Vocação para o Mal, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)

“Assim como as vigas de aço de um prédio são reveladas à medida que ele arde em chamas, Strike viu neste lampejo de inspiração o esqueleto do plano do assassino, reconhecendo as falhas cruciais que deixara passar — que todos deixaram passar —, mas que, enfim, podiam ser os meios de demolir o criminoso e seus esquemas macabros.” (Pág. 424)

Vocação para o Mal é meu livro favorito de Robert Galbraith. Gosto muito da série de romances policiais que J.K. Rowling está produzindo sob um pseudônimo, mas este se superou em vários aspectos. O terceiro volume tem ritmo acelerado, narrativa instigante e ótimos personagens, não queria largá-lo de jeito algum.

Quando um pacote contendo a perna decepada de uma mulher é entregue a Robin Ellacott, seu chefe, o detetive particular Cormoran Strike, suspeita de quatro pessoas de seu passado que poderiam ser capazes de tamanha brutalidade. Mas quando a polícia foca no suspeito que Strike tem cada vez mais certeza de que não é o criminoso, ele e Robin precisam correr contra o tempo para descobrir a verdade.

Vocação para o Mal é parecido com os livros anteriores (O Chamado do Cuco e O Bicho-da-Seda), entretanto ele tem algumas características que o destaca em relação aos outros dois romances. Sim, o foco ainda é Cormoran Strike tentando resolver um estranho crime, só que dessa vez o assassino claramente quer atingir o detetive. Isso muda tudo e deixa as coisas mais interessantes.

O ritmo é a característica que mais gostei nesse livro: coisas importantes acontecem já nas primeiras páginas e a narrativa vai ficando cada vez mais intensa conforme a trama se desenrola. O texto flui bem, já que Galbraith é bem claro na escrita e descreve as coisas na medida certa. Todos os personagens, inclusive os secundários e bem menores, são muito bem construídos. Há muitas cenas tensas, que me faziam não querer largar a leitura.

O detetive Cormoran Strike e sua assistente Robin Ellacott já foram apresentados anteriormente, sendo assim o autor decidiu apostar nos problemas da relação entre os dois. O principal ponto de tensão vem do fato que o assassino está atrás de Robin — e Strike, com o objetivo de protegê-la, quer ela longe do caso. Acontece que a garota acha isso um ultraje, o que gera conflitos entre a dupla. Conhecemos, também, um pouco mais do passado de Robin, o que esclarece muitas de suas motivações. Strike desenvolve pouco como personagem, o foco é claramente em Robin.

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O assassino observa Robin

Uma boa parte do romance é dedicado ao vilão, que tem sua história retratada em capítulos próprios. É muito interessante entrar na mente doentia do assassino, ver os movimentos e observar como ele reage aos movimentos de Strike. O mais legal é que o autor escreveu esses trechos de tal maneira que não entrega exatamente a identidade do assassino (somente algumas poucas dicas vagas que podem até mesmo confundir). Achei ótima a mudança de ritmo proporcionada por esses capítulos.

“Ele não conseguira limpar todo o sangue da mulher. Ficou uma linha escura, feito um parêntese, sob a unha do dedo médio da sua mão esquerda. Ele decidiu raspá-la, embora lhe agradasse muito vê-la ali: uma lembrança dos prazeres da véspera. Depois de um minuto esfregando em vão, ele pôs a unha manchada de sangue na boca e chupou. O gosto de ferro lembrava o cheiro da enxurrada esguichando desenfreada no piso frio, borrifando as paredes, ensopando seu jeans e transformando as toalhas de banho pêssego — felpudas, secas e elegantemente dobradas — em trapos encharcados de sangue.” (Pág. 9)

Gostei, também, da mudança de foco nesse romance. Uma das coisas que me incomodou muito nos volumes anteriores é que as histórias tinham informações demais: eram pessoas, locais e pistas em abundância, o que me deixava bem confuso. Além disso, era praticamente impossível saber com exatidão quem era o culpado, principalmente por conta da omissão das informações das epifanias de Strike. Em Vocação para o Mal o número de suspeitos é bem limitado e tudo é explorado com calma e atenção. O resultado é uma trama mais fácil de acompanhar, sendo que desta vez é perfeitamente possível deduzir o real culpado.

O que não gostei na obra foi a repetição da estrutura básica que o autor tem usado em sua série de romances. Tudo bem que desta vez a narrativa tem um tom diferente, mas alguns pontos me deixaram decepcionado — a conclusão truncada e pouco desenvolvida e algumas conclusões meio súbitas foram o que mais me chamaram a atenção. São defeitos pequenos que, felizmente, não atrapalham a experiência geral.

Vocação para o Mal é um ótimo romance policial. Galbraith investe na mesma fórmula, contudo as mudanças de ritmo e foco fazem com que a narrativa seja mais interessante. Gostei especialmente da trama repleta de momentos intensos e dos ótimos personagens. Vocação para o Mal é uma ótima experiência e é o meu favorito do Galbraith até o momento.

Arte: Robert Frank Hunter

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