Resenha: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

“Clara passou a infância e entrou na juventude dentro das paredes de sua casa, num mundo de histórias assombrosas, de silêncios tranquilos, onde o tempo não se marcava com relógios nem com calendários e onde os objetos tinham vida própria, as aparições se sentavam à mesa e falavam com os humanos, o passado e o futuro faziam parte da mesma coisa e a realidade do presente era um caleidoscópio de espelhos desordenados onde tudo podia acontecer.”

Vez ou outra, aparece uma história com uma experiência arrebatadora e que me faz ler por horas sem nem notar a passagem do tempo. A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um desses livros. A obra da autora chilena ficou na minha cabeça por semanas por causa de seus ótimos personagens, trama diversa e interessante, e a escrita bem construída.

A Casa dos Espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido. Isabel Allende constrói um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza.

As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.

Allende construiu, aqui, uma grande história familiar com alguns elementos fantásticos. A narrativa aborda três gerações da família Trueba, focada principalmente em suas mulheres, e aborda inúmeros temas por meio de vários focos narrativos distintos. Pode parecer cansativo acompanhar o desenrolar de tantas vidas com o passar dos anos, porém a autora encontrou uma ótima maneira de fazer isso. Além da escrita ágil e fluida, em muitos momentos, o livro conta com pequenos núcleos de história fechados, quase como que pequenos contos, sem nunca deixar de referenciar à linha principal da trama (ou seja, a família Trueba).

O que mais gostei na obra foram seus personagens. Allende construiu inúmeras pessoas, cada qual com personalidade marcante e única. A minha favorita é Clara, a garota com poderes de clarividência e telecinesia: ela é imprevisível, exótica e divertida de maneira sutil. Com o passar dos anos, ela amadurece, sem perder suas características marcantes, e conseguimos sentir facilmente essa mudança, tornando-a ainda mais interessante. Já Esteban Trueba, o narrador de boa parte do livro, é desagradável e odioso, nunca imaginei que ia detestar tanto um personagem como ele. Mesmo assim, contudo, é um personagem que me intrigou com sua complexidade: aos poucos eu entendi o motivo de suas atitudes, e percebi que ele foi um pouco vítima das circunstâncias — isso o deixou ainda mais humano. Alba, a neta de Clara, me conquistou com sua personalidade tempestuosa e suas ações inesperadas, principalmente os conflitos velados com seu avô Esteban Trueba. Estes são só alguns dos vários personagens incríveis do livro e gostei de boa parte deles a ponto de conseguir passar o dia inteiro falando sobre todos eles. Me envolvi tanto com essas pessoas que tomei para mim suas dores e problemas, chegando até sofrer com a morte de muitas delas.

“- Em quase todas as famílias há um tonto ou um louco, filhinha – assegurou Clara enquanto trabalhava no seu tear, porque em todos esses anos não tinha aprendido a tecer sem olhar. – Por vezes não se vêem, porque os escondem como se fosse uma vergonha. Fecham-nos nos quartos mais isolados, para que as visitas os não vejam! Mas na realidade não há de que ter vergonha, eles também são obra de Deus.
– Mas na nossa família não há nenhum, avó – replicou Alba.
– Não. Aqui a loucura distribuiu-se por todos e não sobrou nada para termos o nosso louco varrido.”

Apreciei bastante a relação familiar dos Trueba. Com personalidades tão fortes e conflitantes, era de se esperar que a vida dessas pessoas fosse repleta de hostilidade. Em muitos momentos, é quase uma novela por causa da presença de brigas, desentendimentos, amores escondidos e reconciliações repentinas — talvez a semelhança com a vida real foi o principal motivo de eu apreciar tanto essas interações. Além disso, há um viés levemente cômico pelo fato das excentricidades dos membros da família (sempre há um pouquinho de loucura nas relações familiares, não é mesmo?), resultando em situações absurdas e divertidas.

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Capa de uma edição americana com linda arte do casal Leo e Diane Dillon

A diversidade de assuntos abordados em A Casa dos Espíritos me fascinou. Durante a história, Allende fala sobre a ganância, sobre o ódio, explora a ternura, amores exprimidos com ações nada amorosas, relações inusitadas e também da situação política do Chile. Alguns temas são bem complexos e me fizeram refletir bastante a condição humana e a instituição familiar. A inserção de elementos fantásticos é tão natural que só muito depois eu percebi que eles vão muito além da habilidade de Clara de conversar com espíritos por causa da presença de todo tipo de coisa insólita: um exótico cachorro tão imenso que lembra um potro, garotas com cabelos naturalmente verdes, sessões de estudos ocultos, irmãs com habilidades sobrenaturais, múmias latino-americanas e muito mais. A abordagem sutil desses assuntos me trouxe a sensação de que tudo aquilo era possível de acontecer na vida real.

As duas primeiras partes da obra exploram principalmente a vida de Clara e seus filhos, especialmente a jovem Blanca. Já a terceira tem um foco completamente diferente: a situação política do país e a ditadura militar. A narrativa fica mais tensa, com praticamente erradicação dos aspectos fantásticos e familiares, resultando em algo que parece um novo livro. Confesso que em um primeiro momento não gostei tanto (a parte familiar da trama me arrebatou), porém, aos poucos, me vi preso nessa nova narrativa: os relatos são brutais, com cenas de tensão palpável em face dos conflitos políticos entre a esquerda e a direita. Eventualmente a ditadura militar aparece e fiquei angustiado em como isso afetou a família Trueba, principalmente Alba. No fim das contas, acabei achando ótima essa parte tão diferente da obra, principalmente a conclusão. O mais curioso é que Isabel Allende usou experiências próprias como inspiração para esse trecho, pois ela vivenciou a ditadura militar em seu país.

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Isabel Allende

A Casa dos Espíritos me conquistou com tantas qualidades. Me importei verdadeiramente com os membros da família Trueba e fiquei intrigado com os variados assuntos abordados. Além de uma ótima história familiar, o livro conta também com uma narrativa tensa em meio a um conflito político. Este é mais um daqueles livros que conquistam e oferecem uma experiência imersiva, já é um dos meus favoritos de todos os tempos.

“As relações do senador Trueba com o resto da sua família não fizeram mais que piorar com o tempo. Uma vez por semana, aos sábados, reuniam-se para jantar à volta da grande mesa de carvalho que tinha estado sempre na família e que antes pertencera aos del Valle (…). Sentavam Alba entre a sua mãe e a sua avó, com um almofadão na cadeira para que o nariz chegasse à altura do prato. A menina observava os adultos com fascínio, a avó radiante, com os dentes postos para a ocasião, dirigindo mensagens cruzadas ao marido através dos filhos ou dos criados, Jaime fazendo alarde de má educação, arrotando depois de cada prato e escarafunchando os dentes com o dedo mínimo para chatear o pai, Nicolau com os olhos semicerrados mastigando cinquenta vezes cada bocado e Blanca falando de qualquer coisa para criar a ficção de um jantar normal. Trueba mantinha-se relativamente silencioso até que o mau carácter o atraiçoava e começava a discutir com o filho Jaime por causa dos pobres, dos votos, dos socialistas e dos princípios, ou a insultar Nicolau pelas iniciativas de se elevar em balão e praticar acupuntura com Alba, ou castigar Blanca com as suas réplicas brutais, a sua indiferença e as suas advertências inúteis de que tinha arruinado a sua vida e não herdaria dele nem um peso. A única a que não fazia frente era Clara, mas com ela quase não falava. Certas ocasiões Alba surpreendia os olhos do avô presos em Clara, ele ficava a olhar para ela pondo-se branco e doce até parecer um ancião desconhecido. Mas isso não ocorria com frequência, o normal era que os esposos se ignorassem. Algumas vezes o senador Trueba perdia o controlo e gritava tanto que se punha vermelho e tinham de atirar-lhe um jarro de água fria à cara, para que a cólera lhe passasse e recuperasse o ritmo da respiração.”

Textura da imagem de capa: Kerstin Frank
Foto da autora: Dinheiro Vivo

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2 comentários em “Resenha: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende”

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