Mistborn: O Império Final, de Brandon Sanderson

De algum modo, a sala pareceu ficar mais silenciosa. Mais tranquila. Vin encarou sua caneca com olhos distraídos e incomodados. Nascida da Bruma. Ela tinha ouvido as histórias, é claro. As lendas.
Kelsier e Dockson sentavam-se em silêncio, deixando-a pensar. Finalmente, ela falou.
– Então… o que tudo isso significa?
Kelsier sorriu.
– Significa que você, Vin, é uma pessoa muito especial. Você tem um poder que muitos altos nobres invejam. Um poder que, se você tivesse nascido aristocrata, a tornaria uma das pessoas mais letais e influentes do Império Final.
Kelsier inclinou-se para frente novamente.
– Mas, você não nasceu aristocrata, Vin. Não é nobre. Não tem que jogar sob as regras deles… e isso a torna ainda mais poderosa.

Eu não sabia ao certo o que esperar de Mistborn: O Império Final. As únicas coisas que eu sabia do livro é que ele era de fantasia de ficção, gênero que gosto muito, e que era o primeiro volume de uma série popular. O Império Final me surpreendeu muito com seu mundo, personagens e trama interessantes.

O que acontece se o herói da profecia falhar? Descubra em Mistborn! Certa vez, um herói apareceu para salvar o mundo. Um jovem com uma herança misteriosa, que desafiou corajosamente a escuridão que sufocava a Terra. Ele falhou. Desde então, há mil anos, o mundo é um deserto de cinzas e brumas, governado por um imperador imortal conhecido como Senhor Soberano. Todas as revoltas contra ele falharam miseravelmente. Nessa sociedade onde as pessoas são divididas em nobres e skaa – classe social inferior –, Kelsier, um ladrão bastardo, se torna a única pessoa a sobreviver e escapar da prisão brutal do Senhor Soberano, onde ele descobriu ter os poderes alomânticos de um Nascido da Bruma – uma magia misteriosa e proibida. Agora, Kelsier planeja o seu ataque mais ousado: invadir o centro do palácio para descobrir o segredo do poder do Senhor Soberano e destruí-lo. Para ter sucesso, Kel vai depender também da determinação de uma heroína improvável, uma menina de rua que precisa aprender a confiar em novos amigos e dominar seus poderes.

Com tantas histórias de fantasia, é difícil se destacar — são inúmeras as tramas repletas de magia e mundos muito parecidos entre si. A sinopse de Mistborn parece se encaixar no clichê do gênero (um povo oprimido, uma magia perdida, os heróis que se rebelam), mas, felizmente, foge um pouco disso e tem algumas características bem únicas e legais.

Gostei muito do universo de Mistborn. A trama se passa em uma região chamada de Império Final, dominada pelo Senhor Soberano — um tirano supostamente imortal, praticamente um deus. O mundo se parece com o nosso, mas uma calamidade no passado mudou as coisas: o sol tornou-se vermelho, o verde desapareceu, chovem cinzas constantemente e uma bruma misteriosa aparece todas as noites. A sociedade se organiza em nobres e skaa (escravos), sendo que os bem nascidos dominam a classe social inferior. Existe também um governo opressor, com figuras sinistras, como os Obrigadores e Inquisitores, ao comando do Senhor Soberano. É um mundo complexo e misterioso, sendo explorado na medida certa no decorrer da história. Fiquei curioso, especialmente, com a mitologia desse universo e como o mundo chegou nesse estado — essas questões devem ser esclarecidas nos volumes futuros.

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Kelsier se lançando no ar e enfrentando Inquisitores

O mais legal em Mistborn é o principal tipo de magia, chamado de alomancia. Os que possuem essa arte são capazes de consumir metais para ativar habilidades especiais. Cada metal confere um poder: peltre melhora as capacidades físicas, ferro permite empurrar metais, zinco confere a habilidade de influenciar as emoções de outras pessoas, entre outros exemplos. Os usuários de alomancia são divididos entre Brumosos (conseguem utilizar somente um único tipo de metal) e Nascidos da Bruma (têm acesso a todos os poderes dos metais). O resultado é um sistema criativo, que dá espaço para muitas situações interessantes. As cenas de ação envolvendo alomancia são especialmente impressionantes: os personagens se lançam pelo ar, usam moedas e outros metais como projéteis e lutam incrivelmente com os sentidos melhorados. Em alguns momentos as coisas ficam meio difíceis de entender, mas no geral são cenas bem divertidas e intensas.

Vin empurrou contra a moeda e se lançou na bruma. Ela saiu voando, afastando-se da terra e das pedras, elevando-se através das escuras correntes do céu, com o vento agitando sua capa.
Isso é liberdade, pensou, respirando profundamente o ar frio e úmido. Ela fechou os olhos, sentindo o vento que passava. É disso que sempre senti falta, ainda que não soubesse.
Abriu os olhos e começou a descer. Esperou até o último momento e jogou uma moeda. Quando a moeda acertou o chão de paralelepípedos, Vin empurrou contra ela levemente, reduzindo a velocidade de sua descida. Queimou peltre com um lampejo e alcançou o chão, disparando pelas tranquilas ruas de Fellise. (…)
Ela atirou uma moeda para trás e a usou para se empurrar levemente para cima e para a direita. Aterrissou em um muro baixo de pedras, quase sem perder o passo enquanto corria ao longo do topo do muro. Queimar peltre melhorava mais do que seus músculos – aumentava todas as habilidades físicas de seu corpo. Mantendo a queima do peltre baixa ela tinha uma sensação de equilíbrio que qualquer arrombador noturno teria invejado.

O núcleo da narrativa também tenta ser um pouco diferente. Acompanhamos o Nascido da Bruma Kelsier, que junta uma gangue para tentar derrubar o Império Final. Eles buscam uma espécie de “bem maior”, mas isso não quer dizer que eles são exatamente nobres: o grupo utiliza muito trapaça, espionagem, assassinato e outros recursos para alcançar seus objetivos. As personalidades dos membros da equipe são bem diversas, o que cria interações bem legais entre eles.

Gostei, especialmente, dos protagonistas da trama. Kelsier é carismático, inconsequente e divertido, mas isso não muda o fato de que ele é capaz de matar facilmente e instaurar o caos, caso seja necessário. Por ser um Nascido da Brumas habilidoso, é também o centro de muitas das ótimas cenas de ação do livro. O curioso é que nem sempre é possível entender suas ações, mesmo as acompanhando de perto. O resultado são cenas surpreendentes mais na frente, além de uma sensação de mistério por não poder compreender completamente Kelsier. É o tipo de personagem difícil de não gostar.

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a Nascida da Bruma Vin

Já Vin era uma ladra de rua, membro de uma gangue horrível, vitima de maus tratos e humilhação. Ela é recrutada por Kelsier e descobre que também é uma Nascida da Bruma, o que muda completamente sua vida. A garota é uma personagem forte e se desenvolve muito durante a trama: passa de uma jovem ladra desconfiada e azeda para uma alomântica poderosa, ousada e compassiva. Gostei também da relação dela com Kelsier, já que o jovem ladrão é um misto de pai e mentor para ela (o que gera alguns conflitos). Confesso que no começo a achei muito irritante, mas com o tempo ela foi se tornando minha personagem favorita.

Sentia frio nas brumas, na escuridão silenciosa. As brumas lhe davam poder, a protegiam, a escondiam… mesmo quando, na realidade, não queria nenhuma das três coisas.

Todas essas características seriam inúteis caso a narrativa fosse ruim — felizmente esse não é o caso de O Império Final. A escrita de Sanderson é clara e flui bem, não tive problemas para entender as cenas e detalhes da narrativa. O autor também consegue trabalhar bem o mundo e o sistema de magia, explicando (e ocultando) os detalhes certos. A trama tem várias reviravoltas, que me fizeram querer sempre ler mais e mais. O defeito fica por conta de alguns problemas de ritmo: o meio da história tem algumas partes lentas, enquanto no final tudo fica um pouco corrido. Ainda sobre o final, não gostei muito de algumas conclusões tiradas quase que do nada, um recurso para tentar amenizar uma espécie de deus ex machina — parece que os heróis têm uma “iluminação” repentina. Claro, também há clichês como “a garota miserável que se torna especial” e “o romance entre classes sociais diferentes”, contudo não cheguei a ficar completamente incomodado com isso. No geral é uma leitura bem agradável.

Mistborn: O Império Final é um livro de fantasia com características bem únicas, o que o torna bem divertido e envolvente. Gostei muito do sistema de magia, do universo e dos personagens. As cenas de ação também são ótimas, graças à alomancia. Tem uns probleminhas de ritmo e uns defeitos no final, mas isso pouco atrapalha a experiência. Mistborn já é uma das minhas séries de fantasia favoritas e com certeza quero ler os livros seguintes.

Kelsier deixou seu estanho aceso – que queimava lentamente, e ele provavelmente não teria que se preocupar que acabasse. Ao se levantar, as brumas se enroscaram levemente em seu corpo. Girando e se retorcendo, formando uma correnteza leve e escassamente perceptível em torno dele. As brumas o conheciam; o reclamavam. Podiam sentir a alomancia.

Artes: Deviantart e Tumblr

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2 comentários em “Mistborn: O Império Final, de Brandon Sanderson”

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