Resenha: A Garota na Teia de Aranha (Millennium 4), de David Lagercrantz

“Depois Lisbeth releu a mensagem de Mikael Blomkvist. Ele havia pedido ajuda, e sem nem pensar ela respondeu “Tudo bem”. E não apenas porque Mikael tinha pedido. Aquilo havia se transformado numa questão pessoal para ela. Lisbeth não tinha ficado com pena, pelo menos não da maneira tradicional. Havia, isto sim, ficado com ódio, sentido uma fúria violenta, e, apesar de nutrir certo respeito por Jan Bublanski, normalmente ela não confiava em autoridades.
Lisbeth estava acostumada a resolver os problemas do seu próprio jeito.” (Pág 160)

A trilogia Millennium é uma das minhas séries de livros favoritas — lembro até hoje como li loucamente rápido “A Rainha do Castelo de Ar”, o terceiro volume da trilogia. Infelizmente o autor morreu muito antes da série se tornar um sucesso, o que é uma pena: ele pretendia escrever mais volumes da franquia. Foi com muita surpresa que eu soube que seria lançado um quarto livro, intitulado A Garota na Teia de Aranha aqui no Brasil. Escrito pelo escritor e jornalista sueco David Lagercrantz, o lançamento foi marcado por polêmicas e dúvidas: será que o autor conseguiria fazer um bom trabalho com o legado de Stieg Larsson?

A hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist precisam juntar forças para enfrentar uma nova e terrível ameaça. É tarde da noite, e Blomkvist recebe o telefonema de uma fonte confiável, dizendo que tem informações vitais aos Estados Unidos. A fonte está em contato com uma jovem e brilhante hacker – parecida com alguém que ele conhece. Blomkvist, que precisa de um furo para a revista Millennium, pede ajuda a Lisbeth. Ela, porém, tem objetivos próprios.

O que eu mais gostei na série Millenium foram seus personagens interessantes (especialmente os protagonistas Mikael e Lisbeth) e bem construídos, e a trama repleta de mistério e complexidade. Em A Garota na Teia de Aranha, parte dessas características está presente, mas, claro, não é a mesma coisa.

A trama em si começa bem simples e vai tomando proporções muito maiores. Tudo começa com um pesquisador que corre risco de vida que acaba decidindo contar tudo para o jornalista Blomkvist, que nem imagina que existe uma grande e perigosa conspiração por trás disso. Millennium 4 tem uma trama e narrativa bem ágeis. Lembro-me bem que eu achava o texto de Larsson um pouco prolixo, Lagercrantz praticamente eliminou isso.

Pouco a pouco somos apresentados aos novos personagens e e detalhes da história, sendo que a narrativa tem foco alternado: em um momento estamos acompanhando Mikael Blomkvist e seus problemas na revista Millennium; já logo em seguida vemos um especialista de segurança na NSA; num terceiro momento o foco é um cientista brilhante, mas com problemas familiares. Por conta disso, a leitura flui muito fácil. O ritmo é eletrizante e a leitura é repleta de ganchos e cenas bem intensas. Mesmo com um novo autor e algumas características diferentes de narrativa, Millennium 4 parece sim uma autêntica continuação.

O principal destaque, e o ponto que eu mais gostei no livro, são seus protagonistas. Mikael Blomkvist ainda continua sendo aquele jornalista que faz de tudo para denunciar as injustiças sociais e em Millennium 4 ele tem que enfrentar problemas gerados pela era digital: as pessoas o consideram irrelevante (principalmente os mais jovens) e a revista Millennium está em crise financeira. Ele é o típico “herói justo”, por mais que em alguns momentos ele ignore a lei para alcançar seus objetivos — essa dualidade é muito interessante.

Já Lisbeth Salander continua tendo personalidade forte e age como bem entende, aplicando sua própria justiça — pouco se importando para as consequências de seus atos. É muito difícil não gostar dela e em Millennium 4 ela continua incrível. Gostei também da relação entre os dois: um provoca o outro e agem em conjunto, mesmo sem mal se encontrarem pessoalmente durante a história. O autor mudou levemente algumas características dos protagonistas e não achei de todo ruim — salvo Lisbeth que, em alguns momentos, é praticamente uma super heroína.

“Mikael Blomkvist era uma pessoa que andava de mãos dadas com a lei. Em muitos sentidos, um cidadão-modelo, e se havia alguém que conseguia arrastá-lo para o território do proibido, esse alguém era Lisbeth Salander. Mikael preferia cair em descrédito a traí-la, por isso ele continuava repetindo à polícia: “Reservo-me o direito de proteger minhas fontes”, embora sem dúvida ele estivesse aborrecido com isso e ponderando as consequências.” (Pág. 290)

Eu até gostei da ideia central da história, mas o autor não soube trabalhar muito bem isso: existem situações questionáveis e viradas inesperadas que parecem forçadas — algumas coisas são tão absurdas que lembram mais uma fanfic do que um romance de um escritor de renome. Subtramas, como a questão da relevância da Millennium na era das redes sociais, são deixadas de lado — acredito que elas poderiam deixar a narrativa mais rica. O mistério central nem é tão misterioso assim, já que o autor praticamente deixa tudo explícito rapidamente — gostava mais do estilo sutil de Larsson, no qual o leitor ia montando lentamente o quebra-cabeça junto com os personagens. Por fim, não gostei muito da caracterização de alguns coadjuvantes: muitos são mal desenvolvidos (Larsson aprofundava bem esse tipo de personagem) e outros têm características risíveis, quase caricatas.

A Garota na Teia de Aranha é um ótimo livro e uma boa continuação da série Millenium. É muito bom poder acompanhar novamente personagens incríveis como Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander em uma história cheia de mistérios, conspirações e ação — a leitura foi tão boa que terminei o livro em pouquíssimos dias. David Lagercrantz fez um ótimo trabalho e gostei da narrativa mais ágil. Obviamente, ele não é Stieg Larsson e escorrega em alguns pontos — de qualquer maneira, gostei muito do resultado e já estou no aguardo das possíveis continuações.

“Em princípio, outra garota poderia ter ido ao apartamento de Linus naquele dia. Era possível, embora não provável. Afinal, quem além de Lisbeth Salander chegaria daquele jeito, já entrando, sem nem olhar no rosto da pessoa e a mandaria embora da própria casa para vasculhar o conteúdo dos computadores, concluindo a visita com a frase ‘Não tenho a menor intenção de ir para a cama com você’? Só Lisbeth.” (Pág. 49)

Anúncios

2 comentários em “Resenha: A Garota na Teia de Aranha (Millennium 4), de David Lagercrantz”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s