Resenha: Duna, de Frank Herbert

Ele pegou o hidrotubo de seu trajestilador, que ficava preso junto ao pescoço, molhou a boca com um gole de água morna e pensou que ali começava sua verdadeira vida arrakina: sobrevivendo da umidade reaproveitada de seu corpo e de sua respiração. A água era insipida e insossa, mas aliviou-lhe a garganta.
Jéssica ouviu Paul beber a água, sentiu a oleosidade de seu próprio trajestilador, que aderia a seu corpo, mas se recusou a admitir a sede. Para admiti-la, seria preciso abrir totalmente os olhos e enxergar as necessidades terríveis de Arrakis, onde era forçoso conservar até mesmo pequenas frações de umidade, guardar as poucas gotas nas bolsas coletoras da tenda, relutar em desperdiçar uma exalação em campo aberto.
Era tão mais fácil voltar a dormir. (Pág. 212)

Sempre ouvi coisas positivas sobre a série Duna, vivem dizendo que é incrível e importante para a ficção científica, mas nunca liguei de conhecer seus livros. Recentemente tive a oportunidade de ler o primeiro volume da franquia, sem nem saber direito do que se tratava, e a experiência foi muito boa. Ao fim da leitura, Duna tornou-se um dos meus livros favoritos de todos os tempos.

A vida do jovem Paul Atreides está prestes a mudar radicalmente. Após a visita de uma mulher misteriosa, ele é obrigado a deixar seu planeta natal para sobreviver ao ambiente árido e severo de Arrakis, o Planeta Deserto. Envolvido numa intrincada teia política e religiosa, Paul divide-se entre as obrigações de herdeiro e seu treinamento nas doutrinas secretas de uma antiga irmandade, que vê nele a esperança de realização de um plano urdido há séculos. Ecos de profecias ancestrais também o cercam entre os nativos de Arrakis. Seria ele o eleito que tornaria viáveis seus sonhos e planos ocultos?

Ler Duna, em um primeiro momento, foi uma experiência confusa. O motivo disso é que somos jogados nesse universo sem explicação alguma. O início da trama é repleto de termos estranhos e fiquei o tempo todo tentando entender o que era uma Bene Gesserit ou um Mentat. Contudo, pouco a pouco, fui me familiarizando com a ambientação e personagens e fui gostando cada vez mais.

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Arrakis

O foco da história é Paul, o membro da casa maior Atreides. Seu pai, o duque Leto, recebe um presente do imperador padixá: um feudo, que se trata do planeta Arrakis. O lugar é repleto de desertos e difícil de habitar, mas ele é estrategicamente importante para o Imperium por ser o único lugar a ter a valiosa especiaria melánge — uma substância, comercializada em todo o universo, capaz de prolongar a vida, entre outras características benéficas. Acontece que tudo isso não passava de uma armadilha para enfraquecer a influência da casa Atreides e Paul acaba sendo um dos poucos sobreviventes de um ataque feito por uma casa rival. Sendo assim, o rapaz vai procurar sobreviver nesse ambiente complicado, ao mesmo tempo em que reúne forças para tentar retomar o que é seu por direito.

Paul é o típico protagonista paladino: justo, bondoso, leal e que se importa com seus companheiros. Entretanto, ele muda muito em face das adversidades dos desertos de Arrakis e se torna uma pessoa bem diferente — gostei de ver sua mudança durante o decorrer da trama. Outra personagem importante é Jéssica, a mãe de Paul. Ela é membro das Bene Gesserit, uma irmandade que passa por treinamento especial, o que a confere algumas habilidades únicas. Confesso que a achei meio irritante e prepotente em um primeiro momento, mas pouco a pouco fui entendendo seus motivos. Temos também os fremen, o povo do deserto: eles conseguem sobreviver nesse ambiente hostil com muita disciplina e criatividade. No geral os personagens são um pouco estereotipados, mas é muito fácil se apegar a eles por conta de suas personalidades marcantes e as várias adversidades que eles enfrentam.

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O que mais gostei em Duna foi o universo muito bem construído, com uma trama que se passa em um futuro distante e de características conflitantes. De um lado, a tecnologia evoluiu ao ponto da humanidade conseguir dominar a viagem interestelar, o que possibilitou a habitação de vários planetas. Por outro lado, houve regressão: por algum motivo inexplicado, computadores e inteligência artificial foram banidos e a sociedade reassumiu a organização feudal, com direito a um imperador, títulos e casas. Existe, também, a presença forte da religião, intimamente ligada à política. No fim das contas, praticamente todos os fatos da trama têm motivos políticos por trás — traição, manipulação e falsidade são constantes. É tudo muito interessante, mergulhei completamente nessa rede de intrigas e complicações.

Ela citara um provérbio das Bene Gesserit:
-“Quando a religião e a política viajam no mesmo carro, os condutores acreditam que nada é capaz de ficar em seu caminho. Seu movimento torna-se impetuoso, cada vez mais rápido. Deixam de pensar nos obstáculos e esquecem que o precipício só se mostra ao homem em desabalada carreira quando já é tarde demais.” (Pág 392)

O planeta desértico Arrakis e seus habitantes me encantaram. O autor construiu um local intrigante e de cultura forte. O lugar tem tudo para ser inabitável (imensos monstros nas dunas, ausência de água, tempestades de areia constantes), mas, mesmo assim, as pessoas conseguem viver ali com certa prosperidade — principalmente os fremen, o povo do deserto. O motivo disso é o uso de trajestiladores, roupas especiais que permitem reaproveitar a água do corpo. Na verdade toda a cultura do planeta gira em torno da conservação da umidade, que conta com hábitos e costumes associados a isso. Outra característica marcante é que os habitantes do lugar têm olhos completamente azuis, resultado de uma dieta rica em especiaria melánge. A combinação de tudo isso tem como resultado um mundo interessante, verossímil e palpável.

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Fremen, o povo do deserto

Algo interessante é o uso do misticismo e de outros recursos parecidos. Enquanto muitas obras usam clarevidência e outras técnicas similares para tentar explicar detalhes da trama de forma preguiçosa, Herbet usou isso a seu favor de maneira inteligente. Em Duna, esses dons trazem mais dúvidas do que respostas — sempre fiquei curioso querendo saber como os personagens iriam resolver os possíveis conflitos que apareciam nas visões.

Nada naquele planeta tinha incutido nela com tanta força o valor supremo da água. Nem os vendedores de água, nem as peles ressequidas dos nativos, nem os trajestiladores e as regras da hidrodisciplina. Eis que ali se apresentava uma substância mais preciosa que todas as outras: era a própria vida e enredava tudo a seu redor com simbolismo e cerimônia.
Água. (Pág 324)

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Existem alguns pontos que me desagradaram um pouco. O primeiro deles é o ritmo da narrativa, que é um pouco lento em alguns momentos. Outra questão tem a ver com algumas informações truncadas e termos confusos — só fui entender exatamente certas questões importantes lá pro final da trama, algumas não completamente. Essa edição conta com um glossário que ajuda na compreensão de alguns termos, mas ele não é suficiente para entender tudo — alguns termos e denominações eu só entendi completamente depois de pesquisar um pouco.

O melhor é que Duna é só o começo de uma série que em 2016 terá 19 obras divididas em sequências e prequelas que exploram e expandem mais características desse universo. O autor Frank Herbet já faleceu, mas seu filho Brian Herbert continuou a franquia — já quero ler tudo. De qualquer maneira, a trama nesse primeiro volume é bem contida e termina sem pontas soltas.

Duna é uma experiência fascinante. Adorei conhecer esse universo bem construído e repleto de características e personagens interessantes. A mistura de política, religião, misticismo e ficção cientifica funciona muito bem, o que me fez sempre querer saber o que ia acontecer em seguida. Em alguns momentos a narrativa é um pouco lenta e confusa, mas isso pouco atrapalhou a experiência. Duna é uma ótima leitura para quem gosta de ficção rica e imersiva.

Viemos de Caladan, um mundo paradisíaco para nossa forma de vida. Não havia em Caladan a necessidade de criar um paraíso físico, nem um paraíso mental: víamos a realidade ao nosso redor. E o preço que pagamos foi o preço que os homens sempre pagam ao alcançar o paraíso nesta vida: ficamos moles, perdemos nossa fibra. (Pág 264)

deserto

Artes: Mark Molnar e Conceptart World

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2 comentários em “Resenha: Duna, de Frank Herbert”

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