Resenha: O elefante desaparece, de Haruki Murakami

“Quando começava a amanhecer, finalmente eu sentia uma ligeira vontade de cochilar. Mas essa sonolência estava longe de ser chamada de sono. Eu sentia nas pontas dos dedos uma vaga sensação de tocar no umbral das fronteiras do sono, mas o meu estado de vigília insistia em permanecer alerta. As poucas e breves cochiladas eram acompanhadas de uma nítida impressão de que minha consciência, sempre vigilante, observava-me atentamente do quarto ao lado, separada por uma fina parede. O meu corpo pairava relutante na penumbra, sentindo na pele sua respiração e seu olhar. Da mesma forma que o meu corpo desejava dormir, minha consciência queria igualmente me manter alerta.” (Sono)

O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos de Haruki Murakami. Pode não parecer, mas o título dá uma ideia do que esperar nas histórias: fatos estranhos capazes de afetar a realidade de maneiras curiosas. Como é de costume do autor japonês, as tramas são repletas de personagens solitários e melancólicos, com a presença pontual de surrealismo. A ambientação envolvente da maior parte das narrativas foi o detalhe que me fez gostar bastante dessa coletânea.

Haruki Murakami usa esta coletânea de contos para tomar o senso de normalidade de assalto. Um homem vê seu elefante favorito desaparecer, dois recém-casados sofrem de uma fome avassaladora que os faz roubar uma lanchonete no meio da noite, e uma jovem mulher descobre que a forma de se livrar de um pequeno monstrinho verde pode estar ligada a seus próprios pensamentos: esses são apenas alguns dos contos que integram essa seleção de dezessete histórias. Por vezes assustador, por vezes hilário, O elefante desaparece é mais uma prova da habilidade que Murakami tem de ultrapassar as fronteiras da realidade — e de voltar carregando um tesouro.

Não há exatamente um tema central nos contos de O elefante desaparece, mas são histórias tipicamente murakamianas. As tramas retratam homens com relacionamentos complicados, o dia a dia bucólico, acontecimentos bizarros capazes de alterar a realidade, obsessões inusitadas e mais. O traço mais marcante de todas as histórias é a narrativa construída por Murakami, que tem ritmo envolvente e ambientação elaborada até mesmo nos contos mais curtos e simples.

Como é de se esperar em uma coletânea, a qualidade das histórias varia muito. Mesmo assim, gostei bastante da maioria delas, principalmente aquelas com algum toque de surreal. As minhas favoritas são justamente aquelas em que o autor utiliza elementos fantásticos ou absurdos para distorcer a realidade — os acontecimentos inusitados acontecem de maneira natural, como se fossem algo comum ou corriqueiro na vida das pessoas. Este detalhe, em combinação com a narrativa e ambientação, me fez sentir envolvido com as histórias e seus personagens.

O meu conto favorito da coletânea é O segundo assalto à padaria. Nele, um casal recém casado é acometido por uma fome avassaladora, e a mulher conclui que a única maneira de resolver isso é assaltando uma padaria no meio da madrugada — ela afirma que isso é culpa de uma espécie de “maldição” do marido. É uma premissa absurda, e o andamento da história é estranho, mas sem deixar de ser natural e perfeitamente possível.

“— Faz apenas uns quinze dias que estamos morando juntos, mas sempre senti que havia algum tipo de feitiço — ela disse. Fitando meu rosto, entrelaçou os dedos das mãos sobre a mesa. — É claro que só percebi que era um feitiço depois de ouvir essa história, mas agora tenho total convicção de que você está enfeitiçado.
— Como é possível saber se uma pessoa está enfeitiçada?
— É como uma cortina que não é lavada há muitos anos, coberta de poeira.
— Isso talvez não seja feitiço, mas, quem sabe, um probleminha particular que tenho em casa — eu disse, rindo.
Ela não riu.
— Não é nada disso.
— Considerando que você tenha razão e eu esteja mesmo enfeitiçado — retomei —, o que devo fazer?
— Assaltar novamente uma padaria. E agora — decretou ela, categoricamente. — Não há outro jeito de quebrar esse feitiço.
— Agora?
— Sim. Agora. Enquanto estamos com fome. Deve realizar agora o que deixou de fazer antes.
— Mas será que existe uma padaria aberta a esta hora da madrugada?
— Vamos procurar. Tóquio é uma cidade grande e com certeza encontraremos uma que funcione de madrugada.” (O segundo assalto à padaria)

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Kirsten Dunst e Brian Geraghty em uma adaptação de “O segundo assalto à padaria”

Já em Sono, uma mulher está a muitos dias sem conseguir dormir. Mesmo assim, ela não se sente cansada, pelo contrário: sua mente ficou clara e atenta, sem um pingo de fadiga. Por causa disso, sua rotina muda e ela passa a refletir sobre sua vida e seu casamento. É uma trama que tem toques de melancolia, ao mesmo tempo em que tem aspectos surreais — supostamente a causa dela não conseguir mais dormir tem a ver com uma entidade misteriosa que mudou profundamente a alma da mulher. Eu me senti ali do lado dela e fiquei o tempo todo me perguntando o que exatamente estava acontecendo com ela.

Os homens da TV é uma história desconcertante sobre um homem que tem sua vida mudada após um grupo de pessoas estranhas terem colocado uma TV em sua casa sem sua permissão. Acontece que, aparentemente, ninguém além do protagonista consegue perceber os “homens da TV”, que passam a aparecer em locais frequentados pelo homem. E, claro, a tal TV parece ter um propósito nefasto e coisas estranhas começam a acontecer. A presença de fatos surreais é o detalhe mais legal nesse conto.

Gostei bastante também de O anão dançarino. Nele, um homem tem sua vida completamente mudada ao sonhar com um anão dançarino. O problema é que o tal anão é procurado por ter envolvimento com um antigo imperador, inimigo jurado de revolucionários que agora estão no poder. Sonho e realidade se misturam nessa história que tem como principal cenário uma “fábrica de elefantes”, onde paquidermes são artificialmente construídos.

“Um anão apareceu no meu sonho e perguntou se eu queria dançar.
Eu sabia que era um sonho. Mas, como eu estava muito cansado tanto no sonho como na realidade, recusei delicadamente o convite, dizendo “desculpe, estou tão cansado que não consigo”. Pelo que pareceu, o anão não ficou decepcionado com a minha resposta e, mesmo sozinho, começou a dançar.
Ele ajeitou a vitrola portátil no chão, posicionou o disco e dançou.” (O anão dançarino)

Além desses contos, gostei bastante também das histórias focadas em relacionamentos, na solidão e na melancolia da vida moderna, como Queimar celeiros, O último gramado do entardecer e Silêncio. Murakami explora estas questões com personagens complexos e com tramas simples, mas relatáveis. Um detalhe curioso é que Queimar celeiros foi adaptado para o cinema na forma do longa “Em chamas” (ou Burning) em uma produção sul coreana.

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Haruki Murakami

No entanto, alguns problemas me incomodaram na coletânea. O principal deles tem a ver com vícios do autor, que costuma explorar repetidamente alguns poucos temas em seus trabalhos — até mesmo alguns personagens são muito parecidos. Em alguns momentos, fiquei com a sensação é de estar lendo a mesma coisa, mas com uma abordagem levemente diferente. Também não gosto muito da natureza inconclusiva de muitas das tramas, contudo entendo que a intenção de Murakami não é exatamente explicar tudo. Mesmo assim, fica o aviso para aqueles que não gostam desse tipo de recurso.

O elefante desaparece é uma ótima maneira de conhecer o estilo de Haruki Murakami. O autor consegue montar narrativas envolventes em histórias curtas, explorando constantemente elementos surreais muito interessantes. Os personagens e ambientações são os maiores destaques dos contos, por mais que a repetição de temas deixe a leitura um pouco cansativa. O elefante desaparece ultrapassa os limites da realidade de forma verossímil e é justamente isso que a torna uma boa coletânea.

“De modo geral, todos os dias eram praticamente iguais, uma mera repetição. Eu escrevia um diário, mas se eu me esquecesse de escrevê-lo dois ou três dias já não sabia mais diferenciar um dia do outro. Se eu trocasse o ontem pelo anteontem, não faria diferença alguma. Às vezes eu pensava, que vida é essa, mas nem por isso sentia um vazio. Eu me sentia simplesmente assustada. Assustada por não conseguir discernir o ontem do anteontem. Assustada pelo fato de eu pertencer a essa vida e ter sido tragada por ela. Assustada por constatar que minhas pegadas foram levadas pelo vento sem que eu tivesse tempo de me virar e constatar a existência delas.” (Sono)

Foto do curta “O segundo assalto à padaria”: Just Jared
Foto do autor: The Telegraph

5 comentários em “Resenha: O elefante desaparece, de Haruki Murakami”

  1. Estou lendo o livro agora. Por enquanto, considero ele inconstante – contos muito bons e outros abaixo do esperado.

    Minha maior crítica aos textos é aquela que acompanha todo leitor veterano de Murakami: depois de um tempo, fica a impressão de que o autor não sai do lugar e escreve sempre a mesma coisa, tanto nos romances quanto nos contos.

    Meu preferido até agora é “Queimar celeiros”. O do assalto à padaria também vale a pena! Nem sabia que tinha um filme.

    Abraço, Farley!

    1. De fato é difícil uma coletânea acertar em todos os contos. Pra mim, um dos poucos livros que quase conseguiu essa façanha foi “História da sua vida e outros contos”, do Ted Chiang, eu gostei muitíssimo de praticamente todos.

      É verdade, concordo que os trabalhos do Murakami são bem parecidos, sempre abordando os mesmos temas e utilizando os mesmos recursos narrativos. Mas, mesmo assim, ainda gosto bastante do que o autor produz, me encanta demais essa atmosfera melancólica de suas histórias e também quando tem elementos fantásticos nas tramas.

      “Queimar celeiros” também achei ótimo, tenho muita curiosidade em assistir a adaptação cinematográfica que saiu em 2018. Curiosamente muita gente recentemente conheceu o Murakami por causa do longa, haha

      Abraço 🙂

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