Análise: Potion Explosion

Gosto muito de jogos de tabuleiro com mecânicas únicas e complexas, tanto é que o denso Mage Knight Board Game ainda é o meu jogo analógico favorito de todos os tempos. Contudo, ultimamente, tenho preferido experiências mais leves e rápidas. Potion Explosion é um jogo que apresenta justamente esse tipo de proposta. Além de ser muito acessível, ele tem componentes muito convidativos, ótima direção de arte e mecânicas simples. O resultado é um jogo muito bonito e extremamente divertido.

Em Potion Explosion os jogadores são bruxos que participam das provas finais da aula de poções em uma escola de magia claramente inspirada em uma outra certa série de sucesso. O objetivo é preparar bebidas mágicas e para isso é necessário coletar ingredientes de um dispensador. O legal é a representação desses componentes e o ato de coletá-los: os ingredientes são bolinhas de gude que ficam em várias rampas inclinadas. Quando você tira uma peça, as outras caem e, caso as bolinhas que se tocaram sejam da mesma cor, ocorre uma explosão e o jogador também fica com elas. Com um pouco de estratégia (e sorte), é possível desencadear explosões em cadeia, o que resulta em muitos ingredientes com uma única jogada. O conceito principal lembra muito vários puzzles famosos como Candy Crush e Bejeweled.

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Esses ingredientes coletados são utilizados para preparar as poções, de acordo com a cor da bolinha e do espaço no frasco mágico — basta colocar no local correto. Cada jogador prepara duas poções por vez e até três componentes podem ser guardados para serem usados no futuro. Depois de pronta, cada bebida mágica tem um efeito especial, como pegar ingredientes adicionais do dispensador, usar as bolinhas guardadas ignorando a cor, ou até mesmo surrupiar a reserva dos outros jogadores. Também é possível pedir uma ajudinha ao professor para pegar um componente adicional. Ao preparar três poções idênticas ou cinco de tipos diferentes, o jogador recebe uma “ficha de competência”. O fim de jogo acontece quando todas essas fichas acabam e o ganhador é aquele que tiver maior pontuação.

A minha característica favorita de Potion Explosion é a simplicidade do conceito principal de pegar bolinhas de gude de um dispensador e colocar no espaço correspondente da poção — nada de mil regras complexas e condições específicas. A mecânica de explosões em cadeia também é ótima e, para mim, o destaque é justamente fazer uma jogada bem elaborada, o que resulta em muitas bolinhas na mão e várias poções prontas. É muito recompensador (e até mesmo emocionante, eu diria) fazer uma combinação longa, sendo que o som das bolinhas batendo umas nas outras complementa a experiência. O curioso é que essa sensação acontece mesmo na vez dos outros: nas várias partidas que joguei, todo mundo se animou quando alguém conseguia fazer uma grande cadeia de explosões. Durante as partidas que joguei, foi muito comum, também, adversários ajudando uns aos outros a fim de tentar montar grandes explosões.

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Gosto muito também do “fator táctil” do jogo: é bastante legal pegar as bolinhas de gude, mexer no dispensador e organizar os ingredientes nas poções. A arte dos componentes é bela e reforça a vontade de tocar e mexer nas coisas, como a simpática bancada de trabalho e as detalhadas fichas de bebidas mágicas. Até a descrição das poções e ingredientes é divertida e combina com a proposta leve do jogo.

Em um primeiro momento, Potion Explosion pode parecer simples e aleatório demais. Contudo, existe muito espaço para estratégia por meio da combinação das várias ações possíveis (pegar ingredientes, tomar poções e usar a ajudinha do professor). Para vencer, é essencial não só usar bem essas opções, mas também se planejar para o futuro: poções de maior pontuação exigem mais ingredientes, logo é importante balancear os tipos de poções escolhidas para preparar. Podem acontecer momentos em que a aleatoriedade deixam o progresso um pouco difícil, contudo a variedade de efeitos de poções ajuda a contornar isso.

A agilidade e a variedade do jogo é mais um detalhe que adoro em Potion Explosion. Uma partida dura entre 30 e 45 minutos (se ninguém ficar pensando demais e enrolando durante seus turnos), com preparação inicial bem rápida. O jogo foi pensado para até quatro jogadores, contudo é perfeitamente adaptável para cinco pessoas, sendo que a experiência de jogo muda de acordo com a quantidade de participantes. Com duas pessoas, a disputa é focada em quem é mais eficiente e quem consegue fazer poções valiosas mais rápido. Já com quatro ou cinco, as coisas mudam um pouco e é importante ter uma visão estratégica de futuro, pois pode acontecer de certos ingredientes terem menor disponibilidade no dispensador. Tudo isso, somado ao fato de que cada partida apresenta um conjunto distinto de poções, faz com que Potion Explosion seja uma experiência diferente toda vez.

Maior interação entre jogadores é algo que senti falta em Potion Explosion. Somente uma das poções permite influenciar diretamente a bancada de trabalho de outro participante, já outras até conseguem atrapalhar levemente o jogador seguinte, mas fiquei com a sensação de que essa característica poderia ter sido melhor trabalhada. Também fiquei com a impressão que o jogo pode ficar repetitivo ao longo prazo, mesmo que o conjunto de poções mude levemente em cada partida. Imagino que isso deve mudar com a expansão The Fifth Ingredient, que promete poções e mecânicas de jogo adicionais.

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Potion Explosion é um ótimo jogo de tabuleiro por conta da mescla de tantas qualidades. Gosto demais da mecânica simples de coletar os ingredientes do dispensador, que traz uma ótima mistura de sorte e estratégia. Além disso, é muito fácil de aprender e pode agradar tanto jogadores mais casuais quanto aqueles que gostam de coisas mais complexas — é especialmente ótimo para apresentar jogos de tabuleiros para outras pessoas. Por fim, é um jogo muito bonito e repleto de componentes que dão vontade de pegar e mexer, o que torna a experiência ainda mais legal. Potion Explosion é perfeito para partidas descompromissadas e muito divertidas.

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5 comentários em “Análise: Potion Explosion”

  1. Parabéns, é raro encontrar análises de jogos de tabuleiro. Ainda que esse mercado esteja decolando no país ainda temos muita estrada para percorrer. Acho que jogos desse tipo são muito positivos para a aprendizagem e espero que se tornem ainda mais populares. Ainda mais se for um “jogo de entrada” uma boa opção para apresentar o gênero, como você observou.

    Um aspecto já observados sobre o impacto positivo de jogos, é que eles tornam os estudantes mais simpáticos a certos conteúdos. Um grande educador chamado Mashall McLuhan dizia que quem não percebe a relação entre jogos e aprendizagem não entende o essencial sobre nenhum dos dois.

    Assim, eu fiquei curioso sobre potion explosion: pelo que você descreveu ele seria estimulante para crianças não só pelo visual mas pelo aspecto tátil. Você acha que ele seria interessante a partir de que idade? E como foi sua experiência de aprender a jogar.

    1. Olá Renato,

      Fico feliz em saber que gostou da análise 🙂 Não acho que seja difícil encontrar análises de jogos de tabuleiro, o que acontece é que a maioria desse tipo de conteúdo é feita no formato de vídeo. Mas, realmente, análises escritas são um pouco mais difíceis de encontrar.

      Sobre a idade mínima, a Galápagos Jogos recomenda “a partir de 8 anos” e acredito que seja uma boa idade. Crianças mais novas até podem conseguir entender a mecânica básica, porém acho que será um pouco difícil para elas visualizarem grandes combinações de explosões e os efeitos de algumas poções. Aprender a jogar foi bem simples, pois as regras são claras e intuitivas, e o manual é bem escrito.

  2. O que eu sinto dificuldade neste tabuleiro é o “Estilo de jogo” – é tão gratificante ir fazendo as poções, escolhendo as poções ou fazer combos que mesmo não ganhando a partida você tende a manter a estratégia, é como ir num restaurante, ter uma experiência agradável com um prato e depois daquilo você não troca de prato, olha o cardápio, olha, olha, olha e acaba escolhendo o mesmo prato…

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