Resenha: The Witcher: O Último Desejo, de Andrzej Sapkowski

O primeiro livro da série “A saga do bruxo Geralt de Rívia” é uma ótima introdução ao universo de The Witcher.

Anúncios

ultimo-desejo

A mão direita do bruxo se deslocou como um raio por cima do ombro direito, enquanto a esquerda deu uma sacudidela no cinturão que lhe atravessava o peito, fazendo a empunhadura da espada pular para sua palma. A lâmina sibilou ao sair da bainha, descreveu um semicírculo no ar e se imobilizou, com a ponta virada para a besta. Ao ver a arma, o monstro freou violentamente, atirando cascalho para todos os lados. O bruxo não fez um movimento sequer. (Pág 57)

The Witcher é uma popular série de jogos de aventura e ação que nunca dei muita atenção (principalmente por não ter como jogar na época em que os primeiros títulos foram lançados). Lembro que em minhas leituras sobre o jogo, descobri que ele era baseado em uma série de livros, mas não dei muita atenção. Tudo mudou quando recentemente um amigo me recomendou a série e decidi dar uma chance. O Último Desejo é o primeiro livro da saga do bruxo Geralt de Rívia e me surpreendeu com sua narrativa ágil e interessante.

Geralt de Rívia é um personagem estranho, um mutante que, graças à magia e a um longo treino, mas também a um misterioso elixir, se tornou um assassino perfeito. Os seus cabelos brancos, os seus olhos que vêem melhor de noite que de dia, o seu manto negro, assustam e fascinam. E Geralt dedica-se a viajar por terras pitorescas, ganhando a vida como caçador de monstros. Pois nos tempos obscuros que lhe couberam em sorte abundam ogres e vampiros, e os magos são especialistas da manipulação. Contra todas essas ameaças, um assassino hábil é um recurso indispensável. Ora Geralt, que é ao mesmo tempo um guerreiro e um mago, tem capacidades que o fazem impor-se a todo esse estranho mundo. É um feiticeiro. E é absolutamente único. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons…

O Último Desejo é uma coleção de contos cujo o foco é o bruxo Geralt de Rívia. Cada história mostra uma aventura do herói e capítulos de interlúdio amarram todas as tramas. Eu me surpreendi com isso, pois eu não imaginava que o livro se tratava de vários contos. Algo que gostei muito é que o autor consegue construir bem o universo e os personagens dessa maneira — cada história acontece em momentos diferentes da vida de Geralt e mostram as coisas sobre ângulos diferentes, sendo o mundo construído pouco a pouco desse jeito.

É difícil não gostar do bruxo Geralt de Rívia. O protagonista de todas as histórias é muito bem construído e complexo. Por um lado ele é frio e calculista, afinal sua profissão exige isso: ao caçar monstros, qualquer erro pode ser fatal. Contudo, o autor explora também a questão da humanidade de Geralt. Nesse mundo, os bruxos são vistos como meros caçadores (e até mesmo confundidos com assassinos e mercenários), sendo tratados com desconfiança e desprezo, mas Geralt não é somente isso. Ele aceita o seu fardo, entretanto também sofre silenciosamente por conta dele. Gostei também do fato de ele sempre querer quebrar esse paradigma dos bruxos: ele é leal, justo e acredita que nem todos os problemas precisam ser resolvidos com morte — e ele prova isso o tempo todo.

Diante disso, você me pergunta em que acredito. Acredito no poder da espada. Como pode ver tenho duas. Todos os bruxos possuem duas espadas. As pessoas mal-intencionadas costumam dizer que a espada de prata é para monstros e a de ferro para seres humanos. Obviamente, trata-se de uma grossa mentira. Alguns monstros somente podem ser feridos com lâmina de prata, enquanto para outros, mortal é o ferro. (Pág 135)

Sapkowski tomou como inspiração as histórias de fantasia que estamos acostumados, adicionou um bocado de mitologia eslava e inverteu alguns papéis: criaturas pavorosas nem sempre são os vilões e humanos de aparência inocente não são necessariamente bons. Gostei muito disso e me surpreendi o tempo todo. Alguns contos têm ótimas cenas de ação, já outros são mais lentos — todos são interessantes, mesmo assim. Algo que senti falta foram notas de rodapé ou até mesmo um glossário: por se basear na mitologia eslava, o nome de muitos monstros são estranhos para nós. Como eu ia saber, por exemplo, que uma estrige é uma espécie de vampiro? Outro ponto negativo é que a origem de Geralt e alguns outros personagens não são questões muito desenvolvidas, mas imagino que os livros futuros explorem melhor esses pontos.

O Último Desejo é um ótimo livro de fantasia e aventura. O universo é bem construído (mesmo que de maneira fragmentada) e Geralt de Rívia é um protagonista carismático e interessante. Os contos são bem variados e gostei muito de como o autor brinca com nossas expectativas. Com certeza passarei a acompanhar a série, que é composta de sete livros até o momento. Se gosta de aventura, não deixe de conferir O Último Desejo.

— Aos homens agrada inventar monstros e monstruosidades. Com isso, sentem-se menos monstruosos. Quando se embriagam, são capazes de trapacear, roubar, bater na esposa, deixar morrer de fome a velha vovozinha, matar a machadas uma raposa pega numa armadilha ou ferir com flechas o último unicórnio do mundo. Nessas horas, gostam de pensar que Moahir, que adentra suas choupanas de madrugada, é muito mais monstruosa do que eles. Aí, ficam com o coração mais leve e acham mais fácil tocar a vida adiante. (Pág. 196)

5 comentários em “Resenha: The Witcher: O Último Desejo, de Andrzej Sapkowski”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s