Resenha: O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro

“Mas a senhora tem mesmo certeza de que deseja ficar livre dessa névoa, boa senhora? Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?”
“Pode ser que para algumas pessoas sim, padre, mas não para nós. Axl e eu queremos recuperar os momentos felizes que passamos juntos. Não lembrar deles é como se fôssemos roubados, é como se um ladrão tivesse entrado no nosso quarto à noite e levado o que nos é mais precioso.”
“No entanto, a névoa encobre todas as lembranças: tanto as boas, quanto as más. Não é verdade, senhora?”
“Nós aceitaremos as más lembranças de volta também, mesmo que elas nos façam chorar ou tremer de raiva. Afinal, elas não são a vida que compartilhamos?” (Pág 196)

Confesso que meu interesse por O Gigante Enterrado nasceu de sua bela apresentação: a capa bonita e convidativa, os detalhes brilhantes na arte e a lombada azul. A recomendação de um amigo também me fez querer ler o livro. A premissa me pareceu que a trama era uma espécie de fantasia, mas logo no começo da leitura eu percebi que era algo bem diferente do que eu esperava.

Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova – será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une?
Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, “O gigante enterrado” fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.

A descrição parece prometer uma trama fantástica, com a presença de lutas de espada, criaturas mitológicas como dragões e ogros, e magia e maldições. Bem, existe isso tudo em O Gigante Enterrado, mas não é esse o foco da trama (e pouco se parece com os trabalhos de George R. R. Martin e Tolkien, como sugere a sinopse).

axl-beatrice-01A premissa é bem curiosa: Axl e Beatrice, um casal de idosos, saem em uma viagem a fim de encontrar seu filho. Pelo caminho eles conhecem personagens inusitados, como um guerreiro saxão, um cavaleiro do rei Artur, monges e criaturas estranhas, o que faz com que sua jornada sempre mude de foco. Para piorar, esse mundo, que é uma versão alternativa da Inglaterra pós morte de Artur, está tomado por uma terrível névoa que faz as pessoas perderem a memória.

Este é o primeiro trabalho de Kazuo Ishiguro que eu tive a oportunidade de conferir, logo eu não sabia exatamente o que me esperava. Eu imaginava que o livro teria uma trama e aventura e fantasia, com ritmo intenso, mas foi justamente o contrário o que eu encontrei. A narrativa é bem lenta, de ritmo constante e sem muita alteração. Confesso que no começo eu achei tudo meio enfadonho, mas, aos poucos, eu fui me afeiçoando por esse mundo.

O que me fez querer ler mais e mais foi o casal de protagonistas. Me surpreendi ao ver que Axl e Beatrice eram idosos e, mesmo assim, decidem partir em uma viagem nada fácil. Individualmente os dois não têm personalidade marcante e parecem só simples senhores de idade, mas como casal eles funcionam muito bem. Fiquei tocado com a relação de cumplicidade e intimidade dos dois, eles sempre se esforçam para agradar um ao outro — mesmo que para isso seja necessário abandonar ou relevar certas coisas importantes. E é uma relação de puro amor: ele sempre querendo protegê-la dos possíveis perigos, ela com receio de esquecer os momentos importantes ao lado dele.

“É verdade, boa senhora, mas nós, barqueiros, já vimos tantos viajantes ao longo dos anos que não demoramos muito a perceber o que está por trás das aparências. Além disso, quanto os viajantes falam de suas lembranças mais caras, é impossível para eles ocultar a verdade. Um casal pode declarar estar unido por amos, mas nós, barqueiros, podemos ver em vez disso ressentimento, raiva e até ódio. Ou um enorme vazio. Às vezes, só o medo da solidão e mais nada. Um amor infinito, que resistiu à passagem dos anos, isso nós só encontramos raramente. E quando encontramos, temos enorme prazer em transportar o casal junto.” (Pág 57)

A trama, na verdade, trata de questões bem importantes. É uma história sobre memórias, sobre a importância delas e se realmente é bom se lembrar (ou se esquecer) das coisas. A névoa do esquecimento cria uma situação cruel, principalmente para quem a percebe. Axl e Beatrice são um forte exemplo disso: eles saem em busca de seu filho mesmo sem lembrar exatamente de como ele é, onde ele mora e se ele realmente existe. Ao tempo todo eu fiquei me perguntando, junto com os personagens, os valores das memórias e das lembranças. Há, também, o convite a reflexão sobre relacionamentos, o amor duradouro, a amizade e a confiança. No geral eu me senti bem melancólico e pensativo com a leitura — não que isso seja algo ruim.

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Fora isso, a história tem alguns mistérios interessantes, como o real passado de Axl, a origem da névoa do esquecimento e o motivo da atual situação da Inglaterra. Mesmo com o ritmo lento, eu sempre ficava ansioso por tentar descobrir a solução para esses problemas. Até há um pouco de ação, mas nada exagerado ou digno de nota, claramente o foco é realmente a ambientação e as questões levantadas. No final das contas, percebi que a fantasia, aqui, serve somente para ajudar na construção do universo e das situações — o mundo, inclusive, é bem sombrio e repleto de nuances tensas.

O que mais me incomodou, em um primeiro momento, foi o ritmo lento. Não que eu ache completamente ruim isso (rapidamente me adaptei), mas tive a sensação que a todo momento o autor flerta com a possibilidade de mostrar algo mais intenso, só que isso nunca acontecia — fiquei levemente irritado com isso. Outro ponto são alguns trechos confusos, nos quais Ishiguro primeiro mostra um fato completamente novo e vai, aos poucos, explicando como chegou naquele ponto, intercalando tempos distintos sem indicação clara.

Algo digno de nota é o cuidado da editora na hora de produzir o volume. O livro conta com uma capa muito bela, que tem trechos brilhantes e uma textura diferenciada. A lombada é toda azul, do mesmo tom da capa. O resultado disso tudo é um livro muito bonito e convidativo.

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O Gigante Enterrado é uma aventura melancólica, que convida a refletir sobre temas importantes. O ritmo é lento, mas gostei muito de acompanhar a jornada de Axl e Beatrice por uma Inglaterra sombria. Há, sim, um pouco de fantasia, mas sua presença é bem reduzida e não é o foco. O Gigante Enterrado é uma ótima e instigante leitura.

“Mas ao mesmo tempo eu me pergunto se o que sentimos no nosso coração hoje não é como esses pingos de chuva que ainda continuam caindo em cima de nós das folhas encharcadas da árvore, apesar de a chuva em si já ter parado de cair faz tempo. Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer.”
“Deus não permitiria uma coisa dessas, princesa.” Axl disse isso bem baixinho, quase sussurrando, pois ele próprio tinha sentido um medo obscuro invadi-lo. (Pág. 59)

Artes: Robert Frank HunterRobert Ball

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