Olhe para mim, de Jennifer Egan

“Passei uma hora inteira olhando pelo círculo de luz leitosa em volta do espelho do banheiro. Segurei fotos antigas ao lado da minha imagem e tentei compará-las. Mas só descobri que, além de não saber que aspecto eu tinha agora, eu jamais soubera. As fotos antigas não ajudaram. (…) As fotografias ruins nos revelam exatamente sob o aspecto que desejamos nunca ser vistos, e, se as guardamos, elas não só serão encontradas, como também o serão invariavelmente pela única pessoa no mundo que menos queremos que nos veja assim.” (págs. 41-42)

Depois de ler A Visita Cruel do Tempo, me tornei fã de Jennifer Egan. Os diferentes tipos de narrativa, os vários personagens interessantes e o ótimo estilo de escrita da autora me conquistaram. Sendo assim, não resisti quando fiquei sabendo do lançamento no Brasil de Olhe para mim, a segunda obra da carreira de Egan.

“Após um acidente de carro, a modelo Charlotte Swenson tem o rosto reconstruído com 80 parafusos de titânio. Ela continua bonita, apesar de irreconhecível, mas isso não lhe traz nenhum consolo. Na tentativa de juntar os pedaços de sua vida, a modelo retorna para Nova York, onde percebe ter se tornado uma estranha em um mundo que antes dominava sem esforço. Além de Charlotte, a trama ainda apresenta a história de uma adolescente, que também se chama Charlotte, embarcando em uma perigosa vida secreta, de um detetive alcoólatra e um estranho enigmático que muda de nome e de sotaque enquanto planeja um ataque apolítico contra a sociedade americana.”

Neste romance, que foi lançado antes de A Visita Cruel do Tempo e O Torreão, Jennifer Egan já usou um recurso que considero característico dela: a exploração de inúmeros personagens simultaneamente. Na essência, a trama tem como protagonistas as duas Charlottes, mas outras pessoas também assumem a narrativa em alguns momentos. Eu, particularmente, gosto disso, me sinto instigado vendo a história se desenvolvendo de vários ângulos diferentes. O interessante é que por conta dessas mudanças de foco alguns pontos da trama não são completamente explicitados, cabendo aos leitores completarem ou ligarem os fatos sozinhos.

As duas Charlottes protagonistas são completamente diferentes: a mais velha é uma modelo cujo rosto mudou drasticamente após um acidente, a outra é uma adolescente que se envolve em um caso secreto. Mesmo tão distintas, as duas passam por dramas similares. Ambas estão em busca de identidade e de se provar para si e para os outros. Na verdade não só elas, mas todas as outras pessoas que têm algum espaço na trama também estão procurando isso. A história atenta também para o fato de que, no fim das contas, os indivíduos são solitários, mesmo alimentando inúmeros laços afetivos e relacionamentos — assim como na vida real. E é um pouco assustador perceber isso.

Um detalhe que aprecio nas obras de Egan, e que está presente em Olhe para mim, é o cuidado com que ela constrói cada personagem. Medos, motivações, atitudes: tudo isso é bem pensado e faz sentido dentro da vida de cada um deles. Acho interessante também o fato de que mesmo os (supostamente) personagens “corretos” têm pensamentos sujos e mesquinhos, aquelas coisas que raramente admitimos ou falamos. Isso os torna mais humanos e é fácil se simpatizar com eles. Dentre os personagens, gostei mais da Charlotte modelo: uma mulher que sempre quis ser o centro das atenções desde jovem, capaz de fazer qualquer coisa para isso e cuja visão de mundo muda muito depois do acidente. Já a Charlotte adolescente só passa por situações e dilemas usuais da idade, nada de mais.

O principal defeito de Olhe para mim está em algumas passagens arrastadas e desnecessariamente longas, que pouco adicionam à trama. Outro ponto negativo são personagens que ocupam várias passagens e não são nada interessantes ou relevantes — estes indivíduos, felizmente, são minoria. A obra tem também um ritmo meio desequilibrado: alguns capítulos são bem lentos, já outros têm acontecimentos em demasia. São coisas que incomodam, mas pouco estragam a experiência no geral.

Por baixo da suposta superficialidade, Olhe para mim é uma história sobre identidade, solidão e adaptação. A escrita de Egan, em conjunto com os personagens bem construídos e trama interessante, resultaram em uma ótima obra. Foi essa mistura que me fez gostar muitíssimo desse livro.

— Por que você não gosta de falar de você?
Afinal, uma pergunta a que eu podia responder. Um tópico que eu estava louca para abordar.
— Vou lhe dizer por quê  retruquei, dando meia-volta e plantando os pés no tapete para poder olhar diretamente para ela  Porque todo mundo é mentiroso. Inclusive eu.
(…)
— Em outras palavras, você tem medo de conversa séria.
— Medo. — Fiz que não com a cabeça. — Medo?
— Parece um mecanismo de defesa bastante padrão.
— Irene — chamei baixinho, e cheguei bem perto dela. — Você pode olhar para mim e jurar que tudo o que você acabou de dizer é absolutamente verdade, que nada é conversa fiada? Não há segundas intenções ocultas, nada de interesses pessoais: tudo é exatamente do jeito que você descreveu? Pode jurar isso, digamos, pela vida do seu marido?
Ela empalideceu, desviando o olhar. Lá estava: compreensão.” (pág. 87)

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