À Noite Andamos em Círculos, de Daniel Alarcón

“Depois de um ano desanimador — um término de namoro, uma extensão de contrato num emprego desinteressante, os meses de frustração após uma formatura tanto almejada quanto temida —, Nelson ficou simplesmente extasiado com a notícia. Henry tinha razão: Nelson, aos quase vinte e três anos, tinha uma mochila cheia de roteiros, um caderno abarrotado de histórias manuscritas, uma cabeça cheia de cachos rebeldes, e parecia muito, muito mais jovem. Talvez tenha sido por isso que ele ganhou o papel — sua juventude. Sua ignorância. Sua maleabilidade. Sua ambição. A turnê começaria dali a um mês. E foi então que os problemas começaram.”

De tempos em tempos, gosto de ler alguma história mais densa e não necessariamente feliz. À Noite Andamos em Círculos, do peruano Daniel Alarcón, é justamente esse tipo de livro. Indicação de um amigo, o livro me conquistou com sua narrativa ágil, seus personagens bem construídos e sua trama simples, porém bem explorada.

A vida de Nelson não está tomando o rumo que ele queria. Sua ex-namorada está morando com outro; seu irmão mais velho emigrou para os Estados Unidos e não cumpriu a promessa de levá-lo junto; e ele próprio tem de viver ao lado da mãe viúva, tentando estabelecer uma carreira de ator e dramaturgo que não decola, num país latino-americano recém-saído da guerra civil.

Tudo muda quando ele é o escolhido para encenar uma peça lendária, O presidente idiota, por um grupo também lendário, o Diciembre — composto apenas por dois representantes da antiga vanguarda teatral. Juntos, eles embarcam numa viagem pelos recantos mais remotos do país, numa turnê ao sabor do momento, em que suas vidas serão drasticamente alteradas.

Comecei a leitura esperando encontrar uma história no estilo road movie, com direito a amizades se fortalecendo durante a viagem e amadurecimento dos personagens. Até há esse aspecto de maneira bem leve, mas o foco de Alarcón é completamente outro: a decadência dos protagonistas.

Um dos aspectos que mais gostei no livro foram seus personagens. Nelson, o protagonista da história, está com a vida completamente bagunçada e tem esperança que ter sido escolhido para a turnê da trupe de teatro Diciembre o ajude a resolver seus problemas. Acontece que ele não é lá uma pessoa muito carismática e fácil de lidar, mas algo nele me atraiu (principalmente sua impulsividade) e sempre quis saber qual seria seu próximo passo. Já Henry, o diretor do Diciembre, tem um passado pesado e complicado, que ele aos poucos revisita e tenta superar. Patalarga, o terceiro membro da trupe e o melhor amigo de Henry, busca fugir de certas responsabilidades. Pouco a pouco vamos conhecendo melhor os membros do Diciembre: suas motivações, seus medos, suas decepções.

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Daniel Alarcón

Todos os personagens são densos e bem interessantes, inclusive aqueles bem secundários. Alarcón tomou o cuidado de explorar os dramas de pessoas como Mónica (a mãe de Nelson), Ixta (a ex namorada do protagonista) e até mesmo Rogelio (companheiro de cela de Henry enquanto ele esteve preso). Eles e muitos outros, durante a história, tentam superar e resolver seus problemas — questões mundanas, até certo nível, o que faz com que a gente se identifique com as situações.

A narrativa de Alarcón é nada usual. O autor alterna entre vários períodos diferente do tempo e muda de foco o tempo todo. O resultado é um olhar que, em um primeiro momento, pode parecer levemente confuso por conta da falta de linearidade, mas que rapidamente se torna instigante — me acostumei a esse estilo rapidamente. O motivo disso é que Alarcón consegue pular de um lugar para outro com naturalidade, principalmente por conta da sua escrita clara.

“Ver aquela mulher, ele me contou depois, deixava-o perturbado, enchendo-o ao mesmo tempo de arrependimento e otimismo. Ele sentiu naquele momento que entrara num período cinzento de sua vida, do qual não havia um jeito fácil de escapar. Não se podia entrar no mundo de uma peça. Não se podia escapar da sua própria vida. Suas escolhas ruins ficavam presas a você. E mesmo se uma coisa dessas fosse possível, exigiria uma força de vontade que ele não tinha, um golpe de sorte que ele não merecia.”

Há um tom geral de decadência na trama: o tempo todo eu sentia que os personagens não conseguiriam superar muito bem seus dramas. O autor, pouco a pouco, vai adicionando novas informações ao quebra-cabeça e logo você percebe que algo de ruim está para acontecer, uma forte sensação fatalista de fracasso. A partir da metade do livro, a trama torna-se muito instigante e fiquei o tempo todo me perguntando o que ia acontecer em seguida — isso me fez querer ler mais e mais. É nesse ponto que percebi que tinha algo ali que eu não tinha prestado atenção direito, como, por exemplo, quem era o real narrador (e se era possível confiar em tudo o que ele afirma). Fui ficando cada vez mais angustiado com as migalhas de informações sobre os fatos. As partes finais, principalmente a conclusão da história, me surpreenderam muito — principalmente por conta da transformação de certos personagens. No geral, a essência da história é bem simples, porém a maneira como ela é contada e a profundidade dos personagens a deixa bem interessante.

O que não gostei foram alguns recursos da história, uns pontos que me pareceram forçados. Alguns personagens, principalmente Nelson, tomam algumas decisões estranhas que parecem não fazer sentido dentro de suas personalidades e histórias. Ao meu ver, me pareceu que o autor usou isso de maneira arbitrária somente para fazer a história seguir os rumos que ele queria. Também senti que a transição da primeira metade para a segunda foi um tanto quanto abrupta, o que faz até parecer que são duas histórias grudadas. De qualquer maneira, foram pequenos detalhes que pouco atrapalharam a experiência.

À Noite Andamos em Círculos é denso em vários níveis, o que o torna uma ótima leitura. O mundo e personagens construídos por Alarcón são bem interessantes, e gostei especialmente da narrativa repleta de múltiplos focos e muitos pontos de expectativa. No fim das contas, é uma história sobre como as pessoas andam e andam, mas no fim das contas acabam no mesmo lugar de partida. E o livro é ótimo justamente por ser tão parecido com a vida.

“Nelson acordou com a sensação perturbadora de que muitos anos agora o separavam dos dias inebriantes de seu passado. Da turnê, de sua vida anterior, e do otimismo que ele uma vez tivera. Ainda era cedo, uma hora antes do amanhecer, o momento do dia em que as dúvidas são mais devastadoras; elas pendem pesadas nos ossos.”

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