Resenha: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North

“— Dizem… — respondeu ele, bufando com a resignação típica de quem está cansado de contar histórias. — Dizem que há certas pessoas vivendo entre nós que não morrem. Dizem que elas nascem, vivem, morrem e voltam a viver a mesma vida, mil vezes. E, sendo infinitamente velhas e sábias, elas se reúnem às vezes, ninguém sabe onde, e fazem… Bem, o que eles fazem varia de acordo com o texto.”

Esbarrei com As Primeiras Quinze Vidas de Harry August por acaso e fiquei intrigado com a premissa. O protagonista é um homem que vive novamente a mesma vida após morrer, em uma espécie de loop infinito. E, para piorar, uma mensagem do futuro diz que o mundo está acabando. O tom parece ser apocalíptico, mas na verdade esse livro aborda vários assuntos distintos em uma narrativa ágil.

Certas histórias não podem ser contadas em uma única vida. Harry está no leito de morte. Outra vez. Não importa o que faça ou que decisões tome: toda vez que ele morre, volta para onde começou; uma criança com a memória de todo o conhecimento de uma vida vivida diversas vezes. Nada nunca muda… até agora.

Ele está perto da décima primeira morte quando uma garotinha de 7 anos se aproxima da cama: “Quase perdi você, doutor August. Eu preciso enviar uma mensagem de volta no tempo. O mundo está acabando, como sempre. Mas o fim está chegando cada vez mais rápido. Então, agora é com você.”

Este livro conta a história do que Harry faz em seguida, do que fez antes, e do que faz para tentar salvar um passado inalterável e mudar um futuro inaceitável.

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August tem vários focos, mesmo se concentrando em Harry August. O protagonista tenta se encontrar, tenta entender qual é o seu papel na história do mundo e também tenta descobrir por qual motivo ele sempre vive de novo a mesma vida. É uma trama de viagem no tempo não convencional.

A premissa é bem interessante: nesse mundo, ao morrer, algumas pessoas voltam para o início de sua vida, sem esquecer o que vivenciaram no ciclo anterior. Não é bem reencarnação, mas sim uma espécie de repetição perpétua, pois os fatos entre as vidas são mais ou menos os mesmos, com pequenas variações. Essas pessoas se autodenominam kalachakras (que vem do termo sânscrito usado no budismo que significa algo como “roda do tempo”) ou ouroboreanos (baseado em “ouroboros”, a serpente que morde a própria cauda, um dos símbolos da eternidade). Alguns simplesmente aproveitam essa “benção” para ganhar muito dinheiro facilmente e viver uma vida de luxo, já outros preferem acumular conhecimento e conhecer o mundo.

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Harry August é um desses indivíduos e ele nasce em 1919, vive uma vida plena e morre no fim do século 20, para imediatamente nascer novamente em 1919, ganhando consciência de suas vidas passadas logo depois da primeira infância. Para mim, Harry é a melhor característica do livro, principalmente devido a sua condição de kalachakra. Ele aprende a lidar aos poucos com essa situação: em uma de suas primeiras vidas, por exemplo, ele pensa que ficou louco ao lembrar as memórias do ciclo anterior aos quatro anos. Já em outra, situações e pessoas se confundem em um mar de reminiscências.

“— Meu nome é Harry August — disse eu. — Meu pai se chama Rory Edmond Hulne, minha mãe morreu no parto. Esta é a minha quarta vida. Eu vivi e morri muitas vezes até agora, mas minha vida é sempre a mesma.”

Ele parece ser um homem ordinário, mas na verdade carrega o conhecimento de inúmeras vidas dentro de si, principalmente pelo fato de ser um dos poucos indivíduos kalachakra com memória perfeita, o que resulta em um personagem complexo e às vezes contraditório. Sendo assim, o livro explora conceitos como o peso da morte, as possibilidades de viver novamente a mesma vida e as consequências dos atos. O curioso é que Harry se incomoda com a repetição, principalmente nos eventos nos quais ele não consegue alterar significativamente, como o tédio da infância e a guerra — viver inúmeras vezes esses fatos, sem poder interferir muito, deve realmente ser desgastante.

Dentro desse contexto, há um grupo de ouroboreanos chamado Clube Chronos. O objetivo da organização (de nome ruim, na minha opinião) é manter o equilíbrio do curso da história e dar suporte aos kalachakras espalhados pelo mundo. Eles utilizam os conhecimentos de várias eras para conseguir fundos e observar de longe, interferindo quando necessário. Também é por meio dessa comunidade que mensagens e informações são passadas entre as gerações. Gostei da maneira que esse grupo foi organizado: é tudo bem inteligente e faz sentido dentro do mundo e da história.

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A trama é dividida em dois principais momentos. Na primeira parte, acompanhamos o amadurecimento de Harry e como ele lida com o fato de viver repetidamente a mesma vida. Já na segunda metade da história, o foco é a suposta aproximação constante de uma catástrofe capaz de acabar com o mundo e qual é o papel de Harry nisso. A narrativa é ágil e a história tem várias viradas boas e imprevisíveis. O suposto vilão e seu envolvimento com o fim do planeta é bem pensado, não é uma situação de puro “bem contra o mal” e conta com várias nuances. A experiência é complementada com ótimos e complexos personagens — o meu preferido é um rapaz chamado Vincent por conta de sua personalidade intricada e de sua estranha relação com o protagonista. O curioso é que é uma trama sobre viagem no tempo, mas a natureza cíclica dos kalachakras faz com que a narrativa em si pareça, inicialmente, várias mini-histórias relacionadas, sendo que somente na segunda metade da trama as ligações ficam mais fortes.

Além de ser um ótimo romance, As Primeiras Quinze Vidas de Harry August explora bem essa mitologia de humanos presos em um ciclo de tempo. A autora Claire North criou um mundo crível e lógico, com espaço para várias interpretações. Um exemplo são os próprios kalachakras: eles parecem ser imortais, porém é perfeitamente possível matar definitivamente um deles (achei bem interessante o processo). Os próprios personagens questionam o tempo todo sua condição — será que eles saltam de um universo para outro dentro de um grande multiverso? Ou trata-se de viagem no tempo? Um evento de fato influencia o outro? Sendo assim, qual é o sentido de não interferir na história humana natural? Também tentei montar minhas teorias sobre tudo isso, porém a autora deixou isso bem em aberto.

“Então olho para tudo o que fiz e, talvez mais importante considerando minha condição, para o que não fiz, e pensar nisso me deprime, então rechaço a hipótese por não soar plausível. Para que eu sirvo? Ou para mudar o mundo — muitos, muitos mundos, cada um deles alterado pelas escolhas que faço ao longo da vida, pois ações geram consequências, e em cada amor e cada tristeza há um resquício de verdade —, ou para não fazer nada.”

As pontas soltas foi um dos problemas que me incomodou. A história termina e muitas questões importantes não ficam completamente esclarecidas, principalmente as possíveis origens dos kalachakras. Eu entendo que o foco é Harry e como ele lida com sua situação, mas acredito que um pouco mais de clareza deixaria a narrativa ainda melhor. Também não gostei de alguns flashbacks: eles acontecem em momentos inoportunos e quebram o ritmo da narrativa desnecessariamente.

Gostei muito de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August por abordar tão bem um assunto curioso como uma suposta imortalidade. É ótimo acompanhar Harry enquanto ele amadurece e se envolve em questões importantes para si e para o mundo. Além disso, a narrativa é ágil, os personagens são intricados e o universo é bem construído. Explorar situações inusitadas parece ser algo constante nas obras de Claire North, já tenho interesse em conferir outros trabalhos dela. A combinação de todos esses fatores faz com que As Primeiras Quinze Vidas de Harry August seja um ótimo livro.

“Se considerarmos a ignorância uma forma de inocência e a solidão uma forma de se distanciar das preocupações, minha primeira vida teve um tipo de felicidade, por mais que não tivesse um objetivo concreto. Mas, já sabendo de tudo o que havia vivido antes, eu não poderia viver aquela nova vida da mesma forma. Não só por já saber os eventos que estavam por vir, mas principalmente por causa da nova forma de perceber a realidade ao meu redor, e, tendo sido exposto a essa realidade na minha primeira vida, nunca cheguei a pensar na possibilidade de que fosse uma mentira.”

Arte: Deathless

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