de cada nação é representada em seus exércitos: as unidades de Carmesinta lembram personagens de uma fantasia medieval, já os batalhões de Floranos contam com criaturas da floresta, e assim por diante. Os confrontos contam com cenas de de batalha muito bem animadas, por mais que elas se tornam repetitivas depois de algum tempo.

Também houve cuidado na caracterização dos personagens e reinos, com a personalidade dos comandantes sendo explorada nas conversas do modo Campanha. É um jogo de guerra, mas é um conflito leve, com vários diálogos divertidos — um dos meus favoritos foi quando os subordinados de César, um cão que é também um comandante, ficam elogiando o animal dizendo “ele é muito majestoso e fofo”. Informações adicionais sobre personagens, locais e unidades estão disponíveis em Códice, vale a leitura por enriquecer a experiência. E para facilitar, o jogo está completamente localizado para o português brasileiro.

Estratégia viciante

Um conceito simples e complexidade aplicada na medida certa são os maiores trunfos de Wargroove. O jogo oferece muitas possibilidades de estratégia com a presença de mapas elaborados, muitas unidades diferentes, mecânicas avançadas e mais — dominar os sistemas é divertido e recompensador. A quantidade de conteúdo é vasta e diversificada, e ele é dividido em modos e missões criativas, sendo possível construir ou obter novos mapas e campanhas com facilidade. A união desses elementos faz com que Wargroove seja um título viciante e excepcional, apreciadores de estratégia tática não podem deixar de conferi-lo.

 

Wargroove está disponível no PC, Xbox One e Switch
Versão utilizada para análise: PC

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