Resenha: O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin

—Quando você era garoto, pensava que os magos pudessem fazer qualquer coisa. Eu também já achei isso. Todos nós já pensamos isso. E a verdade é que, à medida que o verdadeiro poder de um homem cresce e seu conhecimento se amplia, o caminho que ele pode seguir fica cada vez mais estreito, até ele finalmente nada escolher, mas ter de fazer tão somente o que deve fazer. (Pág. 73-74)

Minha curiosidade por O Feiticeiro de Terramar surgiu por conta dele ser considerado um dos clássicos da fantasia e influência para muitas outras obras. Publicado pela primeira vez em 1968, o livro de Ursula K. Le Guin tem como foco a jornada de um mago por um mundo repleto de ilhas.

Há quem diga que o feiticeiro mais poderoso de todos os tempos é um homem chamado Gavião. Este livro narra as aventuras de Ged, o menino que um dia se tornará essa lenda. Ainda pequeno, o pastor órfão de mãe descobriu seus poderes e foi para uma escola de magos. Porém, deslumbrado com tudo o que a magia podia lhe proporcionar, Ged foi logo dominado pelo orgulho e a impaciência e, sem querer, libertou um grande mal, um monstro assustador que o levou a uma cruzada mortal pelos mares solitários.

Depois da leitura, fiquei com sentimentos conflitantes sobre O Feiticeiro de Terramar.

A premissa da trama é a tradicional jornada do herói: acompanhamos o jovem Ged desde garoto até o momento em que ele se torna um poderoso mago, com direito a um mal libertado por conta de sua imprudência. Em um primeiro momento, eu não gostei muito do rapaz, principalmente por ele ser orgulhoso, apático e irritante — ou seja, nada carismático. Contudo, as situações o forçam a mudar e a amadurecer, foi a partir desse ponto que passei a me importar com ele (mas não muito). Uma característica que gostei muito em Ged é que ele é bem humano e falho: ele se sente melancólico e responsável pelo mal que libertou, sempre tentando corrigir esse problema. É um herói que comete muitos erros, mesmo sendo bem consciente de seu próprio poder, e sempre tenta aprender algo com eles — isso é algo que aprecio.

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A história aborda não só a jornada do herói, mas também outros temas como amadurecimento, aceitação das próprias limitações e medos, e o uso consciente do poder. Esses assuntos são trabalhados de maneira sutil, funcionando muito bem no contexto todo da trama, que tem um tom levemente melancólico. Algo digno de nota é o fato de que Ged e todos os outros personagens importantes são morenos ou negros, em uma quebra de paradigma dos grandes épicos de fantasia. Na prática não faz muita diferença no contexto da história, mas não deixa de ser ousado, ainda mais se levar em conta a época da primeira publicação do livro.

O sistema de magia de Terramar é intrigante e é um dos meus aspectos favoritos do livro. Le Guin criou regras simples e claras, baseadas principalmente no balanceamento de poderes e no conhecimento de “nomes verdadeiros” das coisas. Um simples feitiço de chuva, por exemplo, pode fazer com que uma outra região do mundo passe por uma seca severa. Já transformar-se em animais é algo a ser feito com cuidado, pois há o perigo de a parte animal dominar a consciência humana do mago. Sendo assim, é importante ter responsabilidade ao usar a magia, tudo baseado nas consequências das ações — isso afeta Ged profundamente durante toda a trama.

— Isto é uma rocha, tolk na língua verdadeira — falou ele, erguendo olhar doce para Ged. — Um pedaço da pedra da qual a ilha de Roke é feita, um pedacinho da terra seca na qual vivem os homens. É ela mesma. Parte do mundo. (…) Para transformar esta pedra em joia, você precisa mudar seu verdadeiro nome. E fazer isso, meu filho, é mudar um fragmento minúsculo do mundo, mundo. Dá para fazer. Dá, sim. (…) Mas não deve transformar um seixo ou um grão de areia, nada, até saber o bem e o mal que resultar desse gesto. O mundo mantém seu balanço, seu equilíbrio. O poder de transformação e de invocação de um feiticeiro pode abalar se equilíbrio. E perigoso, esse poder. Nocivo em grande parte. E deve vir acompanhado do conhecimento e servir à necessidade. Acender uma vela é lançar uma sombra… (Pág. 48-49)

A construção do mundo de Terramar é bem curiosa, pois a autora nunca descreve com detalhes os locais. Vamos conhecendo um pouco da cultura das ilhas ao acompanhar Ged em sua jornada, sendo que ele próprio também aprende isso pouco a pouco. É uma abordagem interessante e parece que estamos também desbravando o local, porém me trouxe uma sensação desconexa: só entendi parte do funcionamento do mundo, pois há muitas lacunas. A impressão que dá é que Le Guin assume que o leitor já está familiarizado com o mundo, mas o resultado deixa a desejar. Fora a ilha de Roke, faltam também locais memoráveis no universo do livro: Ged visita um monte de ilhotas e vilas sem muito significado.

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A ambientação e temática de O Feiticeiro de Terramar são ótimos, porém a narrativa foi um grande problema para mim. O livro tem pouco menos de 200 páginas, mas a sensação é que é bem mais que isso, pois a trama se arrasta com trechos chatos e enfadonhos. Há vários momentos sem acontecer nada e muitos outros mal resolvidos ou mal narrados. Também tem o fato de que o único personagem bem desenvolvido é Ged (que não é lá muito carismático), os outros são todos simples e unidimensionais. A combinação desses fatores tornou a leitura cansativa para mim, mesmo tendo vários momentos ótimos durante a aventura.

O Feiticeiro de Terramar é, de fato, um clássico da fantasia. Vários conceitos dessa obra, como o sistema de magia e a formação acadêmica dos magos, apareceram em outros livros do gênero que foram publicados bem depois. É uma história com ótima ambientação e que explora temas interessantes. Infelizmente a narrativa é arrastada e inconstante, o que pode deixar tudo um pouco cansativo. No fim das contas, gostei de O Feiticeiro de Terramar, mesmo não sendo muito memorável — tenho interesse em conferir os outros livros da série para poder ver como a autora expandiu o universo.

—Tampouco eu sei. Aquilo não tem nome. Você nasceu com grande poder,mas o usou de maneira errada, para lançar um feitiço sobre o qual não tinha controle, sem saber como afetaria o equilíbrio de luz e trevas, vida e morte, bem e mal. E você foi movido a isso por vaidade e ódio. É de admirar que o resultado fosse a ruína? Você invocou um espírito dos mortos, mas com ele veio um dos poderes da nãovida. Sem ser chamado, veio de um local onde não há nomes. Maligno, quer realizar o mal através de você. O poder que usou para chamá-lo lhe dá você: estão conectados. É a sombra de sua arrogância, a sombra de sua ignorância, a sombra que você lançou. (Pág. 69)

Arte: tsomer

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