Resenha: Garota Exemplar, de Gillian Flynn

É uma época muito difícil para ser uma pessoa, apenas uma pessoa real, de verdade, em vez de uma coleção de traços de personalidade escolhidos de uma interminável máquina automática de personagens.
E se todos nós estamos atuando, não pode existir algo como uma alma gêmea, porque não temos almas genuínas.
Chegara ao ponto em que parecia que nada importava, pois não sou uma pessoa de verdade, e ninguém mais é.
Eu teria feito qualquer coisa para me sentir real novamente. (pág. 86)

Um suposto crime brutal, no qual um casamento perfeito e invejado é destruído — e o principal suspeito é o marido. Garota Exemplar me seduziu com essa premissa de romance policial, mas me surpreendeu por ter ido muito além disso.

Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino? Com sua irmã gêmea Margo a seu lado, Nick afirma inocência. O problema é: se não foi Nick, onde está Amy? E por que todas as pistas apontam para ele?

A premissa básica de Garota Exemplar, em um primeiro momento, parece simples: um casal em crise e repleto de problemas, que culmina em um suposto assassinato. É fácil classificar o estilo como “drama” ou “romance policial”, mas, pouco a pouco, a história se revela algo muito mais complexo e tenso.

Sim, existe a análise do casamento conturbado e um suposto crime complicado, mas isso é só o começo. A autora constrói minuciosamente os dois protagonistas, tornando-os muito reais. Nick é filho de pais separados, o que o deixou com uma personalidade dura e indiferente a certos aspectos da vida. Já Amy é a “filha perfeita” de um casal rico, que tem como fantasma “Amy Exemplar”, uma série de livros baseada nela mesma  — basicamente uma mensagem dos pais dela de como eles acham que ela deveria ser. Inicialmente parece que os dois se completam, mas a verdade é bem longe disso — e a crise do sumiço de Amy deixa isso bem claro.

Os capítulos são escritos em primeira pessoa e alternam entre Nick lidando com o sumiço da esposa e sua suposta incriminação e o diário de Amy, que mostra a vida dela desde o momento que conheceu Nick. O resultado é uma trama dinâmica, que aborda as questões de vários pontos de vista e opiniões diferentes. Em todo momento a dúvida é uma constante e você sempre se pergunta o que realmente aconteceu com Amy. Fatos e passagens fazem o leitor mudar de opinião a todo momento: em uma hora você duvida que Nick está falando a verdade, já em outro parece que Amy está inventando coisas. Os rumos da história mudam drasticamente com frequência e a vontade é sempre querer saber o que vai acontecer — me surpreendi a todo momento, principalmente com o final.

Os noticiários mostrariam Nick Dunne, marido da mulher desaparecida, de pé metalicamente junto ao sogro, braços cruzados, olhos vidrados, parecendo quase entediado, enquanto os pais de Amy choravam. E então, ainda pior. Minha antiga reação, a necessidade de lembrar às pessoas que eu não era um babaca, que era um cara legal apesar do olhar frio, do rosto de babaca pretensioso.
Então lá veio ele, do nada, enquanto Rand implorava pela volta da filha: um sorriso assassino. (pág. 77)

O que mais gostei em Garota Exemplar foi o cuidado da autora ao construir os protagonistas. Todas as ações deles são bem pautadas em suas personalidades, principalmente as mentiras e omissões. É desconcertante conhecer mentes tão perturbadas, capazes de fazer coisas terríveis para alcançar seus objetivos. Os defeitos do livro são só dois: o começo lento e alguns pouco fatos um pouco absurdos demais para serem aceitos tranquilamente — mas, felizmente, eles pouco comprometem a experiência final.

Garota Exemplar é uma daquelas histórias que te prendem até o final por conta de sua trama interessante, dos personagens bem construídos e das várias reviravoltas da história. É também um questionamento instigante: o que acontece quando duas pessoas mentalmente complicadas (e até mesmo doentias) se juntam? Se procura um livro envolvente e surpreendente, não deixe de conferir Garota Exemplar.

Mas posso estar enganada, posso estar muito enganada. Porque algumas vezes, o modo como ele olha para mim… Aquele garoto doce da praia, o homem dos meus sonhos… Eu o flagro olhando para mim com aqueles olhos atentos, os olhos de um inseto, puro cálculo, e penso: Esse homem talvez me mate. (pág. 227)

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7 comentários em “Resenha: Garota Exemplar, de Gillian Flynn”

  1. Vi o filme a pouco tempo e achei espetacular. Não sei o quanto ele corta coisas do livro, mas você acha que seria interessante ler o livro também? Mesmo já conhecendo a história pela adaptação cinematográfica? Estou até interessado em outros trabalhos da autora xD

    1. Tassan, eu também assisti o filme e achei muito bom, mas gosto mais do livro. Muita coisa é cortada no filme e tudo é meio corrido — o livro constrói melhor alguns personagens e fatos. E o livro tem diferenças significativas a ponto de ser interessante lê-lo sim.

      Eu já estou com outro livro da autora na fila, também gostei muito dela 🙂

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