Resenha: Ouça a canção do vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami

Infelizmente, só descobri muito depois que isso era uma armadilha. Tracei uma linha no centro de uma folha de caderno e escrevi no lado esquerdo tudo o que havia ganhado e no direito, o que havia perdido. No fim das contas, eu havia perdido tanto — coisas que eu havia abandonado, sacrificado, traído — que não tive espaço suficiente para terminar a lista.
Há um fosso profundo entre as coisas das quais gostaríamos de ter consciência e aquilo de que realmente temos. Nem a régua mais comprida conseguiria medir a profundidade desse fosso. O que eu posso registrar aqui é apenas uma lista. Não é um romance, nem literatura, muito menos arte. (Pág. 24)

Reagi com surpresa ao descobrir o lançamento de Ouça a Canção do Vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami. Sou fã do autor e lembro muito bem que em algum momento ele afirmou que não gostaria que essas duas novelas fossem relançadas por considerá-las sem polimento. Contudo, uma edição muito bonita e algumas opiniões favoráveis me fizeram conferir o livro.

Em 1978, um jovem Haruki Murakami se instala na mesa da cozinha para começar a escrever. Como resultado temos duas novelas brilhantes que marcam o início da carreira de um dos mais cultuados autores contemporâneos. Duas histórias poderosas, e levemente surreais, que tratam de amadurecimento, solidão e erotismo, no melhor estilo Murakami. Alguns dos personagens que conhecemos nessa obra irão reaparecer em Caçando carneiros e Dance, dance, dance, formando uma espécie de trilogia inicial do autor e esse conjunto, em vez de mostrar um escritor procurando sua voz, já mostra um autor maduro e seguro de seus temas. Traduzidas no Brasil pela primeira vez, Ouça a canção do vento & Pinball, 1973 são uma janela para o mundo fascinante de Murakami.

O livro tem as duas primeiras obras de Murakami, que, na verdade, são novelas: Ouça a Canção do Vento e Pinball, 1973.

Em Ouça a canção do vento, o protagonista é um estudante de biologia sem nome que volta para sua cidade natal durante as férias de verão. Nesse período, ele passa os dias bebendo na companhia de um amigo, que ele chama de Rato, e relembra amores do passado. É uma novela curiosa, com ares bem experimentais. A narrativa é desconexa, com cada capítulo abordando um tema ou fato diferente, sendo a linha do tempo bem tênue. Eu fiquei com a sensação de que Murakami foi escrevendo cada capítulo de acordo com o humor, algo como se tivesse uma ideia qualquer do nada e decidisse escrever sobre ela, sem se comprometer muito com a integridade da coisa toda. O resultado é uma novela que me trouxe a sensação de um apanhado de ideias.

Ouça a canção do tempo tem alguns momentos bem interessantes, mesmo com suas limitações narrativas. O protagonista é apático e passivo, sempre se deixando levar pelos outros e pelas situações, sem esboçar muita vontade própria. Já os personagens secundários são um pouco mais bem construídos e interessantes, dentro de suas limitações. É uma novela que explora muito sensações como melancolia e solidão, com forte presença de livros, bebida e jazz — ou seja, uma típica história construída por Murakami. Há alguns trechos ótimos, entretanto, para mim, não foi muito memorável: não consegui me conectar aos personagens e trama, principalmente por conta da narrativa fragmentada.

Tudo ao redor já estava completamente escuro. Não era um preto monocromático, mas uma sobreposição de espessas camadas de tinta, espalhadas como manteiga.
Com o rosto encostado à janela do táxi, fui olhando escuridão por todo o caminho. Era curiosamente plana, como uma matéria sem substância cortada por uma faca muito afiada. A sensação de perspectiva era estranha. Um enorme pássaro noturno bloqueava minha visão, com as asas estendidas diante dos meus olhos.
Conforme avançávamos, as casas ficavam cada vez mais esparsas, até que ao nosso redor havia apenas pradarias e bosques, de cujo chão brotavam as vozes de dezenas de milhares de insetos. As nuvens baixas pareciam rochedos, e tudo sobre a terra se encolhia calado, no escuro. (Pág. 241)

Já em Pinball, 1973, acompanhamos a vida de um tradutor que se vê obcecado por uma máquina de pinball. A segunda novela é bem parecida com a primeira, com direito a personagens recorrentes (como Rato e o barman J), ao ponto de até parecer uma espécie de continuação. A narrativa muda um pouco e é mais encorpada, com capítulos mais bem desenvolvidos, por mais que ainda não há uma linha narrativa sólida.

Dentre as duas novelas, gostei mais de Pinball, 1973 por ser mais elaborada e por ter personagens mais desenvolvidos. Assim como Ouça a canção do tempo, é uma trama que fala sobre solidão, melancolia e relacionamentos complicados. Há, também, uma obsessão do protagonista por uma máquina de pinball e achei isso bem curioso, por mais que o autor explore pouco esse aspecto.

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Assim como o autor, achei que as duas novelas carecem de polimento. As características básicas dos romances do Murakami estão ali, contudo faltou desenvolvimento de aspectos importantes da trama e personagens. A sensação que eu tive é que é um conjunto de ideias em formato de novelas, uma espécie de rascunho mesmo. Mesmo assim, achei a leitura bem prazerosa, principalmente por conta da ótima escrita de Murakami e da ambientação melancólica de tudo.

Uma das minhas partes favoritas do livro é a introdução feita pelo próprio Murakami. Nela, o autor conta um pouco de sua vida no momento em que decidiu ser escritor. Ele também narra o dia em que decidiu começar a escrever e explica rapidamente o seu inusitado processo criativo — processo esse que explica um pouco o motivo da escrita dele ser do jeito que é. Esse relato também justifica um pouco o conteúdo das novelas: Murakami aprendeu a ser escritor por pura tentativa e erro.

Porém, ao mesmo tempo, meus dois livros escritos na mesa da cozinha não deixam de ser obras importante, indispensáveis na minha carreira. São como amigos de muito tempo atrás — provavelmente não vamos mais nos encontrar ou conversar, mas jamais me esquecerei da sua existência. Durante aquele período, eles foram uma presença preciosa e insubstituível para mim. Eles me aqueceram o coração e me deram forças. (Pág. 16)

Outro detalhe que me agradou bastante é a belíssima edição lançada pela Alfaguara. O livro tem capa dura e conta com uma capa simples de duas cores em gradiente, que me faz lembrar um pôr do sol. Além disso, a lombada das páginas também é colorida, resultando em um exemplar muito bonito.

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Ouça a Canção do Vento & Pinball, 1973 é uma maneira interessante de conhecer o início da carreira de Haruki Murakami. As duas novelas carecem polimento, porém apresentam as características marcantes do autor, como os temas e atmosfera recorrentes em suas obras — isso é justamente o que mais gostei no livro. Acredito que não é a melhor maneira de conhecer o autor por conta do formato, tenho a sensação de que provavelmente fãs gostarão mais dessas novelas. Sendo assim, Ouça a Canção do Vento & Pinball, 1973 é uma experiência curiosa, mas não é para qualquer um.

Me pergunto por quanto tempo foi assim. Eu caminhava em meio a um silêncio infinito. Saía do trabalho, ia para casa e, tomando o café saboroso feito pelas gêmeas, relia mais uma vez a Crítica da razão pura.
Às vezes o dia de ontem parecia o ano anterior, ou o ano anterior se confundia com o dia de ontem. Nas horas mais graves, o ano seguinte se confundia com o dia anterior. Também acontecia de eu estar traduzindo um artigo de Kenneth Tynan sobre Romam Polanski, publicado na edição de setembro de 1971 da revista Esquire, e passar todo o tempo pensando sobre pressão e rolamentos.
Por muitos meses, por muitos anos, permaneci assim, sentado sozinho no fundo de uma piscina profunda. A água morna, a luz suave, o silêncio. O silêncio… (Pág. 154)

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Um comentário em “Resenha: Ouça a canção do vento & Pinball, 1973, de Haruki Murakami”

  1. Preciso urgente de Haruki Murakami, só li dois livros dele e esta resenha me deixou extremamente interessado. Já tive oportunidade de ler obras do “início” da vida do autor depois de já ter lido obras consolidadas, quase posso ver ele sentado, escrevendo, seus dilemas e as diferenças de um autor mais jovem e agora.

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