A Terra Inteira e o Céu Infinito, de Ruth Ozeki

Vou escrever tudo o que sei sobre a vida de Jiko no livro do Marcel, e quando eu terminar, vou deixá-lo em algum lugar, e você vai achá-lo! Não é uma ideia legal? A impressão é de que estou esticando o braço para a frente, através do tempo, para tocar em você, e agora que o achou, você está estendendo o braço para me tocar! Se você quer saber a minha opinião, isso é fantasticamente legal e belo. É como uma mensagem na garrafa, jogada no oceano do tempo e do espaço. Totalmente pessoal, e também real, saído do mundo pré-conexões da velha Jiko e do Marcel. E se você leu até aqui, é provável que entenda o que quero dizer. Você entende? Você já está se sentindo especial? Vou esperar um minutinho para ver se você responde…

A Terra Inteira e o Céu Infinito me conquistou pela sua premissa inusitada: uma escritora encontra na praia um diário de uma garota japonesa. Sendo assim, acompanhamos duas histórias, paralelamente. Eu gosto muitíssimo desse tipo de dinâmica de duas narrativas e me surpreendi muito com os temas abordados e com os personagens interessantes.

Numa remota ilha do Canadá, a escritora Ruth cata mariscos com o marido na praia quando se depara com um saco plástico coberto de cracas que envolve uma lancheira da Hello Kitty. Dentro, encontra um livro de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, e se surpreende ao descobrir que o miolo, na verdade, é o diário de uma menina japonesa, Nao. A sacola misteriosa, segundo os rumores dos habitantes, é mais um dos destroços do último tsunami que devastou o Japão e foi levado pelas correntezas até a ilha.

Desde então, Ruth é tragada pela história do diário de Nao, uma menina que, para escapar de uma realidade de sofrimento – de bullying dos colegas e de um pai desempregado e suicida –, resolve passar seus últimos dias lendo as cartas do tio-avô, um falecido piloto camicase da Segunda Guerra Mundial, e contando sobre a vida da bisavó, uma monja budista de 104 anos. O que Ruth não esperava era que o diário iria levá-la a uma viagem onde ela e Nao podem finalmente se encontrar fora do tempo e do espaço.

A trama do livro é dividida em duas linhas narrativas. Ruth é uma escritora que vive no Canadá, em uma ilha remota, e encontra um diário na praia. Já Nao é uma garota japonesa que escreve em seu diário acontecimentos da sua vida complicada. Os capítulos de Ruth estão em terceira pessoa, enquanto os de Nao são escritos em primeira pessoa. A escrita da autora é suave e cada uma das narrativas têm estilos distintos, o que reforça a sensação de se estar acompanhando histórias diferentes. Só não entendi muito bem a decisão de não traduzirem certos termos, colocando o significado praticamente literal em notas de rodapé.

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Confesso que achei só ok a história de Ruth, em um primeiro momento. O motivo disso é que a sua trama não desenvolve muito e os personagens parecem mudar pouco durante o decorrer dos fatos. Outra questão é a própria Ruth: ela é extremamente comum. De interessante, conhecemos um pouco de seu passado, vemos sua relação com sua mãe falecida e acompanhamos seu dia a dia ao lado do marido, Oliver. É curioso, também, ver como é a vida em uma ilha meio isolada da sociedade, com sua população fofoqueira e os eventuais problemas com o clima e eletricidade inconstante. É uma vida sem muita ação, mas com suas peculiaridades.

Contudo, gostei de acompanhar a investigação feita pela escritora: muitos dos itens no pacote de Nao estão em línguas que ela não entende, sendo assim ela vai aos poucos desvendando e tentando entender as informações contidas nesses objetos enquanto avança nas memórias escritas pela garota. Ela fica o tempo todo se questionando se o diário de Nao é real ou fictício e ela se empenha bastante nessa tarefa, principalmente por estar preocupada com a segurança da garota. O resultado é praticamente uma obsessão e eu me senti como se estivesse junto dela, tentando também resolver esse enigma. Por conta disso, no fim da trama, acabei me afeiçoando mais com Ruth, principalmente por seus esforços em descobrir as origens do diário.

Já a história de Nao me prendeu desde o início. O diário da garota é elaborado e muito bem escrito, parece de fato real. Além disso, me afeiçoei muito pela garota, pois ela é espirituosa e divertida, mesmo passando por problemas complicados. Sua trama explora temas complicados, como o bullying extremo no qual ela é submetida na escola e a sombra do suicídio (seja de seu pai desempregado, seja dela própria). Nao sempre está no limite por conta de tudo que ela sofre. Eu fiquei chocado com várias cenas (principalmente as de bullying) e me simpatizei com o sofrimento dela.

Mas a verdade é que você é uma mentira. É só mais uma história idiota que inventei porque estava me sentindo solitária e precisava de alguém para desabafar. Eu ainda não estava pronta para morrer e precisava de uma raison d’être. Não tem o menor motivo, mas que raiva estou sentindo de você agora! Porque até você está me abandonando. A verdade é que eu estou sozinha.

Um ponto que achei incrível é a relação de Nao com sua bisavó, Jiko. A senhora de 104 anos é uma monja budista (e também uma ativista feminista), e é uma mulher interessantíssima. Nao, em um primeiro momento, não dá muita importância à sua bisavó, mas fatos da história faz com que as duas se aproximem e a garota amadurece muito nesse período. Jiko é uma velhinha extremamente carismática, daquelas que todo mundo queria ter como avó. Gostei especialmente de sua irreverência e dos seus vários ensinamentos, sendo que a filosofia budista é abordada constantemente de maneira sutil, natural e convidativa.

O livro tem alguns outros questionamentos interessantes. O que eu mais gostei tem a ver com a suposta comunicação entre dois seres de tempos completamente diferentes — Nao acredita que seu diário é uma espécie de ligação entre o passado e o futuro, e do jeito que ela escreve fica realmente parecendo isso. Olhando com mais calma, também consegui perceber um convite à reflexão sobre o agora: este é o único momento em que temos realmente controle e é nele que devemos encontrar a felicidade. Por fim, há vários trechos nos quais fantasia e realidade se confundem, com referências a múltiplos universos, sendo bem instigante o resultado.

Finalmente, eu alcancei o meu objetivo e resolvi a minha obsessão de infância com o agora, porque é isso que o tambor faz. Quando bate no tambor você cria o AGORA, quando o silêncio vira um som tão imenso e vivo que te dá a sensação de estar inspirando as nuvens e o céu, e o seu coração é a chuva e o trovão. Jiko diz que esse é um exemplo do ser-tempo. Som e não-som. Trovão e silêncio.

Isso tudo fica ainda mais interessante quando você percebe que a Ruth da trama parece ser a própria autora, Ruth Ozeki, já que alguns detalhes (como os nomes de seu marido e de sua mãe) são os mesmos, em uma espécie de referência autobiográfica. Ozeki é também uma mestra Zen budista, o que explica a ótima abordagem do assunto na obra. Só descobri essas relações ao final da leitura e isso abre ainda mais interpretações para os pontos confusos e fantásticos da história.

Ruth Ozeki
Ruth Ozeki

A Terra Inteira e o Céu Infinito é uma história cativante. Gostei muito de acompanhar Ruth em suas investigações sobre o diário, ao mesmo tempo em que lida com a vida em uma ilha isolada. A história de Nao pode ser sombria, contudo gostei demais de sua personalidade, de como ela encara os problemas e de sua relação com a incrível Jiko. Por fim, gostei muito dos vários temas explorados nas tramas, que vão desde meditação à metafísica. A Terra Inteira e o Céu Infinito é mais um daqueles livros difíceis de largar depois que a gente começa a leitura.

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