Resenha: A Floresta Sombria, de Cixin Liu

“— Você acredita mesmo que os trissolarianos vão preservar a herança cultural da humanidade? Eles não têm a menor consideração por nós.
— Acha isso porque eles disseram que nós somos insetos? Mas não é esse o significado. Yan Yan, sabe qual é o maior gesto de consideração que uma raça ou civilização pode receber?
— Não, qual?
— Aniquilação. Esse é o maior sinal de respeito possível para uma civilização. Eles só se sentiriam ameaçados por uma civilização que realmente respeitam.”

Lembro-me perfeitamente bem de ter ficado intrigado com O Problema dos Três Corpos, mesmo com o incômodo dos vários problemas do livro. De qualquer maneira, foi uma história que ficou na minha cabeça por meses. Já a continuação, A Floresta Sombria, me prendeu desde sua premissa, o que me fez ler freneticamente o volume. O segundo livro da trilogia me surpreendeu bastante em quase todos os aspectos.

Depois de “O problema dos três corpos”, a humanidade se prepara para a iminente invasão alienígena. A Organização Terra-Trissolaris — formada por habitantes da Terra que traíram seus iguais para se associar aos alienígenas — pode ter sido derrotada, mas a presença de partículas subatômicas, os sófons, revela todo o conhecimento da humanidade para os invasores, e as defesas terráqueas são um livro aberto para os trissolarianos. Nesse contexto, em que só a mente humana é segura, é montado o Projeto Barreiras: quatro pessoas serão encarregadas de pensar em uma estratégia para a salvação do mundo. A Barreira está completamente isolada, protegendo seus pensamentos do restante da humanidade, mas até que ponto é possível guardar um segredo?

Em O Problema dos Três Corpos, o foco era a descoberta de uma invasão alienígena, já A Floresta Sombria aborda o impacto deste fato na sociedade. Como os seres do planeta Trissolaris conseguem espionar a humanidade e impedir o desenvolvimento tecnológico por meio dos sófons, é de se esperar que as pessoas se desesperem e percam as esperanças. Sendo assim, as autoridades criam um plano capaz de criar uma estratégia por meio da mente humana, afinal as tais partículas não conseguem ler pensamentos.

A trama tem vários focos, mas se concentra mais nas Barreiras, pessoas responsáveis por criar em sua mente um plano para resolver a crise, especificamente em um professor chinês chamado Luo Ji. Acompanhamos as ações (e as consequências na sociedade) desses indivíduos para impedir a invasão de Trissolaris. O autor também aproveita para mostrar como as pessoas estão lidando com o fato de que alienígenas chegarão à Terra. O resultado é uma narrativa tensa e interessante.

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Cixin Liu

Esse livro é uma continuação, porém fiquei com a sensação de que é quase um volume independente, afinal poucos personagens retornam de O Problema dos Três Corpos e o tom da narrativa é bem diferente. E falando em personagens, boa parte deles são bem simples e subdesenvolvidos — particularmente, não achei isso um problema, fiquei com a sensação de que o autor queria abordar justamente a humanidade como um todo e não somente histórias individuais. Há algumas pessoas com maior desenvolvimento, mas sempre com o objetivo de retratar alguma faceta da sociedade.

O que mais me motivou na leitura foi a curiosidade: a humanidade vai conseguir vencer um inimigo tão poderoso, mesmo tendo tecnologia inferior? Se sim, como isso vai ser feito? Liu explora as possibilidades com cuidado e a todo momento minha idéia de possível conclusão mudou — há várias viradas e surpresas, e o autor soube brincar com as expectativas. Diante um futuro sombrio, várias correntes diferentes surgem na sociedade, com alguns achando que a melhor solução é escapar, já outros sugerem a coexistência das duas raças no mesmo planeta, outros apoiam Trissolaris e preferem que a humanidade desapareça completamente. Sendo assim, Liu aborda vários aspectos da mente humana, como desespero, desilusão e orgulho, gostei bastante de como ele fez isso na trama.

“Ninguém aqui nesta sala irá ao espaço, nem sequer terá a oportunidade de ver nossa frota espacial. Aliás, talvez nem cheguemos a ver um modelo aproximado de nave de guerra espacial. A primeira geração de oficiais e praças só vai nascer daqui a dois séculos, e dois séculos e meio depois dessa primeira geração a frota terrestre encontrará os invasores alienígenas. Essas naves serão tripuladas pela décima quinta geração de nossos netos. Um longo silêncio reinou na sala. Todos se viam diante da pesada estrada do tempo, que levava a algum lugar em meio às brumas do futuro, de onde só se enxergavam vislumbres de fogo e sangue. A brevidade da vida humana atormentou os presentes com uma força inigualável, e o espírito de cada um alçou voo acima do abismo do tempo para se unir aos seus descendentes e mergulhar no sangue e no fogo do glacial frio do espaço, o lugar onde as almas de todos os soldados sempre se encontravam.”

Um problema do livro anterior era o exagero de explicações minuciosas sobre física e outros aspectos científicos, felizmente isso praticamente não acontece em A Floresta Sombria: ainda existem esses trechos de hard sci-fi, porém a quantidade é bem reduzida. Em contrapartida, há outros problemas. O que mais me incomodou foi o fluxo narrativa confuso, que pula de um núcleo para outro de maneira abrupta, trazendo um ritmo inconstante, às vezes. Há, também, vários trechos irrelevantes para a trama no geral — essas partes me soaram como enrolação. O ritmo sofre um pouco, principalmente na segunda parte, porém o andamento fica bem frenético e intenso a partir da terceira parte.

A Floresta Sombria me conquistou com sua ficção científica focada principalmente em como a humanidade reagiria a uma invasão de uma espécie tecnologicamente superior. É uma obra que explora várias questões da mente humana, principalmente quando há a possibilidade de aniquilação. Tem alguns problemas de ritmo, porém isso não atrapalhou minha experiência. Para mim, o mais impressionante no livro foi a abordagem diferenciada da ficção científica. Sim, há tecnologia, alienígenas e cenas de ação no espaço na trama, porém o mais impactante é a reflexão geral sobre tudo isso no contexto do universo e da humanidade. Fiquei extremamente perplexo em vários momentos, principalmente com a explicação do termo “floresta sombria” — é algo lógico, perturbador e muito bem pensado. Já estou muito ansioso para saber como a trilogia termina, afinal a conclusão desse livro praticamente não deixa pontas soltas.

“Zhang Beihai se virou para Wu Yue.
— Você está deprimido diante da ideia de entrar em uma guerra cuja derrota é inevitável. Tem inveja daquela derradeira geração que vai ser jovem o bastante para combater na força espacial e ser sepultada no espaço, junto com a frota. Você tem dificuldade em aceitar que vai dedicar uma vida inteira para uma iniciativa inútil.
— Tem algum conselho?
— Não. O fetichismo e o triunfalismo tecnológicos estão profundamente arraigados na sua mente, e descobri há muito tempo que não posso mudar você. Só posso tentar minimizar o dano que essa mentalidade causa. Além do mais, não acho que seja impossível que a humanidade ganhe essa guerra.”

Foto do autor: Wired

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