Resenha: Pedra no Céu, de Isaac Asimov

“—Para o resto da Galáxia, se é que notam a nossa existência, a Terra é apenas uma pedra no céu. Para nós é o nosso lar, e o único lar que conhecemos. No entanto, não somos diferentes de vocês dos mundos siderais; somos apenas mais desafortunados. Estamos apinhados em um mundo morto, imersos entre paredes de radiação que nos prendem, cercados por uma imensa Galáxia que nos rejeita. O que podemos fazer contra o sentimento de frustração que nos consome?” (Pág. 58)

Publicado em 1950, Pedra no Céu foi o romance de estreia de Isaac Asimov, conhecido escritor de ficção científica. Por conta da sinopse instigante e por gostar muito dos trabalhos do autor, resolvi conferir esse livro. Mesmo não sendo tão elaborado como outras obras do Asimov, Pedra no Céu é uma leitura interessante.

O alfaiate aposentado Joseph Schwartz desfrutava de uma pacífica caminhada de verão quando, devido a um acidente em um laboratório na mesma cidade, foi involuntariamente transportado milhares de anos para o futuro. Chega então a uma Terra marginal e abandonada, cuja superfície é quase toda inabitável, e que fica às margens de um grandioso Império.

Pedra no Céu tem uma premissa simples: um homem é transportado para o futuro e se encontra em uma Terra completamente diferente. Nessa era, a Terra é um planeta isolado e ignorado em meio a um gigantesco Império Galático — principalmente pelo fato de que boa parte da superfície tenha tornado-se radioativa. Assim como Schwartz, fiquei intrigado em como o nosso planeta mudou e fui tentando entender como a sociedade se adaptou a essa realidade.

O livro explora vários temas, como a discriminação dos terráqueos pelas outras sociedades da galáxia (todos acreditam que eles são selvagens radioativos) e até mesmo eutanásia (que é considerada comum e necessária na problemática Terra radioativa). Um ponto interessante é que nesse futuro distante não se acredita que a Terra é a origem de toda a sociedade galática e as implicações disso são exploradas durante a história. É uma pena que Asimov só aborde por alto todas essas questões, fiquei o tempo todo achando que mais poderia ter sido discutido em cima desses assuntos.

O que mais me agradou em Pedra no Céu foi seu ritmo e a trama. Schwartz acaba envolvido em um experimento que melhora suas capacidades mentais, sendo assim ele passa a aprender muito rápido e acaba desenvolvendo também outras habilidades. Por conta disso, ele se envolve, contra a sua vontade, em uma conspiração que pode mudar completamente o Império. É uma história simples, porém bem escrita e repleta de ganchos bem colocados — fiquei o tempo todo querendo saber como os personagens iam resolver os problemas e questões que apareciam pelo caminho. O universo é convidativo e tem vários aspectos bem construídos e verossímeis, mesmo que um pouco mal explorados. O ritmo é ágil, o que faz a leitura fluir muito bem.

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Esta é a primeira obra de Asimov e isso fica bem aparente durante a leitura. A trama tem aspectos bem artificiais: é praticamente uma luta clássica entre o bem e o mal, sem direito a nuances entre as duas forças. Os personagens são subdesenvolvidos e estereotipados, o que torna difícil se importar de fato por eles. Também há a presença de vícios da época (como o herói beijando a mocinha para despistar perseguidores) e alguns fatos que acontecem sem aparente explicação, algo totalmente contrário ao que Asimov costuma fazer em suas obras. A soma disso tudo traz a sensação de um escritor novato, por mais que muitas características do autor já estejam consolidadas aqui.

As qualidades de Pedra no Céu fazem com que a leitura seja ágil e prazerosa. Gostei muito de acompanhar Schwartz em sua aventura por uma Terra completamente diferente, assim como os temas abordados na obra. Há alguns problemas, como superficialidade de situações e personagens estereotipados (o que é até natural quando se trata da primeira obra de um autor), entretanto tudo isso não chega a atrapalhar muito a experiência. Além de ser um bom livro de ficção científica, Pedra no Céu é também uma ótima introdução ao universo e estilo de Asimov.

“Schwartz estava assustado. Ele poderia estar revelando sua insanidade, mas tinha de saber.
—Onde eu estou? perguntou ele de forma abrupta.
Grew levantou o olhar em meio a um movimento deliberado do cavalo da rainha para bispo 3 e indagou:
—O que?
Schwartz não sabia a palavra para “país” ou “nação.
—Que mundo é este? — indagou ele, e moveu seu bispo para rei 2.
—A Terra — foi a curta resposta, e Grew rocou, com grande ênfase, primeiro a figura alta que representava o rei, deslocando-o, e depois a desajeitada torre, movendo-a além e parando do outro lado.
Aquela foi uma resposta totalmente insatisfatória. A palavra que Grew usara, Schwartz a traduzia em sua mente como “Terra”. Mas o que era a “Terra”? Qualquer planeta é
a “Terra” para aqueles que nele vivem.” (Pág. 161)

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3 comentários em “Resenha: Pedra no Céu, de Isaac Asimov”

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