Resenha: Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

“Fechei os olhos e vi as crianças fazendo a brincadeira de novo. —A facilidade me pareceu muito assustadora — falei. —Agora entendo por quê.
—O quê?
—A facilidade. Nós, as crianças… Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão.” (Pág. 164)

O que aconteceria se uma mulher negra da década de 1970 fosse parar na época da escravidão? Essa é a premissa de Kindred: Laços de Sangue, uma das obras mais famosas de Octavia E. Butler. Racismo e escravidão são abordados em uma história intensa, cuja sensação de perigo constante é palpável. A narrativa ágil e a temática nada usual me prenderam do início ao fim.

Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.

Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo.

Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil — um lugar perigoso para uma mulher negra —, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.

Existem inúmeras histórias sobre viagens no tempo, porém nunca tinha me deparado com uma tão diferente como a retratada em Kindred. Desde o início, fiquei intrigado com a premissa e bastaram poucas páginas para querer saber os desdobramentos da trama.

Para mim, o melhor ponto de Kindred é o ponto central da trama. Dana, uma mulher negra de 26 anos, constantemente volta no tempo, mais precisamente para o século XIX. Nessa época, nos Estados Unidos, a escravidão estava no auge, o que é um problema para Dana: lá ela não tem garantia alguma de liberdade. Mas, infelizmente, ela precisa lidar com isso, pois as viagens no tempo para o passado se tornam constantes e o motivo é que um antepassado branco da protagonista está em constante perigo. Sendo assim, para garantir a própria existência, ela acaba sendo forçada a mantê-lo em segurança — o “kindred” (“parentesco”, em inglês) do título já dá uma dica.

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A maior complicação de Dana não é nem fingir ser escrava (isso se torna relativamente fácil para ela em face do perigo constante de apanhar ou até mesmo morrer), mas sim ter uma mentalidade moderna em uma era em que os negros não têm liberdade nem voz. Por causa disso, Dana precisa se policiar o tempo todo em face das crueldades, por mais que internamente sofra constantemente. Mas, claro, ela vai fazer o máximo para ajudar seus iguais, mesmo que isso signifique em punição para si. Me sensibilizei com os dilemas da heroína e com o seu sofrimento, e me surpreendi em como viver em uma era tão difícil por tanto tempo a endurece.

Um detalhe que fortalece essa temática é a narrativa: ela é crua e visceral, sem receio de expor fatos pesados ou violência. Para mim, foi um ponto interessante, pois você consegue sentir a dores e complicações dos personagens, tornando-os bem relatáveis. Com isso, a autora explora temas como escravidão, privilégios, resiliência, amor e justiça, fazendo alguns paralelos com o mundo moderno — fiquei com a sensação, em alguns momentos, de que algumas coisas não mudaram mesmo depois de tantos anos. Um ponto que me marcou bastante foi a questão do preconceito dentro da própria raça: Dana, em algumas situações, é desprezada por seus iguais por não “agir como uma negra”. Há sim uma mensagem sobre raça e questionamentos sobre a escravidão, porém são assuntos abordados de forma sutil e natural.

A trama é repleta de desdobramentos complicados. Pelo caminho, Dana enfrenta inúmeros dilemas e percebe que as coisas não são tão simples e nem sempre as soluções mais óbvias são as melhores. O maior desafio da protagonista é Rufus, seu ancestral branco que ela precisa proteger no passado: ela tem esperança de instigar nele a igualdade entre as raças, mas sua posição social e o ambiente tornam essa tarefa muito difícil. Sendo assim, Dana e Rufus vivem uma relação complicada e perigosa, que parece sempre estar a um fio. Foi muito difícil não detestar Rufus, mas é fato que ele é um personagem complexo e tem seus motivos.

“Enquanto subia os degraus depressa e entrava na casa, pensei em Rufus e em seu pai, em Rufus se tornando seu pai. Aconteceria um dia, de pelo menos uma maneira. Um dia, a fazenda seria de Rufus. Um dia, ele seria o dono dos escravos, responsável a sua maneira maneira pelo que acontecia às pessoas que viviam naqueles casebres meio escondidos. O garoto estava mesmo crescendo enquanto eu o observava; crescendo porque eu o observava e porque ajudava a mantê-lo seguro. Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as como eternas incapazes. Eu teria que fazer tudo o que pudesse para cuidar de mim mesma. Mas o ajudaria da melhor maneira que conseguisse. E tentaria manter a amizade dele, talvez plantar algumas ideias em sua mente que ajudassem a mim e às pessoas que seriam seus escravos nos anos vindouros.” (Pág. 110-111)

A autora trabalhou bem a trama e os temas, no entanto deixou de elaborar certos pontos. A história, no geral, avança muito rápido, sem tempo para desenvolver alguns personagens. Um exemplo é Dana e seu marido Kevin: mal sabemos suas motivações e passado, e sua relação parece distante por causa de diálogos secos entre eles. Também achei nada natural como Dana e outros personagens aceitam com tanta facilidade esse fenômeno de viagem no tempo — é impressionante como a heroína se acostuma com as coisas de um dia para o outro. Esses detalhes não afetam tanto a experiência, contudo não deixo de pensar que seria um livro mais agradável se Butler tivesse dado mais atenção a esses aspectos.

No fim, Kindred: Laços de Sangue é uma ótima leitura. A autora explora temas relevantes de maneira natural e concisa, principalmente com a presença de uma narrativa que não tem medo de ser dura e chocante. É um livro imprevisível e com momentos desconcertantes que me fez refletir sobre alguns temas e me compadecer da situação de algumas pessoas — afinal a escravidão e o racismo ainda existem no mundo moderno. Além de ser uma ótima obra de ficção, é também um convite à reflexão.

“ Literalmente, eu sentia o cheiro de seu suor, ouvia cada respiração laboriosa, cada grito, cada açoite. Vi seu corpo estremecendo, convulsionando, sofrendo contra o chicote conforme os gritos continuavam. Meu estômago se revirou, e eu tive que me forçar a ficar onde estava e a me manter em silêncio. Por que eles não paravam?

— Por favô, Senhô — implorou o homem. — Pelo amor de Deus, Senhô, por favo…
Fechei os olhos e contrai os músculos contendo a ânsia de vômito.
Já tinha visto pessoas serem surradas na televisão e nos filmes. Já tinha visto sangue falso nas costas delas e ouvido gritos bem ensaiados. Mas não havia ficado perto e sentido o cheiro do suor nem ouvido as súplicas e as orações das pessoas humilhadas diante de suas famílias e de si mesmas. Eu provavelmente estava menos preparada para a realidade do que a criança que chorava não muito longe de mim. Na verdade, ela e eu estávamos reagindo de modo muito parecido.Meu rosto estava banhado em lágrimas. E minha mente ia de um pensamento a outro, tentando me desligar das chibatadas.” (Pág. 59)

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