Resenha: O Círculo, de Dave Eggers

Num momento de repentina lucidez, ocorreu a Mae que o que sempre havia provocado sua ansiedade, ou estresse, ou preocupação, não era alguma força isolada, nada de independete e exterior — não era o perigo a que ela mesma estava sujeita nem a constante calamidade que rondava outras pessas e os problemas dela. Era algo interno: era subjetivo: era não saber. (…) Se ela soubesse, haveria calma. (Pág. 210)

Quando foi lançado, O Círculo fez muito barulho. Lembro-me perfeitamente de todos os cantos recomendando o livro, dizendo que ele era uma espécie de “1984 moderno” por conta de sua trama centrada em uma sociedade na qual as redes sociais são extremamente fortes. Foi justamente isso que me motivou a ler esse livro e, mesmo sendo muito interessante, a experiência foi um pouco diferente do esperado.

Nesta fábula distópica sobre um futuro muito próximo, Dave Eggers imagina uma poderosa empresa de tecnologia e as consequências de um mundo em que as informações são cada vez mais vigiadas.

O romance conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: O Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência.

Mae mal pode acreditar na sorte de fazer parte de um lugar assim. A modernidade do Círculo aparece tanto na sua arquitetura arrojada quanto nos escritórios aprazíveis e convidativos. Os entusiasmados membros da empresa convivem no campus também nas horas vagas, seja em festas e shows que duram a noite toda ou em campeonatos esportivos e brunches glamorosos.

A vida fora do trabalho, porém, vai ficando cada vez mais esquecida, à medida que o papel de Mae no Círculo torna-se mais e mais importante. O que começa como a trajetória entusiasmada da ambição e do idealismo de uma mulher logo se transforma em uma eletrizante trama de suspense que levanta questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.

Ler O Círculo foi uma experiência conflitante. Achei ótima a ambientação e a crítica afiada, mas sofri para engolir a narrativa fraca e os personagens horríveis.

A parte mais legal do livro é a ideia central. Nesse futuro, que pode estar mais próximo que imaginamos, existe um sistema unificado na internet que usa seus dados pessoais e reais. Com uma única identidade em uma rede social, é possível fazer tudo na rede de maneira fácil e simples. Além disso, por tudo estar em um único perfil, é muito fácil rastrear qualquer informação ou remontar passos e ações de uma pessoa. A empresa idealizadora desse projeto é O Círculo, que é claramente inspirada na Google: a instituição é inovadora e tem como objetivo utilizar a tecnologia para conectar tudo e todos, assim como organizar toda a informação disponível no mundo. Além disso, aparentemente, é a melhor empresa para se trabalhar em todo o mundo.

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Eu fiquei surpreso e abismado com as passagens do livro. O motivo disso é que nesse futuro as pessoas simplesmente abriram mão de boa parte de sua privacidade em prol de certas facilidades em suas vidas — todo mundo acha natural participar disso. O Círculo se aproveita disso para crescer ainda mais: a empresa utiliza todas as informações coletadas para criar novos produtos, ao mesmo tempo que bola meios de saber ainda mais sobre todo mundo. Conforme a história avança, a instituição expande sua área de influência, mudando a cultura e diminuindo ainda mais a privacidade das pessoas. Chega um ponto que ter um perfil na rede social é praticamente obrigatório e necessário. O mais assustador é que os argumentos utilizados pelos seus idealizadores para registrar e vigiar todos são bem convincentes e plausíveis.

A questão não é que eu não seja social. Sou social o bastante. Mas as ferramentas que vocês inventam na verdade fabricam de modo artificial necessidades sociais excessivas. Ninguém precisa do nível de contato que vocês fornecem. Ele não serve para aprimorar nada. Ele não nutre ninguém. (…) É isso que vocês estão empurrando. A mesma coisa. Infinitas calorias vazias, mas o equivalente na forma sociodigital. E vocês calibram as doses para que o negócio fique igualmente viciante. (Pág. 146)

Também achei muito apropriada a crítica sobre como algumas instituições funcionam. O Círculo é uma empresa visionária, na qual “pessoas, não engrenagens” trabalham em projetos. Sendo assim, a sede da instituição é toda bem pensada: ela é localizada em um grande espaço e oferece vantagens como academias, restaurantes, lojas e até mesmo dormitórios para seus funcionários — uma clara referência ao Google e ao Facebook. Acontece que, nesse caso, é exigido um nível assustador de comprometimento dos colaboradores, que assumem novas tarefas sempre que podem para poder crescer dentro da empresa. Mae, por exemplo, começa trabalhando com um simples tablet, mas, pouco a pouco, vai recebendo telas e mais telas nas quais ela precisa monitorar simultaneamente o tempo todo. Além disso, os funcionários precisam ser ativos na rede social e precisam participar de festas e ventos que ocorrem todos os dias no “campus” da empresa. Chega um momento que as pessoas lá simplesmente passam a morar na sede e sua vida se resume ao trabalho, fato parecido com nossa realidade, em nível mais baixo.

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Um momento em especial me fez refletir muito. Em determinado ponto da história, O Círculo apresenta um novo projeto para seus funcionários, um aplicativo de paquera que basta colocar o nome da pessoa desejada que inúmeras preferências e informações do indivíduo aparecem, como restaurantes preferidos e até mesmo possíveis alergias. A protagonista Mae é usada como cobaia e vê posts e fotos, que ela nem se lembrava da existência, serem utilizados para montar um perfil que supostamente representa ela. Ela fica claramente incomodada de ter sido exposta desse jeito, mas pouco a pouco ela também passa a achar isso natural. Me perguntei se algum dia chegaremos a esse ponto e também pensei em como atualmente muitos compartilham informações e opiniões sem critério algum, sem imaginar como empresas como Google e Facebook utilizam tudo isso.

Portanto o que a havia humilhado tanto durante a apresentação de Gus? Mae não conseguia identificar o motivo. Teria sido apenas a surpresa? Teria sido a exatidão minuciosa dos algoritmos? Talvez. Mas, novamente, o resultado não tinha sido tão exato assim, portanto qual era o problema? Ter uma matriz de preferências que tinha sido apresentada como se fosse sua essência, o todo de sua pessoa? Talvez fosse aquilo. Era uma espécie de espelho, mas era incompleto, distorcido. E se Francis tinha algumas ou todas aquelas informações, por que não podia simplesmente perguntar para ela? (Pág. 137-138)

O mais curioso é que quanto mais os personagens se conectam com o mundo e com os outros por meio dessas ferramentas sociais, mais sozinhos eles parecem. Para preencher o vazio, eles tentam se conectar com mais pessoas ainda, participar mais, mas o buraco só aumenta. É muito triste perceber que isso é muito comum na sociedade contemporânea.circulo-ilustracao.jpg

Enquanto a crítica e ambientação são afiadas, os personagens e narrativas são bem fracos. Mae, a protagonista da trama, é apática e sem personalidade. Ela simplesmente é obcecada em manter seu emprego nO Círculo, nem que para isso seja necessário fazer trocentas tarefas simultaneamente ou perder o contato com a família. A garota parece não ter um pingo de inteligência, motivação ou senso crítico e simplesmente faz o que é mandada sem ser questionada. Chegou um momento que eu simplesmente parei de me importar com ela. Depois, pensei em uma maneira alternativa de interpretá-la: Mae representa uma pessoa que é arrastada por esse mundo das redes sociais e que não importa em ser privada de sua privacidade (e até mesmo sanidade) para ser reconhecida. Os personagens coadjuvantes são representação de estereótipos e são bem rasos.

SEGREDOS SÃO MENTIRAS
COMPARTILHAR É CUIDAR
PRIVACIDADE É ROUBO (Pág. 323)

Já o problema da narrativa é que ela é simples demais, beirando o infantil em alguns momentos por conta de explicações óbvias. O livro é repleto de trechos que não adicionam nada à trama, como repetidas partes enfadonhas nas quais o trabalho de Mae é relatado com detalhes, parece que o autor só inventou esses trechos para dar volume. Particularmente acredito que o livro seria bem mais agradável se ele fosse mais conciso. Eggers tenta também criar uma espécie de mistério, mas falha miseravelmente: no final ele dá uma solução preguiçosa e sem graça.circulo-ilustracao-2.jpg

O Círculo tem uma temática ótima, mas sua narrativa e personagens deixam a desejar. O livro faz a gente pensar nossa relação com a tecnologia, redes sociais e como compartilhamos nossas informações na internet. As situações da trama podem parecer um pouco absurdas, mas todas perfeitamente possíveis — o que é muito assustador. Os personagens rasos e a narrativa simples podem afastar alguns. De qualquer maneira, O Círculo é uma leitura bem instigante.

Não somos feitos para saber tudo, Mae. Alguma vez você já pensou que nossa mente foi sutilmente calibrada entre o conhecido e o desconhecido? Que nossas almas precisam dos mistérios da noite e da claridade do dia? Vocês aí estão criando um mundo de eterna luz e acho que isso vai acabar nos queimando vivos. (Pág. 456-457)

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2 comentários em “Resenha: O Círculo, de Dave Eggers”

  1. Farley, excelente resenha!

    Como já conversamos antes, não tenho muito o que acrescentar agora. Repito apenas que suas opiniões sobre este livro coincidem muito com as minhas.

    De certa forma me sinto um pouco mal por ter abandonado a leitura no meio do caminho, mas na época isso pareceu a coisa mais prática a ser feita, principalmente porque eu tinha vários outros livros na fila e não queria atrasá-los.

    Mas, sim, muito embora a narrativa seja fraca, reconheço que o romance tem sua mensagem válida e que algumas passagens são de fato muito boas. Lembro de uma em especial que perdura até então na minha cabeça: logo no início, Mae aluga um caiaque e rema até o centro de uma grande baía, onde se deixa relaxar apreciando as montanhas e com o sol forte batendo no seu rosto. Nessa ocasião, se não me engano, ela encontra uma foca e começa a pensar sobre o anonimato da vida submarina, com aquelas milhares de espécies que se cruzam na escuridão dos oceanos. Foi uma passagem gostosa de ler.

    Lendo sua resenha, me ocorreu também que Mae pode não ser uma personagem ruim – no sentido de mal elaborada -, mas apenas uma personagem com a qual não nos identificamos. Acontece e, quando acontece, é chato, mas isso não necessariamente tira a qualidade do livro. E você foi certeiro quando passou a interpretar Mae como uma pessoa fraca, sem senso crítico e desprovida de atitude. É isso aí, é preciso darmos um sentido – construir um significado – para as personagens que não nos descem! rs

    Parabéns pela crítica, é isso aí.

    Estou esperando dos correios ‘O Rio Inferior’, do Paul Theroux. É um autor que li há muitos anos e do qual nem gosto muito, mas este em especial parece interessante. Vamos conferir.

    Grande abraço!

    1. Poisé, acabou que essa resenha ficou um pouco maior o que eu esperava, sendo que nem consegui falar tudo o que queria falar — principalmente pelo fato de que são coisas que é melhor discutir com quem leu também o livro.

      Sabe, não vejo problema algum em abandonar um livro (ou qualquer coisa parecida). Se não está agradando, o melhor é deixar de lado do que se forçar a algo e ficar se torturando, haha

      Nossa, como somos diferentes. Não gostei desse trecho do caiaque e da foca (e outras partes parecidas), me pareceu meio que enrolação. Na verdade me pareceu uma tentativa do autor em tentar enriquecer a personalidade de Mae, mas, ao meu ver, ele falhou, principalmente por simplesmente jogar fora esses momentos após a segunda metade da história.

      Sobre a Mae em si, e outros personagens, eu prefiro pensar que é um complemento pra ambientação. Ela e os coadjuvantes representam bem pessoas que caíram nessa “armadilha” das redes sociais e ferramentas de comunicação, logo, aos poucos, eles vão se tornando superficiais. Eu engoli a Mae, mas ainda acho que o autor não soube construir personagens e certas situações. Nesse caso não atrapalhou tanto a experiência, pois pra mim o interessante do livro mesmo foi a ambientação.

      Sobre ‘O Rio Inferior’, do Paul Theroux, já estou aguardando suas opiniões, como sempre 😉

      Abraço 🙂

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