As Mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch

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Não havia na voz ou nos modos de Locke qualquer indício de Lukas Fehrwight nem qualquer resquício da energia contida ou da pomposa dignidade do comerciante vadrã. Essa sua nova criação tinha o respaldo ficcional do Duque; era o tipo de homem que poderia zombar de um Dom ao mesmo tempo que invadia o santuário de sua residência. Tal audácia era impossível de fingir: Locke precisava senti-la, invocá-la de algum lugar lá no fundo, vestir a arrogância como se fosse um velho traje conhecido. Locke Lamora se tornou uma sombra em sua própria mente: ele agora era um Meia-Noite. Suas complexas mentiras eram a verdade simples daquele novo homem. (pág. 109)

As Mentiras de Locke Lamora caiu por acaso em minhas mãos. Eu não sabia nada sobre esse livro e não tinha a mínima ideia do que esperar dele. A única informação que eu tinha era que Patrick Rothfuss, autor da série As Crônicas do Matador do Rei, tinha gostado muito, logo decidi me arriscar. No fim das contas, me surpreendi muito positivamente com a história do ladrão Locke Lamora.

O Espinho é uma figura lendária: um espadachim imbatível, um especialista em roubos vultosos, um fantasma que atravessa paredes. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres, enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula.

Franzino, azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada, Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho, cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?), mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes, que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas: os Nobres Vigaristas.

O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr, que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. Matando líderes de gangues, ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. Preso em uma armadilha sinistra, Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver.

Em um primeiro momento, a premissa de As Mentiras de Locke Lamora lembra muito Robin Wood: um ladrão que rouba dos ricos e (supostamente) doa o dinheiro para os pobres. Já no começo fica bem claro que não é nada disso. O protagonista Locke Lamora não é nada galante e muito menos caridoso. Ele é o líder dos Nobres Vigaristas, uma das várias gangues da exótica cidade de Camorr e tem como único objetivo se dar bem.

É muito fácil gostar de Locke, pois ele é muito carismático e inteligente. Os golpes pensados por ele são extremamente elaborados e interessantes, o que me fez sempre querer saber quais eram os seus próximos passos. O mais curioso é que tive sentimentos contraditórios: o carisma de Locke me conquistou e eu torcia para que tudo o que ele fizesse desse certo, mesmo ele sendo um ladrão calculista e politicamente incorreto. Ele e seus Nobres Vigaristas são bem construídos, principalmente com a ajuda de interlúdios que mostram o passado da gangue.

O mundo criado pelo autor é muito curioso e ele teve muito cuidado ao construir a cidade de Camorr, local onde se passa a trama. É um lugar que lembra a cidade italiana de Veneza por conta de seus vários canais, ilhas e construções, mas Camorr tem seu toque próprio na forma de Vidrantigo: um material translúcido deixado por uma civilização antiga e desconhecida. A cidade é também um antro de ladrões e gangues, que praticamente dominam o local secretamente em harmonia, com direito a acordos secretos e hierarquias — até a aparição de um ser misterioso que passa a matar membros das gangues. Tudo é bem pensado e bem amarrado.

— Pelos deuses, como eu gosto desse lugar — comentou Locke, tamborilando nas coxas. – às vezes acho que esta cidade inteira só foi posta aqui porque os deuses devem adorar o crime. Trombadinhas roubam do populacho, comerciantes roubam de quem conseguem tapear, Capa Barsavi rouba dos ladrões e do populacho, os pequenos nobres roubam de quase todo mundo e o Duque Nicovante de vem em quando sai com seu exército para roubar até as calças de Tal Verrar ou Jerem, sem falar no que faz com seus próprios nobres e seu povo.
— Ou seja, nós somos os ladrões dos ladrões e fingimos ser ladrões que trabalham para um ladrão de outros ladrões – disse Pulga. (pág. 40)

Surpreendi-me também com o rumo da história. Ela começa bem simples, mostrando um elaborado golpe dos Nobres Vigaristas, mas rapidamente muda de rumo e se transforma em algo grande e complexo. A narrativa é mais pesada do que eu imaginava e é repleta de palavras chulas, sarcasmo, muita violência, traição e mentiras. Entretanto, em nenhum momento deixa de ser interessante e as reviravoltas são constantes. Os problemas são o início lento e algumas questões mal desenvolvidas, mas acredito que os pontos pendentes possam ser esclarecidos nos livros seguintes (o autor planeja escrever uma série de sete livros).

As Mentiras de Locke Lamora foi uma ótima surpresa, uma aventura que não estou acostumado a ver por aí. Gostei muito de Locke por conta de sua capacidade excepcional de mentir, enganar e manipular— um protagonista muito carismático, mesmo que suas ações não sejam politicamente corretas e nada nobres. A trama é muito boa e me fez sempre querer saber o que ia acontecer em seguida, por mais que a violência e vocabulário tenham me incomodado um pouco. As Mentiras de Locke Lamora é perfeito para quem procura uma história diferente, inusitada e que foge de alguns padrões.

— Parece estranho soltar uma costura para você em vez de apertá-la – Jean guardou os instrumentos como os havia encontrado no baú de costura e tornou a fechá-lo. — Não descuide dos exercícios: não queremos que engorde nem 200 gramas.
— Bom, a maior parte do meu peso é o cérebro mesmo.(…)
— Você é um terço de más intenções, um terço de pura avareza e um oitavo de serragem. Imagino que o resto deva ser o cérebro. (pág. 106)

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