Jogador Número 1, de Ernest Cline

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Logo perdi a noção do tempo, esqueci que meu avatar estava no quarto de Halliday e que, na verdade, eu estava dentro de meu esconderijo, perto do aquecedor elétrico, fazendo gestos no ar e registrando comandos em um teclado imaginário. Todas as camadas sumiram, e eu me perdi no jogo dentro do jogo. (pág. 138)

Uma caça ao tesouro dentro de um mundo virtual, com inúmeras referências a jogos e cultura pop das décadas de 80 e 90: essa é a premissa de Jogador Número 1. Como fã de jogos e coisas similares, fiquei muito curioso em relação a esse livro… mas, infelizmente, ele não correspondeu às minhas expectativas.

Cinco estranhos e uma coisa em comum: a caça ao tesouro. Achar as pistas nesta guerra definirá o destino da humanidade. Em um futuro não muito distante, as pessoas abriram mão da vida real para viver em uma plataforma chamada OASIS. Neste mundo distópico, pistas são deixadas pelo criador do programa e quem achá-las herdará toda a sua fortuna. Como a maior parte da humanidade, o jovem Wade Watts escapa de sua miséria em OASIS. Mas ter achado a primeira pista para o tesouro deixou sua vida bastante complicada. De repente, parece que o mundo inteiro acompanha seus passos, e outros competidores se juntam à caçada. Só ele sabe onde encontrar as outras pistas: filmes, séries e músicas de uma época que o mundo era um bom lugar para viver. Para Wade, o que resta é vencer – pois esta é a única chance de sobrevivência.

Uma das coisas mais legais de Jogador Número 1 é a ambientação: a trama se passa em um futuro distante, no qual o mundo está em péssimo estado (guerras, fome, poluição, essas coisas) e as pessoas dependem de uma realidade virtual realista chamada OASIS. Com a ajuda de dispositivos hápticos — roupas e objetos que conseguem reproduzir sensações como tato e temperatura — e outras tecnologias, os humanos “vivem” dentro dessa plataforma virtual e fazem de tudo lá, desde ir à escola até mesmo trabalhar — a liberdade é grande nessa realidade paralela eletrônica. Ao invés de tentar resolver os problemas do mundo, a humanidade escolheu a válvula de escape.

Mas tudo muda com a morte do criador do OASIS. Ao invés de passar seus bens para alguém por meio de um testamento, o programador preparou um concurso. Ele escondeu um easter egg (termo do mundo dos games, que nada mais é que um segredo escondido em um jogo) dentro do OASIS e quem encontrar este objeto será o novo dono da plataforma virtual — ou seja, o ganhador do concurso assumirá o controle do mundo e receberá uma quantia incrível de dinheiro. Acontece que o programador era um grande fã da cultura pop das décadas de 80 e 90, logo todas as dicas têm a ver com isso. É nesse cenário que está Wade Watts, ele é um caça-ovo (nome daqueles que se empenham em encontrar o easter egg). Ele tem uma vida miserável e sua única esperança de melhora é conseguir vencer o concurso. É justamente ele o primeiro competidor a conseguir resolver um dos primeiros enigmas do concurso, muitos anos depois da morte do criador do OASIS. Por conta disso, sua vida muda e todo o mundo passa a acompanhar seus passos, inclusive pessoas muito perigosas.

A premissa de Jogador Número 1 é bem legal, mas a execução deixa muito a desejar. A caçada ao easter egg se passa no mundo virtual e lá praticamente tudo é possível. O resultado é um mundo de fantasia que mistura várias coisas da cultura pop, com várias passagens legais e criativas. Já Wade é um típico protagonista adolescente de personalidade rasa: ele é solitário, tem poucos amigos, tem pouco dinheiro e vê sua vida mudada pra melhor por conta do progresso no jogo. Outras características comuns do gênero “romance adolescente” também estão presentes, como personagens estereotipados e situações clichês e previsíveis.

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Wade acessando o OASIS

Um dos (supostos) destaques do livro é a grande quantidade de referências a jogos, filmes, músicas e cultura pop da década de 80 e 90. Acontece que para isso ser interessante e um diferencial, a pessoa tem que se conectar com esses fatos. Isso não funcionou pra mim, pois minha adolescência foi no final da década de 90, logo não entendi muitas das referências. Mas isso tanto faz no fim das contas: essas menções influenciam pouco a trama, que funcionaria perfeitamente bem sem elas. O principal motivo disso é a grande quantidade de deus ex machina na narrativa — muitos dos problemas e mistérios são resolvidos sozinhos por agentes externos ou por conclusões tiradas praticamente do nada. A sensação que eu tive foi que o autor usou essas mil referências pra tentar mascarar a narrativa e trama simplista.

Para mim, a parte mais interessante de Jogador Numero 1 tem a ver com a relação virtual versus real. Com tantas comodidades, o OASIS parece um lugar maravilhoso e sem problemas… logo, onde entra a vida real? Em alguns momentos, Wade se questiona sobre sua realidade e o quão triste é viver em um mundo virtual. O tom é bem melancólico, sendo que essa sensação é ampliada pela real situação do mundo. É uma reflexão interessante sobre como lidar com uma realidade mais atraente do que a vida real, algo que conseguimos adaptar com facilidade para nosso contexto atual das redes sociais e internet. Infelizmente o autor explora pouco essa relação, gostaria que o mundo real e a sociedade decadente tivessem mais espaço na trama. Gostei também de alguns pontos em que o real e virtual se tocam: em alguns momentos, ações no OASIS afetam o mundo real de maneira significativa.

Ali, sob as luzes fluorescentes de meu pequeno apartamento de um cômodo, não havia modo de escapar da verdade. Na vida real, eu não passava de um ermitão antissocial. Um recluso. Um geek pálido obcecado pela cultura pop. Um introvertido agrorafóbico, sem amigos, família ou contato com pessoas. Eu era apenas mais uma alma triste, perdida e solitária, desperdiçando a vida em um videogame. (pág. 251)

No geral, Jogador Número 1 é uma história divertida — mas não passa muito disso. O livro tem várias cenas legais, possibilitadas pela ambientação de mundo virtual que lembra um jogo online de escopo imenso. Infelizmente os personagens e trama básica são bem simples e previsíveis, fato ainda mais explicitado pela narrativa nada especial de Cline. A trama até flerta com uma reflexão sobre o real e o virtual e levanta alguns pontos, mas o assunto é deixado em segundo plano. Se gosta de videogames ou cultura pop da década 80/90, Jogador Número 1 é uma leitura ok; se não gosta de nada disso, corra para bem longe.

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