Resenha: O Bicho-da-Seda, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)

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Sozinho numa sala que não era maior do que a média dos armários para escritórios, seus pensamentos grudavam como moscas na obscenidade apodrecida que ele encontrou no ateliê. O horror daquilo não o abandonava. Em sua especialidade profissional, ele viu corpos que foram arrastados para posições que pretendiam sugerir suicídio ou acidente; examinou cadáveres com vestígios pavorosos de tentativas de disfarçar a crueldade a que foram submetidos antes da morte; vira homens, mulheres e crianças mutilados e desmembrados; mas o que viu no número 179 da Talgarth Road era algo inteiramente novo. O caráter maligno do que foi feito ali era quase orgiástico, uma exibição cuidadosamente calibrada de representação sádica. (pág. 134)

O Chamado do Cuco foi a estreia de J. K. Rowling no mundo dos romances policiais sob o pseudônimo Robert Galbraith. Gostei muito do livro e aguardava ansiosamente pela continuação das aventuras de Cormoran Strike e Robin Ellacott. Em O Bicho-da-Seda, o segundo romance da série, a dupla investiga o assassinato grotesco de um escritor não muito conhecido. Galbraith mantém a qualidade, em uma trama envolvente e bem escrita.

Quando do desaparecimento do romancista Owen Quine, sua esposa procura o detetive particular Cormoran Strike. Inicialmente, ela pensa apenas que o marido se afastou por alguns dias — como fez antes — e quer que Strike o encontre e o leve para casa.

Mas, à medida que investiga, fica claro para Strike que há mais no sumiço de Quine do que percebe a esposa. O romancista acabara de concluir um livro retratando maldosamente quase todos que conhece. Se o romance fosse publicado, a vida deles estaria arruinada — assim, muita gente pode querer silenciá-lo.

E quando Quine é encontrado brutalmente assassinado em circunstâncias estranhas, torna-se uma corrida contra o tempo entender a motivação de um assassino impiedoso, um assassino diferente de qualquer outro que Strike tenha encontrado na vida…

O segundo romance da série Cormoran Strike mantém as mesmas qualidades de O Chamado do Cuco: a obra tem narrativa envolvente, personagens muito interessantes e um mistério intrigante. Galbraith tem uma escrita clara e alguns rodeios muito comuns no primeiro livro foram praticamente erradicados. O resultado é uma história um pouco mais enxuta, mas não menos interessante.

O caso da vez é o assassinato grotesco de Owen Quine, um escritor que, supostamente, descreveu com detalhes o próprio crime em um romance não publicado, além de difamar meio mundo na mesma obra. Strike e Robin investigam principalmente indivíduos do mercado editorial de uma Londres fictícia — mercado esse repleto de pessoas orgulhosas, mesquinhas e arrogantes, todos eles capazes de esconder coisas terríveis e com vários motivos de dar fim em Owen Quine. Os suspeitos e personagens secundários são bem construídos e interessantes — o que torna plausível suas motivações e ações.

— Mas os escritores são uma raça selvagem, Sr. Strike. Se quiser amizade eterna e camaradagem desprendida, entre para o exército e aprenda a matar. Se quiser uma vida de alianças temporárias com colegas que se regozijarão a cada fracasso seu, escreva romances. (págs 403-404)

O começo da trama é lento e arrastado, pois nada importante acontece. Mas quando o assassinato é descoberto, a história fica muito interessante. O legal é que desde o início já existem vários possíveis suspeitos e conforme a investigação avança fica cada vez mais difícil eleger um culpado — os detalhes e informações sempre mudam a situação. Confesso que me perdi um pouco em meio a tantos suspeitos, pistas e suposições, mas pouco a pouco as coisas vão fazendo sentido. Gostei também do senso de urgência de certas passagens.

Algo que gostei muito foi o desenvolvimento da dupla de protagonistas. Cormoran Strike agora tem muitos clientes graças ao sucesso do caso Lula Landry e acompanhamos um pouco a vida de detetive particular com vários casos. Suas questões pessoais ainda estão presentes, mas influenciam um pouco menos a trama. Já a assistente Robin Ellacott ganha maior destaque com seu envolvimento maior no caso e seus dilemas com seu noivo. A sinergia e o carisma da dupla só aumenta no decorrer da trama.

Ilustração por R Kikuo Johnson
Ilustração por R Kikuo Johnson

O principal defeito de O Bicho-da-Seda é sobre a resolução do mistério. Chega um momento que Strike une os fatos, possibilidades e pistas e descobre quem é o possível assassino. Acontece que os detalhes dessa conclusão não são revelados para o leitor, que não consegue montar sua própria teoria — Strike só revela tudo lá no final da trama. Isso é um pouco irritante, pois você lê várias passagens que não fazem sentido algum por conta das informações ocultadas. Outra questão que não gostei tanto assim é o final: tudo é explicado muito rápido e o autor mal explora a repercussão da conclusão do caso, assim como em O Chamado do Cuco. Mas, felizmente, esses problemas são pequenos e pouco atrapalham a experiência geral.

Em O Bicho-da-Seda Galbraith repete a fórmula de sucesso com uma trama envolvente, personagens bem construídos e um mistério complexo. Gostei principalmente do desenvolvimento da dupla de protagonistas e dos outros vários personagens interessantes. De fato é um pouco difícil acompanhar alguns detalhes em alguns momentos e alguns fatos ficam bem obscuros por conta da falta de maiores explicações, entretanto isso pouco tira a diversão da leitura. O Bicho-da-Seda é mais um daqueles livros que você começa a ler e não consegue largar.

— E este crime — disse Strike, acendendo um cigarro enquanto eles andavam juntos pela Denmark Street — teve meses, se não anos de planejamento. Obra de gênio, quando se pensa bem, mas é elaborado demais e esta será sua ruína. Não se pode tramar um homicídio como um romance. Sempre ficam pontas soltas na vida real. (pág. 385)

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6 comentários em “Resenha: O Bicho-da-Seda, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)”

  1. Livro ótimo, realmente te prende. Como as leituras foram próximas, eu não consigo deixar de comparar: acredito que a obra do Murakami te prende pelo tipo de leitura, te toca e te da sede de respostas por motivos mais brandos, porém, em o Bicho-da-seda, a J.K te prende de uma forma mais invasiva. Você se sente intrigado com o caso, as vezes desmotivado por não encontrar respostas e frustrado por suas teorias serem derrubadas. Hahahaha

    Muito divertido, gostei bastante. E é igual você disse, apesar do começo um pouco mais lento, a obra entra nos eixos e vc logo se vê traçando teorias durante o jantar. 🙂

    1. Haha, você se sentiu preso de forma “invasiva”? No meu caso foi mais curiosidade mesmo: a todo momento aparecia um detalhe novo e eu queria saber o que ia acontecer @_@

      Já Incolor Tsukuru Tazaki eu achei mais introspectivo, uma espécie de reflexão densa sobre certas coisas. O que me prendeu mais nele foi a escrita do autor e os assuntos abordados.

      Ao menos concordamos que o começo é lento, mas depois fica muito bom 🙂

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