Resenha: O Chamado do Cuco, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)

“Como era fácil tirar proveito da tendência de uma pessoa à autodestruição; como era simples empurrá-las para a inexistência, depois de recuar, dar de ombros e concordar que este fora o resultado inevitável de uma vida caótica e catastrófica” (pág 375)

Romance policial é um dos meus estilos literários favoritos. Gosto muito de tentar desvendar os crimes e mistérios junto dos protagonistas e sempre mergulho completamente nesses mundos. Foi com surpresa que eu soube que J.K. Rowling, a autora da série Harry Potter, publicou um romance policial sob um pseudônimo Robert Galbraith, intitulado O Chamado do Cuco. Como fã do gênero e da escritora, fiz questão de conferir a obra.

Quando uma modelo problemática cai para a morte de uma varanda coberta de neve, presume-se que ela tenha cometido suicídio. No entanto, seu irmão tem suas dúvidas e decide chamar o detetive particular Cormoran Strike para investigar o caso.

Strike é um veterano de guerra, ferido física e psicologicamente, e sua vida está em desordem. O caso lhe garante uma sobrevida financeira, mas tem um custo pessoal: quanto mais ele mergulha no mundo complexo da jovem modelo, mais sombrias ficam as coisas e mais perto do perigo ele chega.

Um mistério supostamente simples, uma dupla de protagonistas excelente e uma narrativa que te prende: estes são os principais destaques de O Chamado do Cuco. Rowling… digo, Galbraith tem uma escrita simples e cristalina, que sempre consegue transmitir com clareza os fatos da trama. O resultado é uma leitura prazerosa e fácil de acompanhar. Descrições são feitas sempre na medida e não tem uma cena confusa, o que é extremamente importante quando o assunto é mistério policial.

No centro da trama estão o detetive Cormoran Strike e sua secretária temporária Robin Ellacott. Ele é um veterano de guerra que está passando por problemas financeiros e emocionais; ela é uma garota em busca de um bom trabalho e que passou por inúmeros empregos temporários. A personalidade de ambos é bem distinta e se complementa de maneira natural. Conforme as investigações avançam, a vida pessoal e motivação da dupla vai sendo revelada. Gostei muito dos dois por conta de serem personagens bem construídos e carismáticos.

Os personagens secundários também têm personalidade bem detalhada. Por conta das investigações de Cormoran, pouco a pouco vamos conhecendo melhor os envolvidos com o caso. É interessante também como a construção é feita: cada pessoa fala coisas diferentes de cada personagem, conhecemos cada um por diferentes ângulos e opiniões. Várias e várias vezes meus sentimentos sobre determinados personagens mudaram por conta das novas informações. Um destaque é Lula Landry, a modelo que supostamente cometeu suicídio. É incrível como Galbraith consegue personificar tão bem uma pessoa que não participa ativamente da trama por já estar morta.

São incomuns os romances policiais nos quais o leitor consegue montar suas teorias de acordo com as pistas que aparecem durante a trama. Felizmente em O Chamado do Cuco isso é perfeitamente possível. Isso se dá por conta das investigações de Cormoran: elas são bem completas e as conclusões são plausíveis. Eu, em muitos momentos, quando não estava lendo, tecia mil teorias e analisava as possibilidades, tentando encontrar também uma solução para o mistério. Senti-me dentro da história por conta disso.

Mas como era de se esperar, o romance não é perfeito. O primeiro problema fica por conta do grande volume de fatos e de nomes que aparecem pela história. Em muitos momentos os personagens mencionam coisas que aconteceram lá no começo da trama e nunca mais foram mencionadas, é fácil se sentir confuso e perdido quando isso acontece. Outra questão é sobre algumas poucas deduções de Cormoran que parecem vir do nada, resultando em explicações meio absurdas. Por fim tem o desequilíbrio de ritmo: em alguns capítulos quase nada acontece, já em outros fica difícil acompanhar tantas revelações.

É curioso o quanto o nome de um autor pesa no sucesso de um livro. J.K. Rowling escreveu a obra sob um pseudônimo, que foi recusada por algumas editoras (provavelmente por ser de um autor “iniciante”). “Galbraith” conseguiu um editor e o romance vendeu 8500 cópias, recebeu algumas críticas positivas e até ofertas de adaptações para televisão. Mas o sucesso só veio com a revelação do verdadeiro autor: a obra foi da 4709ª para a 1ª posição no Amazon.com do Reino Unido quando J.K. Rowling confirmou que era a autora de O Chamado do Cuco. O sucesso foi tremendo que uma continuação já está confirmada para 2014 (eba!). Uma entrevista completa sobre as motivações da autora pode ser lida no site da editora Rocco.

Confesso que comecei a ler a obra justamente por conta da autora ser J.K. Rowling. Fui completamente às cegas, sem saber direito do que se tratava a trama e sem grandes expectativas, assim como fiz com Morte Súbita. Felizmente me surpreendi completamente: O Chamado do Cuco é um ótimo romance, principalmente por conta de seus personagens cativantes, a trama bem amarrada e a narrativa precisa. Tudo isso fez com que ele se tornasse um dos meus livros favoritos. Gosta de mistérios e histórias instigantes? Dê uma chance a O Chamado do Cuco, é bem capaz que vá gostar.

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7 comentários em “Resenha: O Chamado do Cuco, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)”

  1. O livro é sensacional. Gostei demais, me envolvi e fiquei bolando diversas teorias hahaha.
    Morte súbita foi outro livro que me surpreendeu. Uma leitura simples e descompromissada que nos leva a um resultado que eu nunca imaginei que aconteceria! haahahaha

    Eu acho essa mulher sensacional, de verdade.

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