Resenha: Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami

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Mas, por mais que um casal compreenda um ao outro, por mais que se amem, não é possível esquadrinhar completamente o coração do outro. Se desejar isso, é a gente que acaba sofrendo. Mas, quando tratamos do nosso próprio coração, podemos esquadrinhá-lo por completo se nos esforçarmos. O que devemos fazer, em última análise, é chegar a um acordo com o nosso próprio coração sendo sincero com ele. Se quisermos realmente ver a outra pessoa, não temos outra opção a não ser vermos completa e profundamente a nós mesmos. É isso que eu penso. (Pág. 38)

Foi com surpresa que eu soube da existência de Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami. Eu não esperava que outra obra do autor seria lançada tão rapidamente no Brasil (saiu no Japão em fevereiro de 2015), ainda mais uma coletânea de sete histórias. O tema central dos contos são as relações amorosas entre homem e mulher, mas, como sempre, Murakami trata esse assunto à sua maneira característica.

Murakami é um autor capaz de criar universos próprios, que se desdobram em romances de fôlego e personagens cativantes. Mas ele é também um excelente contista, e sua produção mais recente está reunida neste volume: sete histórias que tratam de relações amorosas e trazem o estilo único do autor.
São contos sobre o isolamento e a solidão que permeiam as relações amorosas: homens que perderam uma mulher depois de um relacionamento marcado por mal-entendidos. No entanto, as verdadeiras protagonistas destas histórias — cheias de referências à música, a Kafka, às Mil e uma noites e, no caso do título, a Hemingway — são as mulheres, que misteriosamente invadem a vida dos homens e desaparecem, deixando uma marca inesquecível na vida daqueles que amam.

Ao contrário de outras coletâneas de contos do autor, como The Elephant Vanishes e Blind Willow, Sleeping Woman, Homens Sem Mulheres tem um único tema central: relações amorosas. Mas, como é de costume do Murakami, cada história é bem única e apresenta vários traços já conhecidos do autor.

Confesso que não me afeiçoo tanto assim pelo tema “relações amorosas”, mas gostei da maioria dos contos do livro. O motivo disso é que Murakami constrói cuidadosamente os personagens e ambientação, o que resulta em tramas interessantes e envolventes, sendo que cada história é única e explora o tema de maneira diferente. Como sempre, o autor explora muito a questão da solidão e melancolia — a presença de jazz, gatos e música é constante. Toques de literatura fantástica também estão presentes nos contos.

Eu me senti envolvido em todas as histórias, mas algumas eu achei especialmente melhores. Em Sherazade, o meu conto favorito da coletânea, o protagonista tem relações com uma mulher casada, que sempre conta uma história após o sexo. Acontece que exatamente as 16h30 ela simplesmente interrompe o relato, normalmente em algum ponto bem interessante, e vai embora, pois precisa voltar para casa para cuidar da família. Por conta da semelhança com as 1001 Noites, que é também a inspiração desse conto, o homem a chama de Sherazade. As histórias contadas por ela são ambíguas e interessantes, sempre fiquei curioso em saber o que ela falaria na próxima vez.

— No primário, quando vi uma lampreia pela primeira vez em um aquário e li a explicação de como ela vivia, percebi na hora: na minha vida passada fui esse ser aí — disse Sherazade. — Percebi isso porque tinha uma lembrança nítida de me aderir à pedra no fundo do lago, de balançar na vertical disfarçada de planta aquática e observar as trutas gordas que passavam lá no alto. (Pág. 129)

Já em Samsa apaixonado o fantástico se faz presente novamente: um inseto sofre uma metamorfose e se torna o humano Gregor Samsa. Acordando em um novo corpo e um novo mundo, ele tem que aprender a se adaptar a uma realidade completamente diferente do que ele estava acostumado. O interessante aqui é a questão de como Gregor Samsa reage diante tudo isso e como ele se relaciona com uma garota que aparece em sua casa.

Outro conto que gostei muito foi Kino, no qual um homem decide abrir um bar após se separar de sua mulher. Esse tem a típica atmosfera murakamiana: o protagonista é melancólico e solitário, o bar toca jazz, um gato é uma figura central e acontecimentos curiosos começam a aparecer. Me senti quase que lendo um romance por conta da forte ambientação.

Os contos são bem elaborados, mas também são bem inconclusivos. Muitos deles terminam abruptamente e me deixaram com vontade de ver mais — gostaria muito de entender melhor as circunstâncias da enigmática Sherazade ou então ver o que acontece com Kino e seu bar. Torço para que no futuro Murakami transforme alguns desses contos em romances completos — ele já fez isso no passado com Norwegian Wood e The Wind-Up Bird Chronicle. E mesmo que o autor explore o tema de várias maneiras, a sensação é que a coletânea é um pouco limitada por conta da falta de variedade.

Homens Sem Mulheres é uma boa coletânea de contos. É interessante ver como Murakami explora relações amorosas de várias maneiras diferentes, assim como é bom ver a habilidade dele de construir tramas cativantes em pequenas histórias. De negativo temos alguns contos que são um pouco truncados e a sensação de que tudo é um pouco parecido por conta de um tema central. De qualquer maneira, bastam poucas linhas para se envolver completamente com as histórias de Homens Sem Mulheres.

— Mas é curioso… — disse a garota, pensativa. — O mundo em si está prestes a ser destruído, mas tem gente preocupada com a fechadura quebrada, e não só isso, tem gente que vem consertá-la. Pensando bem, é engraçado. Não acha? Mas talvez seja melhor assim. Talvez essa seja a atitude correta, mesmo parecendo inesperada. Mesmo que o mundo esteja prestes a ser destruído, talvez as pessoas consigam se manter sãs, de alguma forma, conservando essas minúcias. (Pág. 219)

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3 comentários em “Resenha: Homens Sem Mulheres, de Haruki Murakami”

    1. Mesmo não sendo minha coletânea favorita de contos do Murakami, recomendo muito. E tenho certeza que você vai gostar 🙂

      Realmente, os livros do Murakami no Brasil costumam ser caros, provavelmente pelo status meio “cult” (ainda) do escritor. Lembro-me perfeitamente que as obras dele em inglês têm preço muito mais convidativo, provavelmente pelo fato dele ser mais popular nos EUA e Europa. Por sorte consegui comprar numa promoção, então não ficou tão caro.

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