Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter

“    Ela pegou a caixa, sopesou-a; pesava quase nada. Levantou a tampa. Outro pedaço de papel, encabeçado pelas palavras TERMINE O APARELHO, tinha instruções simples, parecidas com o diagrama que fora parar na rede. Você não pode usar peças de ferro; essa advertência estava sublinhada. Era preciso apenas enrolar manualmente algumas bobinas de fio de cobre e deslizar contatos para sintonizá-las.
    A policial começou a trabalhar. Enrolar as bobinas era uma tarefa agradável, embora ela não soubesse explicar o porquê. (…)
    Quando terminou, ela fechou a tampa, segurou a chave, cruzou os dedos mentalmente e colocou a chave na posição OESTE.
    A casa desapareceu em uma lufada de ar fresco.
    Flores do campo, por toda parte, até a cintura, como em uma reserva natural.”

A Terra Longa me chamou a atenção com sua premissa: a humanidade descobriu a existência de Terras paralelas e, naturalmente, as pessoas decidem desbravá-las. De autoria conjunta de Terry Pratchett (da série Discworld) e Stephen Baxter (que lançou várias histórias de ficção científica), o livro explora o conceito de mundos paralelos na forma de uma grande viagem repleta de pequenas histórias. Mesmo com alguns pontos problemáticos, apreciei a jornada pelo multiverso da Terra Longa.

Dois grandes autores de ficção científica se unem para dar início a uma aventura entre mundos paralelos. Tudo começa com a oficial Monica Jansson, que vasculha o que restou da casa de um cientista recluso misteriosamente desaparecido e encontra um Saltador: aparelho que permite viagens por entre infinitas Terras paralelas. Anos depois, conhecemos Joshua Valienté, um saltador natural, que não precisa do aparelho para transitar entre universos. Após viver boa parte da vida como um andarilho solitário, ele é recrutado pela influente Black Corporation para uma viagem de exploração, na qual deve seguir até os confins desses múltiplos mundos, afastando-se cada vez mais da Terra Padrão, e descobrir os segredos e surpresas que a Terra Longa reserva.

O conceito principal de A Terra Longa é interessante e bem trabalhado. Os autores tiveram o cuidado de construir o universo de maneira detalhada, encaixando conceitos com lendas da vida real. As regras bem definidas, como não poder levar ferro nos saltos de uma Terra para outra e o enjoo após cada viagem, fazem com que o ato de saltar pareça verossímil. Me impressionou o esmero na construção dos mundos: na essência eles são idênticos, mas cada um tem particularidades interessantes. Um deles, por exemplo, não tem lua, logo a topografia é do planeta diferente por causa da ausência de marés. Já outro é tomado quase que completamente por oceanos e criaturas marinhas gigantescas. Um terceiro é habitado por inúmeros tipos de animais bizarros que lembram levemente os da nossa realidade.

A descoberta de inúmeras outras Terras repletas de recursos naturais teve um grande impacto na humanidade, tanto quanto econômico como social. Muitas pessoas decidiram desbravar esses outros mundos, e por causa das regras e limitações dos saltos interdimensionais as pessoas basicamente tiveram que recomeçar do zero nessas Terras paralelas — é bem interessante ver como as pessoas se adaptaram a essa nova realidade. A trama de A Terra Longa não é repleta de alta tecnologia como outras ficções científicas: o foco é mais em como a descoberta dos universos paralelos afetou a sociedade no geral.

Várias pequenas histórias paralelas ilustram as incursões dos humanos na Terra Longa. Nelas, acompanhamos as jornadas de grupos a fim de alcançar mundos distantes, entendemos como os humanos se organizaram e conhecemos também os perigos desses universos paralelos. O legal é que os autores também exploram fatos anteriores ao momento em que os saltos interdimensionais se tornaram comum, utilizando como recurso algumas histórias da nossa cultura para explicar as coisas. As histórias deixam a ambientação mais rica, tornando mais verossímil o conceito principal do livro.

“Também existem os mundos malucos, em que só existe cinza, ou areia, ou outra coisa qualquer. Mundos isolados. Quando são perigosos, há um aviso no mundo anterior e temos que usar chapéu ou cobrir a boca com um pano antes de saltar. O capitão Batson chama esses mundos de curingas. Às vezes passamos por mundos que já foram habitados. São mundos feios, com cabanas em ruínas e tendas queimadas. Até mesmo cruzes fincadas no chão. Na Terra Longa, nem sempre as coisas dão certo, como costuma dizer o Sr. Batson.”

Mesmo com muitas pequenas tramas, há uma linha de narrativa principal focada em uma dupla de protagonistas. Joshua Valienté é um homem calado e na dele, porém tem grande senso de exploração e gosto por aventuras. Já Lobsang é, supostamente, um tibetano que reencarnou em uma entidade de inteligência artificial. Ele é imprevisível, cínico e divertido, fazendo bom contrapeso com a seriedade de Joshua. Aos poucos me afeiçoei a eles, mesmo não gostando muito dos dois no início da jornada.

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Joshua explorando um dos mundos da Terra Longa

Meu maior problema com A Terra Longa é a falta de foco. Até temos uma trama principal, porém ela é mal desenvolvida, com os autores dando mais importância às várias pequenas histórias. Isso enriquece a ambientação, porém faz com que a leitura seja estranha e deslocada, e até mesmo desinteressante, pois a narrativa fica constantemente alternando entre coisas diferentes e raramente desenvolvidas o suficiente. Existem vários mistérios espalhados pelo caminho e mais pro final a trama principal até encorpa, mas aí já não há mais tempo hábil para desenvolvê-la satisfatoriamente. No fim das contas, fiquei um pouco decepcionado com a banalidade de algumas revelações e com o fechamento vago da história — por mais que quero saber como a série continua a partir dali, principalmente por causa do final que sugere várias possibilidades.

A Terra Longa apresenta um conceito muito interessante de multiverso. Gostei bastante de como o livro aborda o impacto na sociedade da descoberta de várias outras Terras, principalmente por meio das várias mini-histórias. A linha principal da trama demora um pouco para ganhar ritmo, no entanto não deixa de ser interessante por causa da presença de dois protagonistas carismáticos e algumas cenas legais. Mas, mesmo assim, fiquei com a impressão de que faltou mais foco na ideia geral do livro — os autores não conseguem desenvolver suficientemente todos os pontos de narrativa. Mesmo assim, me diverti com A Terra Longa e quero muito conferir os próximos volumes da série.

“    — Minha mãe tinha um ditado que costumava usar quando nós, crianças, ficávamos muito afoitas: “É tudo muito bem e tudo muito bom até alguém se machucar.” Não posso deixar de pensar que, se abusarmos da sorte com este maravilhoso brinquedo do multiverso, mais cedo ou mais tarde um pé enorme vai descer sobre nós. Se bem que você provavelmente vai olhar para cima para saber quem é o dono do pé.
    — Até isso seria interessante — disse Joshua.”

Arte: Marc Simonetti

2 comentários em “Resenha: A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter”

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