Resenha: Coração de Aço, de Brandon Sanderson

“Eu sei, melhor do que qualquer outra pessoa, que não há heróis vindo nos salvar. Não há Épicos bons. Nenhum deles nos protege. O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.” (Pág. 21)

Estamos acostumados a ver muitas tramas em que pessoas normais tornam-se heróis depois de ganhar poderes especiais. Coração de Aço propõe justamente o contrário: o que acontece quando humanos recebem superpoderes e se tornam tiranos ao invés de heróis? A combinação de muita ação, ritmo ágil e conceitos interessantes resulta em um livro divertido e uma experiência muito prazerosa.

Tudo começou com Calamidade, que surgiu nos céus como uma estrela de fogo, e que ninguém sabe o que é realmente: seria algo alienígena, ou então um experimento do exército norte-americano? Seus efeitos, entretanto, podem ser sentidos algum tempo após seu surgimento: pessoas comuns passam a ter poderes que desafiam as leis da física e da lógica. Parece que uma nova era está para surgir. E surge: os nomeados Épicos não apenas se tornam poderosos, mas também ganham uma sede insaciável de poder e parecem perder toda sua humanidade no processo, deixando o resto da população à mercê de suas vontades e caprichos. Dentre eles o mais poderoso é Coração de Aço, um ser invulnerável a qualquer tipo de ataque e com capacidade de manipular e transformar objetos inorgânicos em metal, que decide tomar a cidade de Chicago e ali estabelecer seu império.

Dez anos se passam e os Épicos governam com poder absoluto, com todos os direitos e nenhum dever, se apossando de tudo o que querem a seu bel-prazer, e matando aqueles que ousam desafiá-los. Não existe nada e ninguém que possa impedi-los. A exceção a essa regra são os Executores, humanos normais, munidos de tecnologia de ponta que se utilizam de táticas de guerrilha para derrubar e matar o maior número possível de Épicos. O sonho de David, um jovem criado em um orfanato/fábrica de Nova Chicago é juntar-se aos Executores e destruir Coração de Aço, o homem que matou seu pai e mudou sua vida para sempre.

A trama é no mínimo interessante, misturando vários conceitos já conhecidos de maneira inusitada. Logo após o aparecimento no céu de um objeto brilhante chamado Calamidade, surgiram pessoas com poderes especiais. O curioso é que esses indivíduos tornaram-se tiranos, usando seus superpoderes para fazer qualquer coisa, principalmente dominar cidades. A esses seres foi dado o nome de Épicos. Nessa situação, as pessoas normais se subordinaram aos Épicos e vivem vidas miseráveis, tentando sobreviver como conseguem. Contudo, alguns enfrentam esses vilões, como David, um rapaz cujo pai foi morto por Coração de Aço, um dos Épicos mais poderosos do mundo. Para alcançar sua vingança, ele tenta entrar para os Executores, um grupo de pessoas normais que são conhecidos por caçar e matar Épicos.

Depois de Mistborn, quis conferir mais trabalhos de Brandon Sanderson e Coração de Aço foi uma ótima escolha. O livro apresenta uma história de ação e aventura que usa distopia como ambientação. Foi justamente a premissa de humanos normais enfrentando seres extremamente poderosos que me chamou a atenção — sempre me interessei por esse tipo de situação em que a diferença de forças é grande, o que resulta em situações em que tudo parece perdido, contudo os personagens conseguem dar um jeito mesmo assim.

A ambientação é uma das minhas características favoritas do livro. Gostei muito dessa distopia na qual os vilões são justamente aqueles que estamos acostumados a ver salvando o dia em outras histórias. Sempre fiquei me perguntando como as pessoas conseguiam sobreviver em um mundo tão complicado e repleto de problemas — além de serem tiranos, os Épicos também adoram brigar entre si e destruir tudo. Humanos lutando contra eles e saindo vitorioso é algo muito difícil de imaginar, contudo os Executores conseguem isso por meio de muita inteligência e estratégia.

Outro destaque do livro é a narrativa. Ela flui muito bem e o ritmo é acelerado, me lembrou muito um filme de aventura. A trama tem muita ação, sendo que o autor consegue descrever muito bem essas cenas — todas elas são interessantes e de tirar o fôlego. Há, também, uma leve sensação de tensão e incerteza: será que realmente David e os Executores vão conseguir descobrir a fraqueza de Coração de Aço e enfim derrotá-lo? E os outros Épicos que aparecem pelo caminho, também podem ser mortos? A todo momento os heróis estão por um fio e precisam improvisar para escapar das enrascadas. Essa atmosfera de incerteza, combinada com a agilidade da escrita, me deixava curioso o tempo todo.

“— Coração de Aço pega os inteligentes — Abraham disse, em voz baixa — porque os teme. Ele sabe, David. Todas essas armas não o assustam. Não serão elas que vão derrotá-lo. Será a pessoa esperta o bastante, inteligente o bastante, para descobrir a rachadura na armadura dele. O Épico sabe que não pode matar todos os inteligentes, então os emprega. Quando ele morrer, será por causa de alguém como você. Lembre-se disso.” (Pág. 149)

Dentre os personagens, o melhor desenvolvido (e um dos meus favoritos) é o protagonista David. Consumido pela sua vingança, ele dedicou os 10 últimos anos de sua vida a entender os Épicos, principalmente suas fraquezas e maneiras de derrotá-los. Por conta disso, ele é bem inteligente e consegue improvisar muito bem. Contudo, ele é um pouco imaturo e obcecado com a vingança, o que faz com que ele não consiga enxergar bem as situações de maneira mais abrangente e geral. Ah, ele também tem uma paixonite boba por Megan (uma das Executoras) e adora ficar bolando trocadilhos toscos — fiquei um pouco irritado com isso, ainda mais pelo fato de que a narrativa é em primeira pessoa, mas relevei.

Os outros personagens são um pouco estereotipados, mas não deixam de ser interessantes. Megan é a garota bela e durona, capaz de resolver qualquer imprevisto; Prof é o mentor do grupo e tem personalidade contida e perspicaz; Cody é o atirador falastrão que sempre solta algum comentário engraçado ou maluco, e assim por diante. A maioria deles se prende aos seus estereótipos e não são lá muito profundos, contudo o autor conseguiu inserir neles um pouco de carisma e soube explorar bem suas relações. Quando dei por mim, já tinha me afeiçoado por todos eles (menos Megan, achei ela intragável).

A narrativa é ágil, mas Coração de Aço tem alguns problemas. O primeiro deles é a inconsistência do ritmo: tem capítulos que acontecem muitas coisas, já em outros praticamente não há desenvolvimento. Sanderson também usa recursos meio questionáveis para resolver certos problemas (David chama de “improviso”, já eu achei que era a mão do autor guiando os fatos), sendo necessário relevar certas coisas para aceitar a lógica criada pelo autor. Por fim, algumas cenas são bem previsíveis, por mais que nos capítulos finais acontecem muitas reviravoltas e revelações interessantes.

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A premissa e ambientação são muito interessantes, com essa coisa de distopia com supervilões como tiranos, porém fiquei com a sensação de que Sanderson explora muito superficialmente o que tudo isso implica. Há até momentos em que você esquece que David e os outros vivem em uma distopia, já que mal dá pra sentir os efeitos da tirania de Coração de Aço sobre os heróis. O autor até levanta algumas questões, como se vale a pena abdicar da liberdade e se submeter a um Épico em troca de uma pequena estabilidade, só que Sanderson nunca se aprofunda nisso. No fim das contas, fiquei com a sensação de que esses assuntos poderiam ser melhores explorados, mesmo não sendo o foco da trama — talvez eu esteja exigindo demais de um livro direcionado a jovens adultos. Imagino que essa sensação vem do fato de que a trama é focada na vingança de David e não na sociedade em si. Torço que o autor explore mais o universo da série nas continuações.

Coração de Aço é uma ótima experiência. Me diverti demais acompanhando David e os Executores tentando derrotar o terrível Épico Coração de Aço. Foi um livro que li muito rápido, principalmente por conta da narrativa ágil, da trama interessante e das ótimas cenas de ação. Gostei muito da temática e ambientação (não é todo dia que você encontra uma distopia com supervilões), mesmo achando que alguns detalhes podiam ser melhor explorados. Coração de Aço é uma aventura intensa, mais um daqueles livros difíceis de largar depois de iniciada a leitura.

“Épicos tinham uma falta notável, incrível até, de moral ou consciência. Isso incomodava algumas pessoas, em um nível filosófico. Teóricos, estudiosos. Eles se surpreendiam com a desumanidade absoluta que alguns Épicos manifestavam. Será que os Épicos matavam porque Calamidade tinha escolhido – por qualquer motivo – apenas pessoas horríveis para ganhar poderes? Ou matavam porque poderes incríveis como esses deturpavam uma pessoa, tornando-a irresponsável?” (Pág. 80)

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6 comentários em “Resenha: Coração de Aço, de Brandon Sanderson”

    1. Não sei se é exatamente uma referência à Stalin, pois esse perfil de personagem é bem comum em tramas de fantasia distópicas. Mistborn, outra obra do mesmo autor, também tem um ditador que em muitos aspectos lembra o de Coração de Aço, por exemplo.

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