Resenha: O Chamado de Cthulhu e Outros Contos, de H.P. Lovecraft

Vi o abismo do negro universo
Onde os astros vagueiam no escuro
Onde vagam em horror indizível,
Sem passado, presente ou futuro.

H.P. Lovecraft é um daqueles escritores que todo mundo já ouviu falar, mas que poucos realmente conhecem de fato o trabalho. Eu era um desses, até que li o conto A cor que caiu do céu — achei muito legal a atmosfera angustiante da história, que tem um leve toque de ficção científica. Sendo assim, procurei algo para conhecer mais Lovecraft e minha escolha foi a coletânea O Chamado de Cthulhu e Outros Contos. Gostei muitíssimo do que li.

O chamado de Cthulhu reúne desde as primeiras produções de Lovecraft, como Dagon até obras escritas logo antes de sua morte, como O assombro das trevas. Traz ainda o clássico O chamado de Cthulhu e A música de Erich Zann. O volume é um passeio pelo universo de um dos mestres do horror.

Sempre ouvi falar que os trabalhos de H.P. Lovecraft são do gênero horror, mas não sabia muito bem o que isso significava. Sendo assim, comecei a leitura pensando que teria medo, repulsa ou qualquer outro sentimento parecido, contudo a experiência foi bem diferente do que eu esperava.

Todos os contos têm uma atmosfera crescente de tensão. O autor vai construindo a ambientação em camadas e, pouco a pouco, a situação vai ficando cada vez mais desconfortável. As conclusões, em sua maioria, são súbitas e até mesmo um pouco truncadas, mas me surpreendi com a maioria delas. Lovecraft tem escrita rebuscada e foram vários os momentos em que precisei consultar o significado de algumas palavras. O autor também é um pouco formulático e se perde um pouco quando as tramas se estendem demais. De qualquer maneira, o ritmo é bom na maior parte do tempo.

arte-lovecraft.jpg

Gostei especialmente do foco na ambientação. Os personagens não são complexos ou interessantes, o importante mesmo é a atmosfera aterrorizante e de loucura, o medo diante o inexplicável. Lovecraft descreve muito bem as situações e lugares, mesmo quando brincando com o desconhecido ou coisas difíceis de definir, e eu conseguia me colocar ali, bem no meio daquele lugar angustiante e incerto. Não cheguei a sentir medo propriamente dito durante a leitura, contudo tive uma constante sensação mista de desconforto e curiosidade a todo momento — eu sempre queria saber o próximo fato bizarro ou incompreensível.

Naturalmente, gostei mais de alguns contos do que outros. Alguns comentários dos meus preferidos:

  • Ar frio foca em um estranho professor idoso que tem hábitos inusitados — fiquei curioso para saber o final, mesmo que no fim das contas eu tenha ficado levemente decepcionado.
  • A música de Erich Zann é tenso e desconcertante. O foco é um musicista mudo que sempre toca composições bizarras e desagradáveis, porém o protagonista acaba se sentindo estranhamente atraído por elas. A atmosfera de loucura vai crescendo aos poucos, sufocando levemente até a conclusão explosiva.
  • O modelo de Pickman, que retrata as ilustrações bizarras de um pintor, foi o conto que mais me peguei pensando depois. Arrepiei-me, literalmente, ao me lembrar de suas passagens verossímeis e da riqueza de detalhes dos relatos. O final me surpreendeu, principalmente por compartilhar dos sentimentos do protagonista. Pra mim, um dos melhores contos da coletânea.
  • O assombro das trevas me prendeu com sua complexidade. A trama é sobre um historiador que se sente atraído por uma construção estranha que ele observa de sua janela. Um dia ele decide explorar o local e lá ele encontra algo terrível e assustador. Fiquei curioso tentando entender toda a situação e gostaria de ter descoberto mais detalhes — por mais que foi justamente esse o erro do protagonista.
  • Em O chamado de Cthulhu acompanhamos um homem que investiga estranhos fatos que, aparentemente, têm ligação com um culto de adoração a um ser ancestral e caótico — justamente Cthulhu. Confesso que achei esse conto um pouco cansativo, principalmente por conta de sua longa duração. De qualquer maneira, é bem interessante e funciona muito bem como uma introdução ao universo mítico criado por Lovecraft.

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O livro fecha com com conteúdos do próprio autor. O primeiro deles é uma carta de Lovecraft na qual ele fala um pouco de sua vida, praticamente uma mini biografia. Já o segundo ele discute seu processo criativo de maneira bem interessante. Gostei muito dessas partes finais, é uma ótima maneira de conhecer um pouco mais sobre o autor.

Assim, sou ultraconservador em termos sociais, artísticos e políticos e, ao mesmo tempo, apesar dos meus 39 anos, um modernista radical em todos os assuntos científicos e filosóficos. Como amante da liberdade ilusória do mito e do sonho, entrego-me à literatura escapista; da mesma forma, como amante do passado, pinto minhas ideias com a paleta do antiquário.

O Chamado de Cthulhu e Outros Contos é uma ótima coletânea e uma boa introdução ao universo de Lovecraft. Gostei muito das histórias tensas e angustiantes, repletas de terrores ancestrais e indescritíveis.

Antes que desse por si, ele estava mais uma vez olhando em direção à pedra e deixando que aquela curiosa influência conjurasse um desfile nebuloso em sua imaginação. Viu procissões de silhuetas inumanas cobertas por mantos e capuzes e avistou quilômetros intermináveis de deserto cercado por monolitos lavrados que alcançavam o céu. Viu torres e muralhas nas profundezas noturnas sob o mar e redemoinhos siderais em que rastros de névoa sombria pairavam ante o brilho diáfano da fria neblina grená. E ainda mais adiante vislumbrou um abismo infinito de escuridão, onde vultos sólidos e semissólidos eram percebidos apenas pelas agitações do vento e forças nebulosas pareciam impor ordem ao caos e estender uma chave para todos os paradoxos e arcanos dos universos conhecidos. Então de repente o encanto foi quebrado por um surto de medo obstinado, indefinível. Sufocado, Blake afastou-se da pedra, ciente de que uma invisível presença alienígena vigiava-o de perto com terrível atenção. Ele sentiu-se ligado a algo — algo que não estava na pedra, mas que havia olhado através dela em sua direção — algo que haveria de segui-lo incansavelmente graças a uma percepção além da visão física. Sem dúvida o lugar estava irritando seus nervos — como não poderia deixar de ser em vista de um achado tão macabro. 

Artes: Francesco Francavillawattsupwiththat

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4 comentários em “Resenha: O Chamado de Cthulhu e Outros Contos, de H.P. Lovecraft”

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