Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

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“Bebi mais vodca. O que eu mais queria era ficar novamente inconsciente, envolta pela escuridão, alheia a tudo. Estava péssima. Eu sentia as lágrimas represadas, como um balão de água cheio prestes a explodir. Suplicando por um furo de alfinete. Wind Gap era tóxica para mim. Aquela casa era tóxica para mim.” (Pág. 45)

Depois de ler Garota Exemplar, fiquei muito interessado nas obras de Gillian Flynn. Sendo assim, fui atrás de outros livros da autora. Objetos Cortantes foi o primeiro trabalho de Flynn e todas as características principais dela estão nele. É uma história tensa, interessante e chocante — mal consegui largar a leitura.

Objetos Cortantes é uma narrativa tensa e cheia de reviravoltas. Um livro viciante, assombroso e inesquecível. Recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar a tendência à automutilação que deixou seu corpo todo marcado, a repórter de um jornal sem prestígio em Chicago, Camille Preaker, tem um novo desafio pela frente. Frank Curry, o editor-chefe da publicação, pede que ela retorne à cidade onde nasceu para cobrir o caso de uma menina assassinada e outra misteriosamente desaparecida.

Desde que deixou a pequena Wind Gap, no Missouri, oito anos antes, Camille quase não falou com a mãe neurótica, o padrasto e a meia-irmã, praticamente uma desconhecida. Mas, sem recursos para se hospedar na cidade, é obrigada a ficar na casa da família e lidar com todas as reminiscências de seu passado. Entrevistando velhos conhecidos e recém-chegados a fim de aprofundar as investigações e elaborar sua matéria, a jornalista relembra a infância e a adolescência conturbadas e aos poucos desvenda os segredos de sua família, quase tão macabros quanto as cicatrizes sob suas roupas.

A trama de Objetos Cortantes parece trivial: uma repórter é escalada para cobrir o assassinato de duas garotas em uma cidade do interior, em uma fórmula básica de romances policiais. Contudo, o diferencial fica por conta da forte exploração do passado de Charlote e de como isso tudo se relaciona ao caso de assassinato. Me surpreendi muito em como a autora brinca com as expectativas e nos faz acreditar em certas coisas e lá na frente desconstrói tudo de uma maneira muito sagaz. A escrita de Flynn é ágil e fluida, sempre dá vontade de saber o próximo acontecimento da história.

Charlotte, a protagonista da história, é uma personagem que gostei muito por conta de sua complexidade. Ela tem várias personas: a repórter mediana e levemente frustrada, a garota que saiu da cidade pequena e foi para uma grande metrópole, a mulher repleta de traumas do passado. Ao retornar para sua cidade-natal, ela tem que confrontar tudo isso e é uma situação péssima — sua mãe não a ama, a população da cidade não a vê com bons olhos, ela mal conhece sua meia-irmã. Além disso, ela ainda tem que lidar com a ausência de sua irmã, que morreu de forma trágica a 20 anos. A autora, pouco a pouco, vai revelando como Charlotte tornou-se o que é e é algo chocante, doloroso e tenso. Me sensibilizei com os dramas da protagonista e sempre quis saber qual era o seu próximo passo.

Outros personagens também têm espaço na trama, especialmente Adora e Amma, a mãe e meia-irmã de Charlotte, respectivamente. A relação familiar é desmiuçada e pouco a pouco entendemos como Charlote e seus parentes se destruíram tanto. São questões muito delicadas, tensas e até mesmo perturbadoras — ainda mais se levarmos em consideração que os acontecimentos retratados podem muito bem acontecer em qualquer família de tão próximos da realidade. Não tem ninguém normal em Objetos Cortantes, todo mundo é problemático.

Enquanto Charlotte alterna entre tentar encontrar material para sua reportagem e se relacionar com a família, conhecemos um pouco de Wind Gap, a cidade onde a história acontece. Mesmo com participação limitada de seus habitantes na história, é possível traçar um perfil do local, que é repleto de mentiras, fofocas e cobranças. Por ser pequena, Wind Gap é uma cidade bem tradicional e isso contrasta bem com a presença de Charlote — a garota que foi para a cidade grande e violou todas as regras implícitas do lugar. Por traz disso, dá para perceber claramente uma dualidade do que se fala de Wind Gap e do que realmente é Wind Gap. O resultado é um choque de realidade muito curioso e instigante, gostei de como a autora trabalhou o cenário da história.

“Não me incomodo de contar as histórias de Wind Gap para Richard. Não sentia nenhuma fidelidade especial à cidade. Era o lugar onde minha irmã morrera, o lugar onde eu começara a me cortar. Uma cidade tão sufocante e pequena que todos os dias você esbarrava em pessoas que odiava. Pessoas que sabiam coisas sobre você. É o tipo de lugar que deixa marcas.” (Pág. 79)

O que não me agradou muito no livro foi sua conclusão: ela é corrida demais, mesmo sendo bem surpreendente, o que dá uma certa sensação de incompletude. A autora também deixou de desenvolver melhor alguns personagens que pareciam importantes e que poderiam contribuir mais para a história. Por fim, senti que a narrativa sofre com falta de foco em alguns momentos por tentar ser um romance policial e um drama familiar ao mesmo tempo.

Objetos Cortantes é um ótimo livro. A escrita ágil da autora e a trama complexa me fizeram ler rapidamente tudo. Os temas abordados na trama não são muito agradáveis e podem causar desconforto, mas os personagens e acontecimentos instigam a leitura. A obra tem alguns pequenos problemas de ritmo e foco, que atrapalham um pouco a leitura. Pertubador, surpreendente e denso, Objetos Cortantes é uma experiência difícil de esquecer.

“Só acho que algumas mulheres não nascem para ser mães. E algumas mulheres não nascem para ser filhas.” (Pág. 117)

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2 comentários em “Objetos Cortantes, de Gillian Flynn”

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