Resenha: O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, de Haruki Murakami

Ele caminhou na avenida até a estação de Tóquio. Entrou pela catraca do portão Yaesu e se sentou no banco da plataforma da linha Yamanote. Ele ficou mais de uma hora observando a composição de vagões verdes que chegava e partia praticamente a cada minuto, uma em seguida da outra, vomitando inúmeras pessoas para em seguida engolir apressadamente tantas outras. Naquele momento ele não pensava em nada: seus olhos apenas seguiam absortos a cena. A paisagem não aliviou a dor do seu coração. Mas a repetição o fascinou, como sempre, e pelo menos paralisou a consciência da passagem do tempo. (pág 139)

Haruki Murakami é um dos meus autores favoritos e já li praticamente todas suas obras. O último livro marcante dele que li foi 1Q84, uma história massiva dividida em três grandes volumes, que me evoca sentimentos de gostei-mais-não-gostei. Sendo assim, fiquei receoso quando soube do lançamento de O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, tinha medo que o autor tivesse somente repetido sua fórmula consagrada, mas me surpreendi fortemente com essa nova história.

Tsukuru Tazaki é um homem solitário, perseguido pelo passado. Na época da escola, morava com a família em Nagoya e tinha quatro amigos inseparáveis. Agora, vive em Tóquio, onde trabalha no projeto e na construção de estações de trem e namora uma mulher dois anos mais velha. Mas não se esquece de um trauma sofrido dezesseis anos antes: inexplicavelmente, foi expulso do grupo de amigos, e nunca mais os viu. Agora, ele decide revisitar o passado e reencontrá-los, para saber um pouco mais de cada um e de si mesmo. Sua jornada o levará a locais distantes, numa transformação espiritual na busca pela verdade.

Tsukuru é um típico protagonista murakamiano: está na casa dos 30, é solitário e reservado, e passa por um relacionamento complicado. Quando jovem, ele fazia parte de um grupo de cinco amigos, cada qual com uma cor no sobrenome — menos Tsukuru, que sempre se sentiu excluído e nada especial por conta disso, incolor. Mas, mesmo assim, a amizade dos “cinco coloridos” era forte e intensa. Um dia, ele é cortado do grupo sem nenhuma explicação. Este acontecimento o machucou profundamente e o fez manter distância das pessoas naturalmente, com medo de se ferir mais uma vez. Entretanto, pouco a pouco, ele vai amadurecendo e superando sua dor enquanto tenta esclarecer os problemas do passado.

Superação e amadurecimento são justamente os focos da história. Tsukuru não é o único que reflete sobre sua vida, todos os outros personagens fazem isso de alguma maneira. Como é de praxe do autor, as pessoas da trama são complexas e bem construídas, cada uma com seus próprios dilemas e problemas. E ler esse livro me fez lembrar um dos motivos de eu gostar tanto do Murakami: sua escrita. O estilo dele é meio difícil de descrever, a narrativa é cuidadosamente construída, sendo simultaneamente complexa, simples, direta, misteriosa e ambígua. Ou seja: uma combinação nada comum. O resultado é um texto que flui bem e é muito bom de ler. Com isso, Murakami consegue transformar de desinteressante para envolvente a história de uma pessoa tão simples como Tsukuru.

Para mim, a melhor característica de O incolor Tsukuru Tazaki foi o conjunto de sensações que a trama me fez sentir. Eu fiquei triste e amargurado junto de Tsukuru e também me coloquei no lugar dos personagens, tomando suas dores para mim. É uma história sobre sentimentos humanos como perda, dúvida, melancolia, solidão — mas também superação e amadurecimento. É justamente essa aproximação da vida real que torna tudo muito envolvente, pois é muito fácil e simples se identificar com os fatos retratados no livro. É por esse motivo que me envolvi por completo com a “peregrinação” de Tsukuru — e, ao mesmo tempo, refleti também sobre a minha jornada.

incolor-tsukuru-tazaki-detalhe

—Pensar livremente, em última análise, é se afastar do próprio corpo. É sair da jaula limitada chamada corpo carnal, soltar-se da corrente e fazer a lógica alçar voo de forma pura. É oferecer vida natural à lógica. É isso que está no cerne da liberdade, quando se trata de pensar.

—Parece bem difícil.

Haida balançou a cabeça. — Não, dependendo de como você encara, não é muito difícil. Muitas pessoas fazem sem perceber, de acordo com o momento, e graças a isso conseguem se manter sãs. Elas só não percebem que estão fazendo isso. (Pág 64)

Algo digno de nota é o quão Murakami foi comedido nesse livro. Ele tem uma tendência grande a exagerar em alguns pontos como sexo e acontecimentos fantásticos e inexplicáveis, deixando de lado algumas outras características de suas tramas e personagens. Aqui ele explora tudo na medida correta, sendo o resultado uma narrativa incrivelmente agradável e cativante, com pouquíssimas pontas soltas. Claro, ainda existem aqueles ótimos momentos de dúvida nos quais não é possível dizer com clareza o que é real ou não.

O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação é um dos meus livros favoritos de Haruki Murakami. A trama tem uma atmosfera triste e melancólica, mas traz uma mensagem de superação e amadurecimento, se encaixando bem com a nossa vida. É também um trabalho notável do autor, pois apresenta todas as características de escrita dele sem exageros, amarradas em uma escrita prazerosa. O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação é uma leitura que recomendo para qualquer um — seja fã do autor ou alguém que procure uma história envolvente.

Ele se ajeitou na cadeira e tomou um gole de água com gelo. Restou apenas uma tristeza silenciosa. Sentiu uma dor lancinante no lado esquerdo do peito, como se tivesse sido apunhalado com uma faca afiada. Sentiu o calor desagradável do sangue escorrendo. Provavelmente era sangue. Fazia tempo que não sentia esse tipo de dor. Talvez não sentisse aquilo desde o verão do segundo ano da faculdade, quando fora rejeitado pelos quatro grandes amigos. Ele fechou os olhos e vagueou por um tempo nesse mundo da dor, como se deixasse flutuar o corpo na água. Ainda é melhor sentir dor, ele procurou pensar. O pior é não sentir nem ao menos dor. (Pág 218)

Anúncios

12 comentários em “Resenha: O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, de Haruki Murakami”

  1. Parabéns pela resenha

    Gostei bastante desse livro, apesar de ser o mais depressivo de Murakami que li até agora. Leitura flui fácil principalmente na hora que ele vai descobri o porque do motivo de seus amigos cortarem a relação com ele. Enfim, acho que esse final não me surpreendeu… é típico de Murakami não dá respostas fazendo com que os leitores tenham suas próprias teorias.

    1. Fico feliz de saber que gostou do meu texto, Igor 🙂

      Concordo que é um dos livros mais depressivos (se não o mais) do Murakami, mas mesmo assim é uma ótima leitura. Eu gosto dessa característica do autor de deixar algumas coisas em aberto, para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões — mesmo que em algumas obras ele deixe pontas soltas demais, a ponto de ser irritante, haha.

  2. Oi Farley, tudo bom? Foi o primeiro livro que li dele…e realmente o que mais me impressionou no livro foi a relação dele com Haida…não com os 4 amigos coloridos…você leu outros dele? Mais alguma indicação? Eu gostaria de no final desse livro, ter tido a explicação sobre o Haida e mais, sobre o pai dele…Isso que ficou na minha cabeça. Abs!

    1. Olá Fabiolla 🙂

      Realmente, a relação dele com o Haida foi curiosa. Achei interessante o fato de o Murakami ter explorado bem isso, afinal a narrativa mostra mais intimamente a amizade deles do que a relação do Tsukuru com os quatro coloridos. Sobre o que acontece com o Haida, eu tenho algumas teorias… mas é natural do Murakami deixar essas coisas em aberto, haha.

      Sim, eu li praticamente todas as obras dele e escrevi sobre elas aqui no blog (dá uma olhada aqui). Pra você que está conhecendo o autor agora, eu recomendaria “Após o anoitecer“, “Norwegian Wood” e “Kafka à Beira-mar“.

      Abraço 😀

  3. Oi,Farley.Terminei neste exato momento O Incolor Tsukuru e gostaria se saber sua teoria sobre o final do livro.
    Outra coisa,quando o autor comenta de um atentado ao metrô de Tóquio em 1995,fiquei tão tensa,achando que o protagonista ou Sara estivessem no trem;que praticamente o devorei em poucos minutos.

    Obg

    Leslie

    1. Olá Leslie,

      Minha teoria é que o Tsukuru e a Sara não ficam juntos. Eu acredito que isso acontece por conta do amadurecimento do Tsukuru, principalmente depois dele conversar com a Eri na Finlândia — a desconfiança deve ter destruído o relacionamento deles.

      Sobre o atentado ao metrô de Tóquio: trata-se do livro “Underground”, certo? Esse livro é na verdade uma coletânea de entrevistas que o Murakami fez sobre o atentado de 1995, ou seja, é basicamente uma reportagem. Como não li o livro (ainda), não sei dizer se tem alguma relação com “O Incolor Tsukuru Tazaki”.

      Té mais 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s