Resenha: O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu

Wang tirou o traje v. Depois de se acalmar um pouco, pensou mais uma vez que Três Corpos era uma tentativa deliberada de fingir ser apenas uma ilusão, embora na verdade possuísse alguma realidade subjacente. Em contrapartida, o mundo real diante de Wang havia começado a parecer complexo na superfície, mas na verdade muito simples, Qingming Shanghe Tu. (Pág. 124)

O Problema dos Três Corpos me deixou intrigado por conta de sua sinopse e até mesmo título. Sempre gostei de ficção científica, mas nunca tinha lido nada cujo o foco central fosse extraterrestres — decidi mudar isso lendo esse livro. A obra do chinês Cixin Liu é bem diferente do que eu imaginava, sem deixar de ser bem interessante e envolvente. Vencedora de prêmios como o Hugo, a obra foi um sucesso e será adaptada para o cinema em breve.

China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena a beira do colapso planeja uma invasão. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

O livro tem dois principais focos. O primeiro deles é Ye Wenjie, uma astrofísica que acabou se envolvendo em um projeto secreto depois que seu pai foi assassinado durante a Revolução Cultural chinesa. O outro foco é em Wang Miao, um expert em nanomateriais que é convocado por uma força-tarefa para investigar problemas envolvendo cientistas. Durante sua busca por informações, Wang descobre um jogo de realidade virtual chamado Três Corpos e durante as partidas ele percebe que há muito mais que uma simples história dentro desse jogo.

“Intrigante” é a palavra que eu usaria para descrever O Problema dos Três Corpos. O prólogo pode parecer comum, mas quando a narrativa passa a focar em Wang Miao aparecem uma série de acontecimentos estranhos e fiquei o tempo todo me perguntando qual era a lógica por trás deles. A escrita de Liu é ágil, o que me fez querer sempre continuar lendo e tentando descobrir a explicação para os mistérios expostos. Gostei especialmente das partes que se passam dentro do jogo Três Corpos: elas funcionam como uma espécie de segunda trama, que depois se revela ter forte ligação com a narrativa principal.

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O surreal mundo do jogo Três Corpos

Me surpreendi com os vários assuntos discutidos e com a maneira em que o autor aborda tudo isso. Sim, na essência ainda é ficção científica, mas há várias outras coisas que são discutidas na trama. A principal delas é a Revolução Cultural Proletária, um período muito importante na história da China. Durante essa campanha, as pessoas contrárias ao regime de Mao Tsé-Tung eram perseguidas e até mesmo mortas. Foi um período protecionista que condenava as características da cultura ocidental e é um dos pontos que motiva boa parte dos acontecimentos. Há também questionamentos sobre a raça humana em si: vale a pena acreditar que ela ainda tem potencial para o bem ou todos os humanos estão corrompidos e precisam ser erradicados?

À medida que avançava em suas reflexões, uma dedução lhe deu calafrios. É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície? Tanto o oceano quanto o iceberg são feitos do mesmo material. O iceberg só parece diferente porque tem outra forma. Na realidade, é apenas uma parte do vasto oceano…
Era impossível esperar um despertar moral da humanidade assim como era impossível esperar que os humanos movessem a Terra com seus próprios cabelos. O despertar moral exigia uma força externa à raça humana.
Esse pensamento determinou o rumo da vida de Ye. (Pág. 24)

A trama construída por Liu tem vários núcleos e todos eles funcionam muito bem. O autor conseguiu encaixar vários períodos diferentes em uma única história de maneira concisa e bem pensada, com boa parte dos mistérios sendo resolvidos no momento certo. Gostei especialmente da cultura alienígena criada pelo autor: ela é interessante e muito bem pensada, sem nenhum dos vários clichês que vemos por aí, também sendo ótima a maneira em que ela é revelada durante a história. O curioso é que a personagem mais bem construída é Ye Wenjie, que teoricamente nem é a protagonista. A astrofísica tem personalidade complexa e repleta de nuances interessantes, sendo que suas atitudes sempre levantam dilemas. Já Wang Miao é praticamente uma ferramenta do autor para mover a trama e lá pra metade da história já não me importava muito com ele — não que isso seja um grande problema.

O Problema dos Três Corpos é classificado como Hard Science Fiction, um tipo de ficção científica que tem grande embasamento na ciência, com abundância de termos técnicos e explicações. É uma abordagem bem interessante, pois mesmo os acontecimentos mais fantásticos e absurdos têm uma explicação científica lógica, o que me deu a sensação de que tudo aquilo poderia ser real. Porém, o autor abusa disso, o que resulta em longos trechos de explicações e especulações científicas confusos e cansativos. Há vários momentos em que Liu usa várias páginas para detalhar algum fenômeno importante da trama, só que na maioria das vezes eu achei cansativo e desnecessário, coisas que poderiam ser resolvidas com poucas linhas. Essas explicações extensas cansam muito, principalmente por conta de sua complexidade, e no fim não adicionam muito à experiência geral.

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Ye Wenjie no laboratório de contato extraterrestre

No fim das contas, achei O Problema dos Três Corpos uma boa leitura, mas nada excepcional. Liu Cixin criou um universo intrigante e com uma ótima trama, sendo o maior destaque a cultura alienígena. Meu principal problema com o livro é com o grande foco em explicações científicas, entendo que faz parte da proposta e do gênero, mas acredito que a leitura seria mais agradável se isso tivesse sendo reduzido. Esse é só o primeiro livro de uma trilogia que quero muito conferir toda — o final desse primeiro volume me deixou muito surpreso e intrigado, quero muito ver como o autor vai continuar a história.

— A busca por inteligência extraterrestre é uma disciplina única. Exerce uma influência profunda na forma como o pesquisador encara a vida. — Ye falava com um tom de voz didático, como se estivesse contando histórias para uma criança. — Na calada da noite, dava para ouvir no meu headphone o ruído sem vida do universo. O ruído era fraco, mas constante, mais eterno que as estrelas. Às vezes, eu achava que parecia o som dos intermináveis ventos de inverno da cordilheira Grande Khingan. Eu sentia muito frio nessas horas, e a solidão era indescritível. (Pág. 145)

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