Resenha: Os Braceletes da Perdição (Mistborn: Segunda Era #3), de Brandon Sanderson

“— As pessoas são como cordões, Steris — disse Wax. — Nós saímos deslizando, para um lado e para outro, sempre procurando algo novo. Faz parte da natureza humana descobrir o que está escondido. Há tanto que podemos fazer, tantos lugares aonde podemos ir. — Ele se ajeitou no assento, mudando o centro de gravidade, o que fez a esfera girar para cima. — Mas se não há limites, ficamos enrolados — disse ele. — Imagine mil desses cordões disparando pela sala. A lei está aí para nos impedir de barrar a capacidade de explorar de todos os outros. Sem lei não há liberdade. Por isso sou o que sou.
— E a caçada? — perguntou Steris, verdadeiramente curiosa. — Isso não lhe interessa?
— Claro que sim — disse Wax, sorrindo. — Isso é parte da descoberta, parte da procura. Descobrir quem fez. Descobrir os segredos, as respostas.
Havia, claro, outra parte, a parte que Miles forçara Wax a admitir. Havia certa raiva perversa dirigida aos que violavam a lei, quase uma inveja. Como essas pessoas ousavam escapar? Como ousavam ir aos lugares aonde ninguém mais podia ir?”

Eletrizante é uma palavra que eu usaria para resumir Os Braceletes da Perdição, o terceiro livro de Mistborn: Segunda Era. O autor Brandon Sanderson apostou em uma aventura repleta de ação e reviravoltas, sem deixar de desenvolver os personagens e o universo. O andamento excelente me prendeu de uma maneira impressionante, devorei rapidamente o livro — e já quero mais.

Em Os braceletes da perdição, Waxillium é recrutado para viajar ao sul para investigar a existência de metais que teriam pertencido ao Senhor Soberano, e conservariam seu poder. Mas, ele descobrirá pistas que apontam para o verdadeiro objetivo de seu tio Edwarn e da obscura organização da qual ele faz parte.

A série Mistborn: Segunda Era começou como uma mistura de Velho Oeste e fantasia, porém, aos poucos, houve uma evolução no estilo e foco. Sendo assim, Os Braceletes da Perdição é um livro bem diferente dos anteriores, tanto no ritmo quanto no ponto central da história, sem deixar de abordar a essência das características legais de Mistborn.

O terceiro livro é muito ágil e a narrativa é bem acelerada. Sanderson investiu ainda mais em cenas de ação e elas continuam incríveis, com a presença constante de tiroteios, lutas frenéticas com a ajuda de Alomancia e perseguições. O autor continua escrevendo trechos repletos de criatividade, descritos com muita clareza — ainda é muito fácil montar as cenas na mente, mesmo com um monte de elementos presentes. O andamento da trama é excelente, com doses corretas de ação, momentos mais lentos e reviravoltas. Os capítulos finais, com suas revelações e viradas, me deixaram perplexo.

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Steris e Wax

 

Os personagens é uma das minhas características favoritas da série e gostei bastante do desenvolvimento deles em Os Braceletes da Perdição. Desta vez, o núcleo de heróis aumentou ainda mais com adições curiosas.

Wax continua com forte senso de justiça, ao mesmo tempo em que ainda se recupera dos acontecimentos do episódio anterior. Gostei, especialmente, das cenas de ação estreladas por ele, pois seus poderes de Duplonato fazem muita diferença nos tiroteios e lutas. O inusitado Wayne ganhou ainda mais espaço em trechos nos quais sua personalidade maluca é explorada de maneiras criativas — me diverti bastante com suas interpretações exageradas e soluções inventivas. Marasi continua sendo uma das minhas personagens prediletas e aqui ela amadurece ainda mais: a garota demonstra coragem, força e inteligência, ela também se esforça para superar suas limitações. Me surpreendi bastante com a evolução de Steris, a noiva abastada e entediante de Wax. Aqui, ela tem participação mais significativa na trama e revela ser mais interessante e profunda do que aparentava. E, claro, há a adorável MeLaan, que faz um ótimo contraponto aos outros heróis com suas atitudes desenfreadas.

“Wayne a deixou em paz, sacando sua lata de chicletes, tamborilando nela e depois abrindo e escolhendo uma das bolas macias cobertas de açúcar para mastigar. No que lhe dizia respeito, aquela havia sido uma noite excelente. Dinamite, uma bela briga, conhaque grátis e deixar alguém morrendo de medo. Eram as coisas simples que faziam a vida valer a pena.”

Sobre a série em si, o que mais me impressionou foi a expansão do universo de Mistborn. A ciência de Scadrial avança rapidamente, resultando em novas tecnologias que deixam as coisas mais interessantes. Gostei, em especial, a relação entre a tecnologia e as “artes metálicas” Alomancia e Ferruquemia — os conceitos introduzidos me deixaram intrigados em relação ao futuro da série, pois eles abrem várias novas possibilidades. O autor também aproveita para explorar mais o mundo de uma maneira que eu nunca parei para considerar.

O legado da Primeira Era é ainda mais forte em Os Braceletes da Perdição. As aventuras de Vin e seus amigos são grande influência para os acontecimentos desse livro, o que me fez sentir um pouco nostálgico. Para mim, o mais legal é o fato de que Sanderson subverte alguns conceitos que eu acreditava já conhecer completamente, criando situações capazes de mudar profundamente a mitologia da série — não dá para discutir esses pontos sem entrar em spoilers, logo não posso falar nada. Por fim, gostei de ver mais claramente as possíveis ligações com o Cosmere, universo criado pelo autor que engloba Mistborn e outras de suas séries de fantasia, como The Stormlight Archive.

Os Braceletes da Perdição é um livro que me surpreendeu em todos os aspectos. O excelente andamento, os personagens cativantes, as reviravoltas e a expansão do universo foram motivos que me cativaram na história. Por conta disso, devorei o livro, principalmente a segunda metade. Já estou muito ansioso para a conclusão da Segunda Era com The Lost Metal (O Metal Perdido), que tem previsão de ser lançado em 2019.

“— Steris, acho que somos todos assim. Levados de um lugar ao outro pelo dever, ou pela sociedade, ou pelo próprio Deus. Parece que estamos apenas seguindo em frente, mesmo em nossas próprias vidas, mas de vez em quando nós realmente enfrentamos uma escolha. Uma escolha de verdade. Podemos não ser capazes de escolher o que nos acontece, ou onde iremos parar, mas escolhemos ir numa direção — disse, apertando a mão dela. — Você escolheu ir na minha direção.
— Bem, o lugar mais seguro geralmente é perto de você… — disse ela, sorrindo.
Ele embalou o rosto dela com a mão áspera e calosa. Outra aventura.”

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