Resenha: Neuromancer, de William Gibson

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…” (Pág. 77)

Neuromancer é um romance de ficção científica muito famoso por conta de sua ambientação complexa e por ser forte representante (ou até mesmo um dos precursores) do movimento cyberpunk. Mesmo sendo bem conhecido, eu ainda não tinha lido esse livro,principalmente por estar conhecendo melhor literatura de ficção científica só agora. Quando a editora Aleph lançou uma edição muito bonita, decidi conferir esse clássico.

Considerada a obra precursora do movimento cyberpunk e um clássico da ficção científica moderna, Neuromancer conta a história de Case, um cowboy do ciberespaço e hacker da matrix. Como punição por tentar enganar os patrões, seu sistema nervoso foi contaminado por uma toxina que o impede de entrar no mundo virtual. Agora, ele vaga pelos subúrbios de Tóquio, cometendo pequenos crimes para sobreviver, e acaba se envolvendo em uma jornada que mudará para sempre o mundo e a percepção da realidade.

Eu tinha somente uma ideia vaga do que esperar de Neuromancer — só sabia que o gênero era cyberpunk e que tinha um hacker como protagonista. Bastaram algumas poucas páginas para perceber que o universo da trama é bem instigante e complexo. Acompanhamos Case por um mundo angustiante no qual a tecnologia é bem avançada, só que em contrapartida toda a qualidade de vida parece ser bem baixa, com boa parte da população vivendo situação lastimável. É um paradoxo curioso: as ruas estão repletas de modernização, com direito a pessoas com implantes robóticos, mas há uma sensação geral de decadência.

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O universo de Neuromancer foi justamente a característica que mais gostei no livro. É desconcertante observar uma sociedade regida por grandes corporações que fazem o que bem querem, o que resulta em um estado de capitalismo agressivo no qual as pessoas fazem o possível e o impossível para sobreviver (nem sempre de maneira muito digna). A integração da tecnologia no dia a dia também é interessante e fiquei me perguntando como Gibson conseguiu prever lá em 1984 tantas tecnologias e questões sociais que se tornaram realidade.

De fato, Neuromancer foi grande influência para a ficção científica no geral. Conceitos cotidianos para nós, como o ciberespaço, inteligência artificial, realidade virtual e outros aspectos tecnológicos, são pontos centrais na trama. Acredito que na época o universo do livro foi de grande impacto, mas hoje parece um tanto quanto corriqueiro, principalmente pelo fato de outras mídias terem explorado exaustivamente esses aspectos. Contudo, mesmo assim, não deixa de ser interessante.

A ambientação foi a única característica que gostei em Neuromancer, infelizmente.

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O maior problema que me incomodou na leitura é a narrativa. Ela é truncada e confusa, repleta de descrições desnecessariamente complexas. Gibson criou um monte de termos, só que não se dá o trabalho de explicá-los. Sendo assim, cabe ao leitor tentar entender o que o autor quer dizer pelo contexto — eu só consegui captar alguns significados muito depois, enquanto outros fiquei sem saber do que se tratava. Essa edição até tem um glossário de termos, mas ele é tão reduzido que pouco ajuda.

Esse recurso de escrita truncada atrapalha também no entendimento da trama. O autor gosta de pular de um ponto para outro, sem uma transição razoável, o que resulta em mais confusão. Por conta disso, você passa metade do livro tentando entender exatamente o que está acontecendo e o que os personagens estão tentando alcançar. O pior é que a trama é extremamente básica e nada especial, mas ela é difícil de entender por conta desse recurso de narrativa. Me pareceu uma complicação desnecessária.

Por fim, temos os personagens. Case é um protagonista apático e ordinário, eu diria até que meio irritante. Ele é tão sem graça que eu não consegui me importar com ele nenhuma vez. Já Molly é uma garota que tinha tudo para ser interessante, principalmente por conta de suas modificações físicas (unhas de aço retráteis e grandes lentes prateadas no lugar dos olhos) e sua personalidade durona, mas que age sempre de maneira contraditória e praticamente não tem motivações fortes para suas ações. Há também alguns outros personagens, como o estranho Riviera e o misterioso Armitage. Todos eles são extremamente rasos e mal se desenvolvem durante a trama, além de serem extremamente antipáticos, o que faz ser muito difícil se conectar com eles. O personagem mais interessante e bem construído, curiosamente, é uma inteligência artificial — uma grande ironia.

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Sendo assim, por baixo da narrativa confusa, Neuromancer é somente uma história simples repleta de personagens insignificantes. Confesso essa combinação de fatores tornou a leitura difícil. Entretanto, senti que essa mistura de superficialidade e desordem traduzem muito bem a sensação de estar no mundo cyberpunk repleto de neon e cinza de Neuromancer, mundo este que está sempre se movendo extremamente rapido. Eu não sei se o autor fez isso intencionalmente, contudo fiquei com essa impressão no fim das contas.

A editora Aleph detém os direitos de publicação da obra no Brasil e fez um trabalho incrível nessa edição. A arte de capa é bela e vibrante, e todo o trabalho gráfico é visualmente convidativo. É uma edição que chama muita atenção.

No fim das contas, é fácil perceber a importância de Neuromancer para a ficção científica, assim como seu papel como precursor do movimento cyberpunk. O universo do livro é impressionante e complexo, sendo de longe a melhor característica da obra. Contudo, a ambientação sozinha não consegue sustentar a narrativa desnecessariamente confusa, a trama rasa e os personagens desinteressantes. É uma leitura interessante até certo ponto, mas cansativa e um pouco enfadonha.

“Um ano ali e ele ainda sonhava com o ciberespaço, a esperança morrendo um pouco a cada noite. Todo o speed que tomou, todas as voltas que deu e as esquinas de Night City por onde passou, e ainda assim ele via a matrix em seu sono, grades brilhantes de lógica se desdobrando sobre aquele vácuo sem cor… O Sprawl ficava agora a um longo e estranho caminho de distância sobre o Pacífico, e ele não era mais nenhum cara do console, nenhum cowboy de ciberespaço. Apenas mais um marginal na viração. Mas os sonhos apareciam na noite japonesa como figuras de vudu eletroluminescente, e ele gritava, chorava dormindo, e acordava sozinho no escuro, curvado em posição fetal em sua cápsula em algum hotel-caixão, as mãos trincadas no colchonete, a espuma sintética enroscada entre os dedos, tentando alcançar o console que não estava lá.” (Pág. 25)

Arte: io9

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5 comentários em “Resenha: Neuromancer, de William Gibson”

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