O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov

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“Ocasionalmente, perdia-se num mundo onde vida era vida e morte, morte; onde um homem tomava decisões irrevogáveis; onde o mal não podia ser evitado, nem o bem fomentado, e a Batalha de Waterloo, uma vez perdida, estava realmente perdida para sempre. Havia até o recorte de um poema que ele apreciava muito, o qual afirmava que um dedo em movimento, uma vez tendo escrito, não poderia jamais ser atraído de volta para apagar as palavras. Depois era difícil, quase um choque, retornar seus pensamentos à Eternidade e a um universo onde a Realidade era algo flexível e passageiro, uma coisa que homens como ele podiam segurar na palma da mão e moldar num formato melhor.” (pág 22)

Depois de ler Eu, Robô, eu sempre quis conferir outras obras de Isaac Asimov, mas acabou que outras leituras vieram e não tive oportunidade. Lendo sobre trabalhos do autor, descobri O Fim da Eternidade e logo me interessei: como não se sentir instigado por uma trama de viagem no tempo repleta de mistérios e reviravoltas? Encontrei algo muito diferente do que eu esperava e me surpreendi o tempo todo.

“Andrew Harlan é um Eterno: membro de uma organização que monitora e controla o Tempo. Um Técnico que lida diariamente com o destino de bilhões de pessoas no mundo inteiro: sua função é iniciar Mudanças de Realidade, ou seja, alterar o curso da História. Condicionado por um treinamento rigoroso e por uma rígida autodisciplina, Harlan aprendeu a deixar as emoções de lado na hora de fazer seu trabalho.

Tudo vai bem até o dia em que ele conhece a atraente Noÿs Lambent, uma mulher que abala suas estruturas e faz com que passe a rever seus conceitos, em nome de algo tão antigo quanto o próprio tempo: o amor. Agora ele terá de arriscar tudo – não apenas seu emprego, mas sua vida, a de Noÿs e até mesmo o curso da História.”

Viagem no tempo é um assunto fascinante e Asimov soube usar muito bem esse recurso na trama. O foco é Andrew Harlan, um dos membros de uma organização chamada Eternidade. Esse grupo de pessoas monitora e altera as ações da humanidade durante os séculos, sempre tentando fazer o melhor pelas pessoas. Harlan se envolve e se apaixona por uma garota chamada Noÿs — algo completamente impensável dentro da Eternidade, que proíbe esse tipo de relacionamento. Mesmo assim, Harlan vai fazer de tudo para ficar com a garota. A trama vai muito além disso e é repleta de reviravoltas.

A primeira característica que me surpreendeu nesse livro é o cuidado com que Asimov construiu o universo. A Eternidade é muito bem pensada, sua estrutura e organização é explicada com tantos detalhes que parece algo real. Questões como o funcionamento da viagem no tempo, como as mudanças afetam a realidade e como as ações do grupo são decididas e executadas são bem embasadas e fazem sentido. Existem sim alguns momentos confusos, mas logo essa sensação some.

De qualquer maneira, me impressionei com o nível de detalhes do universo, ainda mais levando em conta que o livro foi publicado pela primeira vez em 1955 — Asimov tinha uma visão incrível de futuro. Nas entrelinhas, a obra também aborda as consequências de um poder forte como a viagem no tempo: a Eternidade acaba sendo uma organização opressora, que modifica tudo ao seu bel prazer pelo “bem da humanidade”. No fim das contas, as pessoas no universo de O Fim da Eternidade vivem em uma sociedade distópica sem saber.

Ao contrário do que eu imaginava, a trama não é centrada completamente em modificações no tempo e suas consequências, mas sim nas ações de Harlan e sua relação com a Eternidade. Ele não é lá um personagem carismático, contudo não deixa de ser interessante. A escrita de Asimov é ágil e o ritmo é intenso: toda hora um novo mistério ou dúvida aparecia, me fazendo querer continuar a leitura e não largar mais — um autêntico thriller. A trama tem características de suspense, romance, ação e até mesmo reflexões sobre o funcionamento do tempo. Minha única reclamação é que eu gostaria que alguns personagens e fatos tivessem sido melhor explorados, prolongando mais um pouco a duração do livro.

“Ele queria, desejava muito lhe dizer: não há graça nenhuma na Eternidade, moça. Nós trabalhamos! Trabalhamos para planejar todos os detalhes de todos os tempos, desde o início da Eternidade até onde a Terra está vazia, e tentamos planejar todas as infinitas possibilidades de tudo o que-poderia-ter-sido e escolher um poderia-ter-sido melhor do que aquilo que é, e decidimos onde, no Tempo, podemos fazer uma pequena mudança para transformar aquilo que é naquilo que pode-ser, e então temos um novo é e procuramos um novo pode-ser, e assim continuamente, continuamente…” (pág 71)

A questão da viagem no tempo também é interessantíssima. Gostei muito de como Asimov abordou as mudanças temporais e como elas afetam o presente e o futuro. Possibilidades e realidades paralelas são bem explicadas e bem pensadas. Inclusive o livro aborda séculos que eu nunca cogitei imaginar: em um momento Harlan está no século 525, já em outro está no longínquo 100.113; as eras abordadas costumam ser bem distintas. Questões como paradoxos temporais e especulações são abordadas o tempo todo. E bem, a conclusão da história e a explicação do núcleo da trama me deixaram perplexo: tudo é surpreendente e bem amarrado.

O Fim da Eternidade é um livro incrível. A trama é interessante, o ritmo é rápido e o universo é muito bem pensado. A viagem no tempo é bem inserida na história e deixa espaço para paradoxos e outras características legais. Gostei tanto que devorei a obra rapidamente — gostaria muito que fosse um pouquinho mais longa. Se gosta de ficção científica e viagens no tempo, não deixe de conferir O Fim da Eternidade.

“Que pena, o agora não dura muito, nem na Eternidade.” (pág 99)

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3 comentários em “O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov”

  1. Asimov é o meu autor preferido, estão traduzindo uma trilogia muito boa dele, o nome do primeiro livro é As Cavernas de Aço, puxa um pouquinho para suspense, mas tem personagens MUITO mais legais do que os do Fim da Eternidade (eu odiava o Harlan xDDD). Fica a recomendação se você gostou do que leu até agora.

    1. Com certeza vou conferir As Cavernas de Aço, gosto muito do Asimov 🙂

      E realmente, o Harlan é um personagem irritante, haha… Mas a trama e ambientação de O Fim da Eternidade são ótimos.

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