Resenha: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

“Ginika, vê lá se vai conseguir conversar com a gente quando voltar”, disse Priye. “Ela vai voltar uma tremenda americanah, que nem a Bisi”, disse Ranyinudo. Todas urraram de rir com a palavra americanah, enfestoada de alegria com sua quinta sílaba estendida, e ao pensar em Bisi, uma menina um ano abaixo delas que voltara de uma breve viagem aos Estados Unidos com estranhas afetações, fingindo que não entendia mais ioruba e acrescentando um erre arrastado a todas as palavras em inglês que falava.

Fantasia sempre foi meu gênero de ficção favorito. Com o passar dos anos, fui expandindo meus horizontes, sem nunca deixar de ler muitos títulos de fantasia. Americanah é uma obra que eu nunca pensaria em ler por conta de sua temática inusitada e a reflexão proposta. Foi uma recomendação de um amigo e já considero uma das minhas melhores leituras desse ano.

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero.

Em um primeiro momento, pensei que Americanah era só mais um romance de ficção — afinal é um relato sobre a nigeriana Ifemelu desde sua infância. Mas, pouco a pouco, isso foi mudando e fui gostando cada vez mais da trama. A narrativa não é linear: em um momento vemos Ifemelu já adulta nos Estados Unidos; em outro acompanhamos sua vida escolar em Lagos, na Nigéria. Em alguns capítulos o foco é Obinze, o primeiro amor da protagonista, mas a maior parte da história se concentra em Ifemelu. A escrita da autora é fluida, leve e natural, a leitura foi bem agradável. É incrível, também, conhecer um pouco da literatura africana: a autora Chimamanda Ngozi Adichie é nigeriana.

O primeiro ponto interessante são as localidades da história. Boa parte da vida de Ifemelu se passa na Nigéria, um país que eu mal conhecia e que é pouco abordado na ficção no geral. Fiquei especialmente perplexo de perceber que a Nigéria parece ser um país muito parecido com o Brasil, mesmo com seus costumes únicos — fiquei o tempo todo fazendo paralelos. Mas tudo muda quando o foco passa a ser os Estados Unidos: temas como racismo, desigualdade de gênero e complicações de imigrantes são abordados o tempo todo.

“A melhor coisa dos Estados Unidos é o espaço que o país nos dá. Gosto disso. Gosto do fato de acreditar no sonho. É uma mentira, mas você acredita e é tudo o que importa.”

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Chimamanda Ngozi Adichie, a autora

A característica que mais gostei em Americanah foi Ifemelu. A protagonista tem personalidade forte, é desbocada, independente, segura de si e não tem medo de enfrentar os outros. Ela é, também, sensível, volátil, emotiva. Essa combinação de características faz com que ela seja bem verossímel, bem fácil de se relacionar e se identificar. Durante a história ela muda e amadurece, é bem legal acompanhar essa evolução. O mais curioso é que a história de Ifemelu se parece demais com a vida da autora Chimamanda Ngozi Adichie: ela também saiu da Nigéria para ir estudar nos Estados Unidos — será que há toques auto biográficos? O outro personagem importante é Obinze, o par romântico de Ifemelu e protagonista de alguns capítulos. São partes que achei boas, mas não tão intensas quanto os trechos da protagonista, provavelmente por conta da personalidade apática de Obinze.

O grande destaque de Americanah são os temas discutidos na história e as críticas sociais. O primeiro deles é a questão dos imigrantes: aparentemente, há uma cultura muito forte de imigração na Nigéria, sendo os principais destinos os Estados Unidos e o Reino Unido. Ifemelu vai para os EUA e assim que ela chega lá dá de cara com o culture shock, ou seja, a grande diferença cultural entre sua terra natal e sua nova morada. A autora consegue retratar muito bem todo esse processo e sempre fiquei curioso em como Ifemelu iria reagir aos desafios. O mais legal é que também é abordado o caminho inverso: o que acontece quando uma pessoa volta para seu país natal depois de tantos anos morando no exterior? É mais uma vez um choque e até eu me surpreendi com minha mudança de opinião durante a história — achava Lagos um lugar até agradável no começo do livro, mas lá pro final, depois de tantos trechos nos Estados Unidos, já tinha uma opinião completamente diferente.

O outro tema interessante tem a ver com a questão racial nos Estados Unidos. Ifemelu passa por inúmeras situações complicadas e tensas por conta de ser negra (e mulher e estrangeira), mas ela não se deixa abalar (ok, ela é humana e entra em colapso em alguns momentos, mas nunca desiste). As observações dela, tanto nos diálogos quanto nos posts de seu blog, são ácidas e realmente são um convite para a reflexão. Tudo é abordado tão bem que eu consegui adaptar facilmente para a realidade brasileira — seria muito possível que Ifemelu passasse pelas mesmas situações (ou piores) caso tivesse vindo para o Brasil. Também achei muito interessante a questão do preconceito entre negros: pelo menos na história, existe preconceito entre os “negros americanos” e “negros africanos”.

“O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso. Nem falamos com nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando ou que nos ofendemos com facilidade demais. E não queremos que diga: ‘Olhe como evoluímos, há apenas quarenta anos seria ilegal sermos um casal’, porque sabe o que a gente está pensando quando ele diz isso? Por que foi ilegal um dia, porra? Mas não dizemos nada disso. Deixamos que se acumule dentro da nossa cabeça, e quando vamos a jantares de gente liberal e legal como este, dizemos que a raça não importa porque é isso que se espera que digamos, para manter nossos amigos liberais e legais confortáveis. É verdade. Estou falando porque já vivi isso.”

Tenho poucas reclamações sobre Americanah. A principal delas tem mais a ver com as partes finais, que explora mais o romance de Ifemelu e Obinze — são trechos meio enfadonhos. Também não gostei de algumas passagens que não adicionam muito à trama e ao desenvolvimento de personagens.

Americanah é um ótimo livro. Gostei muito de conhecer um pouco da Nigéria e seus habitantes e costumes. Ifemelu, com sua personalidade forte, é uma personagem cativante e é o que mais gostei na obra. As questões de imigrantes e preconceito de raça são abordadas de ótima maneira e são um bom convite para a reflexão. Americanah é uma excelente leitura para quem procura um romance de ficção instigante.

Só depois de desligar Ifemelu começou a sentir a mácula de uma vergonha crescente se espalhando sobre ela, por ter agradecido ao rapaz, por ter transformado as palavras dele, “Você parece uma americana falando”, numa guirlanda que pôs em volta do próprio pescoço. Por que era um elogio, uma realização, soar como um americano? Ifemelu tinha ganhado; Cristina Tomas, a branca Cristina Tomas sob cujo olhar se encolhera como um pequeno animal derrotado, falaria normalmente com ela agora. Tinha ganhado de fato, mas seu triunfo era vazio. Sua vitória efêmera havia criado um enorme espaço oco, porque ela assumira, por tempo demais, um tom de voz e uma maneira de ser que não eram seus. Assim, ela acabou de comer os ovos e decidiu parar de fingir que tinha sotaque americano. Falou pela primeira vez sem o sotaque americano naquela tarde na estação da rua 13, inclinando-se na direção da mulher atrás do balcão da Amtrak.

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